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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Valores de direita?

Depois da suposta deriva centrista do CDS com a candidatura de Assunção Cristas, a direita liberal está em polvorosa com as últimas declarações social-democratas de Pedro Passos Coelho. Fala-se do retorno à direita socialista de 1976, ao abandono dos valores de direita. 
Que valores são estes? Estamos a falar do valor da subsidiariedade, que valoriza a sociedade civil sobre o Estado, ou do valor da privatização selvagem, que substitui a Nação pela Empresa?
Ser de direita é, antes de qualquer teoria económica, preservar o político sobre o económico - fortalecer as instituições da nação, estatais e não estatais, públicas e privadas, no serviço do Bem Comum. Não tem nada a ver com uma certa necessidade imperiosa de certa "direita" em privatizar o próprio ar. A privatização é um mecanismo ao serviço dos Estados, não são os Estados que estão ao serviço das privatizações.
Enfim, só um pequeno lembrete. Boa semana a todos.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Muito pouco, muito tarde

Um dia simbólico para as crianças, o dia em que, ao mesmo tempo, se travaram duas propostas, uma contra a vida, outra contra a maternidade e a paternidade.
É simbólico que a esquerda estremeça de críticas. Por um lado, acha mal que não se entreguem crianças ao tipo de casais que quer ver enaltecido (depois de considerar, em tempos, o casamento como uma forma de prostituição legal) e ao mesmo tempo critica o facto de já não ser fácil matar antes do nascimento essas mesmas crianças. Sim, porque ainda é entre casos de mães carenciadas que se dão a maioria de casos de entrega à adopção ou de aborto. 
Estamos em 2016 e ainda há a necessidade de abortar por falta de condições sociais, ainda há preconceitos contra a maternidade, a maternidade ainda é um empecilho na vida profissional e pessoal de uma mulher. Mas claro, a morte e a destruição serão a eterna solução dos revolucionários sonhadores.
Cavaco acabou num tom de valentia e brio um mandato que não cantou da mesma maneira todo o tempo. Para a nota de rodapé da história fica uma última resistência a um sintoma de degeneração social, a cultura da morte e da esterilidade.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Amor Desesperado

O grande problema da defesa da identidade e da tradição é ser feita por homens desapaixonados.
Perante uma turba enlouquecida por uma sentimentalidade oca e consumista, de satisfação rápida e egoísta, a levantar as bandeiras e os estandartes do aborto, do casamento homossexual, da adopção gay, a propaganda do "se EU sou assim, quem ME pode impedir?", o que pode um homem meramente calculista, agarrado à prudência dos velhos e dos cansados?
Nada.
A defesa da identidade faz-se por almas apaixonadas, capazes de encher o coração, por uma vez que seja, de irracional bondade e sacrifício, de um amor incondicional que só conheça a entrega total de um coração em chamas.
Essa generosidade é sempre jovem, sempre alegre, cantando no caminho para o holocausto, tem como vontade suprema agradecer a gratidão de um espírito maior.
A Pátria deve ser livre, acima de tudo e todos? Deve, porque me deu tudo o que tenho - a língua, o local, o sentimento, a raiz.
E quantas vezes não são os próprios responsáveis por esta árvore, que é a tradição, os primeiros a envenenar as suas raízes?
Os velhos com mentalidade de cachopos, os curas com mentalidade de doentes. Lembro-me de viajar por uma terra em que o padre se orgulhava da sua luta contra as carpideiras, as mulheres a quem se pagava para que chorassem os mortos. Como se chorar não fosse uma ocupação nobre, como se a lágrima não fosse um presento cheio de beleza à memória de um morto.
A tradição dessa terra ditava que não se poupassem esforços a chorar a morte de um dos seus. Não se desprezavam lágrimas algumas, nem as da saudade nem as de obrigação. Mas a planura árida do sentido de estética estéril de um padre, infelizmente, conseguiu fazer prevalecer sobre a honestidade de uma crença local.
Deve assim o casamento entre homem e mulher ser a base da nossa sociedade? Sim, porque nestes dois opostos indestrinçáveis é que se encontra o segredo da sociedade, da família, da comunidade.
Deve o trabalho ser protegido, os nossos conterrâneos favorecidos no seu lar, as nossas instituições prevalecer sobre os interesses estrangeiros, sobre a ganância dos ricos?
Sim. Porque o que é nosso é maior do que nós, porque aquilo que merece ser protegido vale mais do que todo o dinheiro do mundo. Que um pai e uma mãe eduquem os seus filhos é mais valioso para um país que um arranha-céus pejado de escritórios de advogados e economistas. 
E é a paixão que reside neste factor tão simples, neste recipiente de infinito amor, que reside a base de qualquer programa que defenda, acima de tudo, a identidade de um País.

Todos Jeitosos

Em qualquer outro país a criminalização do piropo daria lugar a abusos preocupantes. Portugal, contudo, nação velha que ainda forma juízes com o rigor desmedido e ineficaz dos tempos antigos, vai lidar com esta medida com o mesmo espírito com que lida com a maior parte da legislação social proposta pela esquerda desde 1820 - vai permitir um burburinho inicial, aplicar a sentença na íntegra a alguns pobres incautos para depois, mais tarde, deixar a lei cair em letra morta, permitindo que o país volte à sua normalidade preguiçosa e meridional.
A coisa boa de terem impedido, quase definitivamente, que este país melhore para qualquer mediocridade decente, é que também o tornaram impermeável a tornar-se numa qualquer utopia de merda.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Sublime Portas

Portas foi o único político português deste século que conseguiu criar a oportunidade de um partido conservador em Portugal que não estivesse dependente das infra-estruturas do Estado.
Foi também a causa pela qual esse partido conservador nunca existiu de facto.
Portas ligou com mestria um eleitorado católico e tradicional a um quadro partidário essencialmente liberal e individualista. Nas bases desse quadro, atraiu para o seu partido empresários, capitalistas, toda uma jovem geração de jovens empreendedores anti-Estado e de pensamento anglo-saxónico.
No entanto, Portas é e sempre foi um patriota, francófono, conservador, amante das coisas portuguesas, anti-burguês, alérgico ao empreiteiro novo-rico de meia branca que tomou conta do PSD. Entre os seus heróis de ficção está o mercenário e aventureiro anarquista Corto Maltese.
Criou o jornal mais controverso da segunda metade do século XX.
Podia e devia ter sido o Gandalf da Direita Portuguesa.
Mas não foi, porque não quis e porque não deixaram. Afinal de contas, no mundo medíocre da política portuguesa, dominado pela inércia social democrata e a inaptidão socialista, Portas era um gigante entre anões, mas um gigante muito só.
Um gigante que ameaça agora fazer uma sesta. Veremos.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Entre a Revolução e a Tradição - uma herança, um contributo, para um pensamento político português

«Anti-comercial queria dizer, para aquele agente consular britânico (Hoppner), que o Portugal tradicionalista entendia ser selfsufficing, isto é, prover às suas necessidades com a sua própria produção agrícola e industrial, o que era o meio mais seguro de consagrar sua independência política zelando sua independência económica.
Não havia, segundo Hoppner, ninguém mais nativista do que o próprio Rei (D. Miguel), que ele compara com Marat e Robespierre e cujo ideal seria "obrigar os ingleses actualmente estabelecidos em Portugal a deixarem o país", suspendendo para este efeito as relações comerciais entre as duas nações, como o "exigiam os compromissos que o ligam a Espanha". Unidas com tal intuito, as duas potências estabeleceriam nesta parte da Europa um verdadeiro bloqueio continental. Era uma vez o comércio inglês com a Península Ibérica se D. Miguel triunfasse, mesmo reconhecido pela Grã-Bretanha, o que julgaria haver sido uma deferência à Espanha.»
Oliveira Lima, D. Miguel No Trono (1828-1833). Coimbra: Imprensa da Universidade, 1933,pág. 177-178

domingo, 22 de novembro de 2015

Lei da Abdução

A recente vitória LGBT no parlamento português foi uma grande vitória para a geração Tumblr lusa e para a decadente burguesia endinheirada do portugalório.
Relembrando as palavras de Alain Soral, a sodomia não é uma característica nem social nem política - ou seja, não define qualquer tipo de causa ou activismo. Logo, não se desenganem - o "gay" citadino e com dinheiro que vai ao Miguel Bombarda fazer compras continuará a ser um óptimo exemplo de como se pode educar um puto e aparecer nas festas do Gays'r'us, enquanto que o pobre paneleirote da esquina continuará a ser o tarado do sítio.
It's all about the money. E porquê?
Em Abril de 2011, segundo dados do DN, existiam no mês de Abril desse ano 1.879 candidaturas de casais e 385 individuais. No mesmo mês, em condições de serem adoptados estavam apenas 532 menores.
Em Dezembro de 2014, segundo um artigo do Público, havia um total de 1805 candidatos em lista de espera para adoptar e 429 crianças em situação de adoptabilidade - ou seja, o número de candidatos era quatro vezes superior ao número de crianças que podiam ser adoptadas.
Ninguém está a fazer legislação social pelas crianças. Estão a fazê-la para um pequeníssimo grupo de homossexuais com dinheiro suficiente para passar à frente das listas de espera e negar às crianças o direito a um modelo de maternidade e de paternidade. Modelo esse a que muitos dos "activistas" tiveram direito e agora querem ver recusado a outros.
Nós, o que somos aparentemente movidos "pelo ódio e pelo preconceito", não nos podem acusar de sermos movidos pela cobiça, pelo capricho, pelo egoísmo. Muito menos pela ignorância e ingenuidade de quem assiste indiferente à degradação da nossa cultura.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

O Choque bem-educadinho

A minoria de católicos que ainda se interessa "por temáticas em geral" acordou muito abismada.
O pânico foi geral, mas sempre muito controladinho, para não causar choque ou escândalo.
Era ver o cacarejar das colegiais: os bispos reuniram com os juristas católicos e lá pariram mais um lembrete, que todos estamos à espera de ignorar, perorando a legislação sobre aborto e adopção homossexual.
Amanhã vai ficar este grupo de gente nervosa muito impressionada com o facto de, num país onde 80% da população se diz apostólica e romana, ninguém querer saber da sua epifania moral.
Estou aflito por presenciar as lágrimas. 
Não se preocuparam quando o vendilhame político mandou ao ar a soberania, a indústria, a agricultura, a cultura. Que o estado se tornasse sorvedouro de receita e poleiro de interesses, nem lhes tirou o sono. E agora aparecem muito aflitas, porque o país não bate a bota com a perdigota. Resignem-se senhoras e senhoras, já perderam o país há mais de 60 anos. Pelo andar da carruagem, ainda perdem a nacionalidade.

sábado, 31 de outubro de 2015

Acção e Pensamento

Horácio Vilela merece toda a publicidade por esta iniciativa. Dentro do pensamento independente da direita há um excedente de meninos com manias aristocráticas que vivem da fama rebelde do Politicamente Incorrecto. Remetem-se depois ao sofá, à guerrilha de teclado e ao azedume que espalham pelos seus correlegionários, empatando aquilo para o qual nada fazem por cultivar. Na sua vida de enfants terribles só há movimento e esforço para aquilo que lhes agrada e só enquanto lhes agradar.
O verdadeiro sacrifício de tempo, meios e saúde está nestas acções de divulgação, de manifestação política, de empenho em servir as instituições nacionais e ocupar, assim, um espaço de proeminência suficientemente visível para incomodar o poder estabelecido por detrás das câmaras e dos parlamentos, nos bastidores das Lojas e das sedes partidárias.
Na teoria só saltam as incongruências das doutrinas e as rivalidades pessoais - na acção é que se realiza a verdadeira política, é que se foram os verdadeiros laços de união e lealdade.
De salientar que Horácio Vilela falou abertamente em patriotismo, nas nossas raízes cristãs e na família lusa como guias da sua acção, uma acção que visa combater o descrédito nacional e a irresponsabilidade orçamental de uma Esquerda que vai deitar por terra os esforços dos últimos anos. Acção, por Portugal e pelos portugueses, pela integridade da Pátria e pelos negócios, vidas e sacrifícios dos portugueses, apoiada por um discurso limpo e sincero.
Além da minha admiração, revelo também a minha inveja, em competição amigável e construtiva, por não ter sido eu a dizer estas palavras:

"Não sou, nem nunca fui, militante de qualquer partido. Sou patriota, e como tal o meu partido é o bem de Portugal.
Há uma palavra que só existe em português e que exprime bem o ideal que Portugal deve reincarnar, a ‹‹saudade››. Esta palavra traduz um sentimento há muito perdido, de sentir falta de algo que ainda não conhecemos, que nos motiva para um regresso ao desconhecido, que nos dá o espírito do descobrimento. É a este espírito que os portugueses devem de regressar, o espírito de levar a pátria ao progresso mesmo não conhecendo o seu porto. Penso que o suporte ideal para tal espírito proliferar é o da liberdade e do dever. A liberdade para descobrir e o dever de o cumprir.
Portugal deve construir um sistema político que espelhe a sua pátria e não um franchise estrangeiro como o que actualmente vigora, que aliás não considero sequer o melhor exemplo para adoptar. Com muito melhores olhos vejo o sistema tripartido inglês de Monarquia, Câmara dos Lordes e Câmara dos Comuns. Os portugueses e principalmente os portugueses com voz política devem questionar-se se há hoje em Portugal um sistema em que a virtude reja e dirija. Se não o considerarem, como eu, tratem de promover o necessário para que tal se manifeste no futuro. Não em disputas partidárias mas na gestação de um novo sistema, um genuinamente português."

sábado, 24 de outubro de 2015

PREConceitos ou lá o raio que os parta

Esta Direita que vive amedrontada com o PREC falha em ver as verdadeiras ameaças aos seus postulados. Normalmente, o despesismo das políticas estatais, quanto maior, mais danos faz. Assim, para a quantidade de capitais estupidamente desperdiçados entre 75 e 76, o PREC foi surpreendentemente inócuo. A lealdade do eleitorado alentejano, mais do que para com os efeitos dessa política, vai para os partidos, nomeadamente a CDU, que se tornaram os seus porta-vozes contra alguma elite terra-tenente lisboeta que tratava aquela província como o seu parque de diversões e a sua minazinha de ouro.
Se a Direita quiser saber quem é a culpada pelo crescimento do número de abortos, de divórcios, da violência urbana, do vandalismo, da precariedade laboral e do desrespeito pelos mais básicos direitos dos trabalhadores, da venda desbaratada aos nossos aliados da nossa soberania pode bem começar a apontar o dedo aos yuppies dos anos oitenta que implantaram cá a Sociedade de Consumo nos seus moldes mais desumanos, assim como toda uma nova ideologia bancocrática que nos tornou reféns dos mercados.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Situar-se...

Se por acaso se encontrarem na capital, de preferência com algum tempo livre, metam-se no metro e saiam no Martim Moniz. De lá, subam a Rua da Palma, passem o Núcleo Fotográfico do Arquivo Municipal de Lisboa e parem no número 270. Nessa pequena e bonitinha moradia alfacinha está a sede do Bloco de Esquerda, onde os líderes do PS e do BE se encontraram para discutir o futuro do nosso país. É importante a noção do lugar para desmistificar a política - saber que as coisas se passam numa rua florida e simpática e não numa mansão de marfim e granito povoada por eminentes autoridades e gárgulas milenares.
O que quer que se tenha discutido neste "lugarito" inchou Catarina Martins de tais veleidades - até o peito púdico ufanava de excitação! - que a pobre ia desmaiando de importância ao declarar o fim do Governo Coelho/Portas. Que momento, que pingente de orgulho!
E foi ali, exactamente ali, a três passos do Intendente, num palacete redecorado e adaptado para goles palacianos, que o resultado de uma eleição que assegurou a adesão ao partido do governo de todos os distritos a Norte do Tejo (excepto Castelo Branco, se não me engano) e a vitória em todos os principais concelhos do país, foi posto de lado pelo entendimento entre duas forças minoritárias.
Isto não é uma declaração de princípios, não é a defesa de proposta nenhuma de governo. Em democracia é necessário que instituições republicanas, colegiais ou não, amorteçam as consequências de uma excessiva influência dos sufrágios e das suas maiorias. E a Esquerda mais Democrática tem tanto direito a usar estas instituições como a Direita.
Cabe-nos a nós, contudo, pensar na forma como estes controlos nos limitam e na forma como cada força política os usa - especialmente quando os partidos se comportam como gabinetes burocráticos que desprezam qualquer tipo de análise mais abrangente sobre os resultados eleitorais.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Saco de gatos.

O país vai discutir nos próximos dias a hipótese de uma aliança entre CDU e PS que permita a formação de um governo. O projecto, a ser apresentado a Cavaco, com certeza terá o apoio, ainda que só apalavrado, do Bloco de Esquerda.
Não faltam comentadores e militantes da coligação a mostrar a indignação com esta lição anti-democrática da esquerda. Porque é, sem dúvida, uma lição contrária aos princípios básicos de um regime democrático. De facto, ainda que os partidos do governo tenham perdido a maioria absoluta, garantiram a maioria relativa. Continuam a ser a escolha maioritária dos portugueses. Os partidos de esquerda, mesmo depois do apelo ao voto útil, de desfeitas as possibilidades de coligação pré-campanha, não obtiveram individualmente a soma suficiente de votos para vencer as eleições, ou seja, individualmente não conseguiram convencer o eleitorado das suas propostas. A coligação do centro-centro conseguiu.
Depois desta pequena volta pela alameda do senso-comum, o leitor é convidado à realidade. A esquerda em Portugal sente-se à vontade com a democracia como um proxeneta num lupanar. As regras são ditadas por quem preenche o papel sacerdotal do regime - e desde o 25 de Novembro que essa é a principal prerrogativa da esquerda. Ela tira retira, põe e despõe como bem lhe der jeito. A direita, que não existe, não tem voz, só tem conversa de merceeiro.
O que os senhores da dita direita se esquecem é que esta é a perfeita oportunidade civilizacional para que a esquerda se coloque toda no mesmo saco e se atire ao rio. Porque uma coligação de forças de esquerda é um saco de gatos, é a tentativa de combinar um PS esfomeado com um BE incompetente, metendo pelo meio uma CDU cuja voz nunca será satisfatória ou suficientemente poderosa.

domingo, 4 de outubro de 2015

Injustiças e vitórias pírricas.

Independentemente do regime em vigor, a política é sempre um jogo injusto. Esta derrota do PS faz lembrar um injustiçado, António José Seguro. Seguro sempre me lembrou aqueles militantes do PS, dos mais antigos, que acreditam piamente que o Estado precisa não só do PS, mas da sua estrutura e organização internas, quase como se o modelo da social-democracia europeia para o país fosse, mais do que a ideologia, a burocracia do Partido Socialista. E assim, depois do furacão Sócrates, Seguro ocupou-se a reconstruir e a olear essa grande máquina partidária que é o PS. Foi especialmente castigado pela juventude do seu partido, coio de ambições desmedidas, que se deixou levar pelo carisma de Costa. Mesmo assim, exilado pelo partido que procurou ressuscitar, Seguro não foi um foco de dissensão. Até ao fim, foi um homem do partido.
Outra profunda injustiçada, desta vez pelo resultado eleitoral, é a direita portuguesa. O acto eleitoral conheceu uma percentagem de abstenção acima dos 40%. A coligação dos dois partidos de centro-direita do país não conseguiu muito mais do que 37% dos votos. À direita deste resultado, o deserto. Não existe mais direita, para além desta desoladora percentagem, em Portugal. Uma direita que só existe pela necessidade suscitada no eleitorado de "pôr as contas em ordem". O CDS vê-se dissolvido, por esta vitória pírrica, nesse consórcio de Baronatos, Interesses e Companhia Lda. que é o PSD. A importância que tem no seio da coligação, ninguém sabe. Sabe-se que é pouca. Pouca, que o obriga a uma subalternização que levará, possivelmente, à fusão e extinção do único partido de representação parlamentar que se aproxima, ou aproximava, daquilo que é uma direita, no plano económico, cultural, social, histórico. A vitória da coligação marca o primeiro ano oficial da III República em que não existe direita no parlamento português, apenas um centrão tecnocrático, que preencherá a miragem de uma direita neo-liberal fascista que é a riqueza de tanta narrativa esquerdista.
A provar-se a incapacidade da esquerda em se comprometer e coligar - o maior obstáculo é a fome de Estado do Partido Socialista, que está desesperado e não pode dar-se ao luxo de repartir o bolo com ninguém - fica a esta direita a responsabilidade de governar, com pinças. Tem ao seu dispor a ausência de união dos adversários e a possibilidade de explorar as previsíveis dissidências dentro do Partido Socialista. Isto e, claro, o medo da falência do Estado. Basta não ser muito glutão quando chegar a hora de fatiar o Erário Público.

Manuel prático de voto II

Considerações para o dia da urna

Um PS que de socialista só tem o nome, que lhe ficaria melhor ser Despesista, Lobyista, Lojista.
Um PSD que não é nada, a não ser um emaranhado de interesses e ambições dos representantes dos grandes escritórios de advogados, dos grandes compadrios industriais e dos pachás que governam a província.
Um CDS democrata-cristão, popular, conservador, liberal, mas que não sabe governar nem agir de acordo com nenhuma destas ideologias, deixando-se levar pelo sabor dos ventos e pelo carisma do seu líder que é princípio, meio e fim da essência daquele partido.
Um Bloco de Esquerda que não é nenhuma esquerda, é uma confeitaria new left pós-social-democrata, promotora de todas as causas fracturantes apoiadas pelas corporações capitalistas mais poderosas à face da terra, cuja ideologia passa pela promoção dos instintos mais baixos e acaba na promoção dos instintos mais baixos. Isto tudo polvilhado com intervenções parlamentares suficientemente mediáticas para chamar a atenção.

São estas as parcas escolhas do eleitorado comum, escolhas essas que ainda atrofiam mais quando se procura outras soluções à direita. O PNR foi absolutamente desprezado pelos meios de comunicação, mas ainda assim fez questão de apostar todas as suas hipóteses de algum tipo de mediatismo numa acção de rua contra a emigração, um problema tão residual em Portugal que é ridículo sequer tê-lo em conta como parte de um programa eleitoral. O PNR é um partido que nasceu mal e que morrerá mal, uma vez que é dominado por um meio lisboeta que não tem qualificações para a luta política.

Fazemos uma ressalva para uma esquerda que mantém a ortodoxia militante, que se diz patriótica (e é) e valoriza o trabalho e a soberania nacional. O nacionalismo e o conservadorismo português têm muito a aprender com esta CDU, que merece um bom resultado nestas eleições.

domingo, 27 de setembro de 2015

Levar a sério os artistas

Em Portugal reina o mau hábito de tratar mal os artistas.
Em décadas recentes junta-se ao mau trato a conversa da treta. Já não chegava não pagar a tempo e horas os salários, deixar definhar nas gavetas dos orçamentos de Estado a Cultura nacional, mas agora ainda fazemos passar os artistas pelas vielas do ridículo.

É ver os telejornais a convidar os esfomeados músicos para virem falar sobre política, as faculdades a aspergir teses sobre as ideologias dos poetas, os comediantes feitos jornalistas e os actores armados em cronistas.
O facto de um pobre coitado conseguir esguelhar um som bestial numas cordas de guitarra, ou sacar umas risadas tremendas, não faz dele um Séneca da actualidade.
Gostamos muito da poesia de Fernando Pessoa, da música de Zeca Afonso e da prosa de Lobo Antunes.

Mas aquilo que estes três publicaram, pensaram ou ladraram em termos de política, sociedade ou história nacional é uma valente merda. No mínimo, risível. No máximo, chocante. No todo, medíocre.

Enquanto escrevo estas linhas, estou a ouvir o álbum Crónicas da Terra Ardente, de Fausto Bordalo Dias. Um lindo álbum.
Contudo, se consultarmos a internet sobre este autor, damos com uma entrevista do autor em que este vomita uma pilha épica de merda sobre temas como economia, política, etc. O respeitado autor deambula febrilmente por entre temas como cidadania e 25 de Abril com a graça de um crocodilo numa maternidade. Não vai ser por isso que vou desistir deste belo álbum - tal como não vou deixar de rever os brilhantes episódios dos Gatos Fedorentos passados na Sic Radical apenas por causa das figuras patéticas de Ricardo Araújo Pereira para criar um híbrido monstruoso entre Jon Stewart, Conan O'Brien e Jay Leno.

Quero com isto dizer que os artistas devem ser afastados da política? Claro que não. Quando fazem da política uma forma de arte, o seu contributo é mais que bem vindo. Basta ver as páginas brilhantes de Almada Negreiros. No restante, deixem a arte valer por si.


quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Flocos de Neve

No último texto divaguei um pouco sobre a temática dos senhores e senhoras que pensam que Portugal é um floco de neve, que não descansam enquanto não provam que este país foi posto neste lugar de propósito pelos deuses para ser abençoado por algum tipo de mistério iniciático redentor. Com isto tudo, não quero dizer que não acredite no plano singular que Portugal ocupa no plano religioso e espiritual. A minha aversão aos indefiníveis, aos pós de pirilimpimpim que tornam todas as coisas boas em névoa indistinta, é para mim a prova de que respeito aquilo que pretendo chamar, talvez erroneamente, manifestação metafísica do meu lar, da minha pátria, das minhas tradições, do legado dos meus antepassados.

Esse legado é material e imaterial, santo e pecador, bom e mau. À volta dele construímos um discurso, uma narrativa, uma História, que legitima as escolhas e caminhos que os antigos tomaram. Esse discurso, contudo, não nos pode afastar da realidade - uma vez que ele mesmo é parte da nossa herança. É uma ferramenta que devemos usar - não uma desculpa para enfiarmos a cabeça na areia, uma cegueira simpática.

Um dos lemas deste blogue, a fazer uma recolha dos vários, seria "Portugal não é na Lua". Este lema não pretende abrir portas ao oportunismo, mas antes um lembrete daquilo que é, para mim, a verdadeira linha de princípios para um pensamento nacional, político, social e espiritual. Queiramos chamar-lhe uma doutrina nacionalista, de direita ou conservadora.

A Sageza e a Inteligência existem para ser postas em prática e partilhadas pelas gentes da Causa. Não para se guardarem ciosa e ciumentamente em caves, garagens e em prateleiras.

Amor é Sacrifício, Sacrifício Eterno e incondicional. A Fortaleza passa por não ceder ao capricho pessoal, à ambição mesquinha, enquanto nos abrimos às inseguranças e medos dos nossos pares e amigos, apenas para os suplantar, transformando-nos num baluarte de firmeza, mas também de ternura.

E este Amor não é nada sem nos inteirarmos das nossas fraquezas, dos nossos limites e dos nossos rivais. Que aquilo que perdemos, que abdicamos, por preguiça, por fraqueza ou porque estamos demasiado ocupados a discutir entre nós e a perseverar na nossa vaidade, vai-nos fazer muita falta, ou pior, vai fazer muita falta àquilo que sobrar dos nossos sucessores.
Que nos sirva de exemplo a Espanha que derrete na Catalunha, porque não faltavam entre os espanhóis aqueles que julgavam que a sua pátria era eterna, que o seu espírito não morreria, que tudo ia acabar bem. Quem não tende os campos vê crescer silvas, depois mato, até se perder a terra que os avós lavraram.
Castigo bem merecido ao falso Aliado que nos virou as costas tantas vezes no último século, conspirando com outros nossos pretensos amigos a nossa anexação. Também a Espanha foi em tempos protectora da Europa e da Cristandade, se calhar mais até do que nós.
Ainda assim, deixou-se abater, como nós, pela Lenda Negra que os países inimigos lhe imputaram, encheu-se de ódio de si mesma e devorou-se. Também em Espanha há aqueles que julgam viver num floco de neve, numa Espanha que plantou universidades no Novo Mundo por filantropia e sentido de civilização. A quem se deve fidelidade porque sim.
Assim, dividida entre os inimigos da terra, que são ao mesmo tempo seus filhos, e os filhos da terra que vivem no mundo da Lua, a Espanha caminha para o seu fim. Fim esse que poderá provar-se a nossa grande oportunidade - tal como a independência da Escócia prova o fim de outro falso amigo e aliado.

Oportunidade para reclamar, com inteligência e com firmeza, para a Nação, a base suficiente da independência efectiva, num cenário de desintegração de velhas fronteiras e, quiçá, da própria União Europeia. Firmeza para os maiores sacrifícios, inteligência para entendermos que, à mínima hesitação ou ao mínimo passo em falso, aquilo que amamos desaparece.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

O Mika Antunès

Neste blogue fazemos, não raras vezes, uma defesa obstinada da tradição do povo português. Ao leitor deambulante que por aqui tropeça, essa defesa pode parecer uma intransigência iracional, meramente anacrónica, simplesmente fetichista.

Não têm sido poucos os esforços para evitar essa confusão. Nada tem sido mais prejudicial à criação de um pensamento "de direita", conservador e verdadeiramente radical, que o anacronismo e o "patrioteirismo da romantiquisse", aquele discurso de embuste cheio de sentimentalismos bacocos, das saudades de um Portugal de vistas curtas.

De facto, para o êxito de um pensamento renovado há que aceitar e criticar certas características do povo português, de certos elementos do povo português. Um dos filmes que mais lágrimas patróticas derramou nos últimos tempos foi o engraçadíssimo "Gaiola Dourada" um filme de uma sensibilidade muito honesta que retrata o tipo de emigrante luso em terras gaulesas que todos nós gostaríamos que fosse dominante. Com todos os seus defeitos e grandezas.

Infelizmente, não é. Ao lado das Maria e dos Josés, trabalhadores e amáveis, prestáveis, elementos de união da sua comunidade portuguesa e imprescindíveis à sociedade francesa, bons cristãos e honestos, estão os "Mikas" (que foram Miguéis) e as "Natalis" (que foram Natálias).

Esta companhia de emigrantes não é tão agradável, mas pode às vezes parecer mais representativa que a anterior. Os "mikas" são gananciosos, ambiciosos, brutos como uma parede, egoístas e estúpidos. São o produto terminado de gerações e gerações que, já antes do 25A74, eram educadas com cada vez menos cuidado pelas subtilezas da vivência pessoal, cada vez mais conectados com o único valor moral que uma sociedade pobre, pedante e pedinchona como a portuguesa tem: o dinheiro. Este é o único valor que conhecem e que os insufla. 

A única coisa que inibe estes "mikas" de uma vida de depredações e furtos (quando inibe) é o fraco exemplo dos meliantes que passaram pela sua experiência de vida -  os corruptos das câmaras e juntas de freguesia (que os mikas invejam e desprezam) não ganham para as chatices; os desgraçados dos surripiantes da aldeia não passam da miséria e da indigência (a estes o "mika" odeia com tal força que nos leva a concluir que a mensagem de amor e misericórdia para com os pecadores, espalhada pelo cristianismo, ou nunca chegou a certas partes deste país ou então foi há muito esquecida).

Os "mikas" não recebem bem os que vêm de Portugal, no mesmo estado que eles há uns 20 ou mais anos, para fazer a vida lá fora. Não são gentis (a não ser que possam vir a ganhar com a bajulice) e a sua presença em solo pátrio faz-nos desejar por uma invasão furiosa de turistas espanhóis. Concebem entre si uma prole que cumpre o fado de serem maus portugueses e maus estrangeiros. Quando voltam a Portugal todos os odeiam. Os familiares odeiam-nos, os hoteleiros odeiam-nos, os restaurantes odeiam-nos, até as auto-estradas tentam matá-los.

Podem viver uma vida inteira além-pirinéus que sabem menos sobre a sociedade que os rodeia do que um licenciado de Relações Internacionais (ou seja, muito, muito, muito pouco). Em nome do lucro e do ganho são capazes de esforços heróicos, se houvesse heroísmo na manhosice. Genéticamente, guardam as piores características dos povos pré-romanos que viviam, por estes lados, da rapina e do saque.

O "mika", concluindo a diatribe, é mais um dos produtos de um país que esqueceu, há muito tempo, de inculcar nas suas gerações a bondade, a generosidade e a valentia. Esse falhanço social, essa quebra das funções sagradas da pólis, é anterior à nossa mais recente "secularização" abrilina. Começou, convenhamos, na degradação de uma mensagem estado-novista que até era saudável, a que defendia a poupança, a auto-suficiência, a normalidade. Esta mensagem decaiu rapidamente na marosca miserável do novo-rico, no egoísmo tacanho e na mesquinhice, no desprezo por tudo o que não parecer iminentemente prático.

Ou seja, o "mika" seria, caso se interessasse, um eleitor fiel do quadrante PSD-CDS. E digo quadrante porque, na rotação lunar do partidarismo português, por muito que as formas mudem, é tudo o mesmo astro. Os astronautas que ainda acreditam no actual estado de coisas, ao votarem à direita, admitem políticamente o estilo de vida do "mika", o país da chico-espertice, do "todos por si e cada um na sua", o país que só concebe o uso de livros velhos para pé de mesa.

Com a diferença que esta nossa "direita" não se atura só ao Verão, é visita frequente pelos diferentes monitores da vida. De facto, com os "mikas", temos de lidar com eles, para gáudio dos deuses e do seu terrível sentido de humor. A esta direita, já nem os anjinhos a aturam.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

manual prático de como cuspir no dragão

Hermas Sozomeno conta, na sua História da Igreja, a curiosa história da batalha entre o Bispo Donato e o dragão. Já não é a primeira vez que aqui escrevo sobre o aparecimento inusitado de figuras mitológicas a personalidades da Igreja, especialmente comuns durante o período a que chamamos Baixo Império, ou Antiguidade Tardia, anterior ao dealbar da Idade Média.

O fim da autoridade milenar do Império Romano pode ter causado a que este tipo de interpelações se tenham tornado mais fáceis, permitindo a Faunos, dragões, etc., passear impunes pelas estradas do Egipto sem a devida supervisão. É um tipo de evento comum aquando da queda dos velhos colossos de bronze – os Impérios, os Regimes, os Sistemas, a Situação, quando instituídos poderosamente sobre a vida das nações, emitem um ruído profundo, místico, durante sua a derrocada, acordando as forças esquecidas do Céu e da Terra. Estas incredulidades ambulantes são despoletadas pela nossa própria incredulidade, pasmados que ficamos perante a queda dos ídolos de barro a que chamamos Impérios, Regimes, Sistemas.

Confrontados com estes desastres naturais (sim, ainda que causados pelas consequências das nossas acções, são bastante “naturais”) surgem sempre alguns pobres e tristes desesperados que, atirando as mãos à cabeça, dão por perdida a causa da “Humanidade”. Normalmente, são os antigos imperadores, directores, presidentes, usurários, responsáveis pela engrenagem infernal da Situação. Os cobardes que vivem para as coisas deste Mundo vêm-se facilmente derrotados por elas quando confrontados pelo Medo mais puro, pelo Violência mais antiga, com que a História e os deuses fustigam a Terra. Quando o Mundo passava por uma crise parecida, Deus trouxe-nos renovada esperança através do nascimento de uma criança, pobre e miserávelmente nascida numa gruta, um Rei dos Reis eterno para os pobres e miseráveis como Ele. Parece ser uma lição óbvia para todos nós, levando-nos a confiar nas coisas simples e boas como curativos para os tempos difíceis.

Voltando, contudo, a Donato, e ao dragão. Conta o historiador Sozomeno que o bom bispo, quando confrontado com a iminência de se tornar num torresmo diocesano,ou numa espécie de chanfana do Nilo, se recusou a fugir. Atacava o dragão, serpente incandescente vinda do Hades, quando Donato desenha, no ar, um enorme sinal da Cruz, em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, petrificando o dragão no instante. A maioria dos leitores, depois de se mostrar surpreendida com a possibilidade de se ser atacado por dragões, ou no caminho para Alexandria interpelado por faunos, ficará agora embasbacado com estes hábitos de se fazerem sinais da Cruz na via pública. As cruzes hoje não podem ir à escola, nem aos tribunais, nem a outros sítios onde são definitivamente necessárias, mas ainda são, por enquanto, permitidas nas ruas. Assim, quando começarem a cair os actuais colossos, como já estão a cair, veremos aparecer, de novo, dragões e faunos nas ruas, assim como bispos a fazer o sinal da cruz na rua, durante o dia.

O corajoso bispo não se ficou por aqui, contudo. A narrativa de Sozomeno afirma que, após o sinal, Donato deu o golpe de misericórdia ao cuspir na boca da besta de fogo. Surgem considerações, historicamente compreensíveis, sobre a facilidade anatómica de cuspir num dragão – que se crêem ser criaturas enormíssimas, logo, é difícil falhar – mas a questão mais importante é o significado que Sozomeno deu ao facto de Donato ter cuspido no dragão. O dragão é imponente, ambicioso, poderoso – Donato era um homem sozinho, um desses loucos de santidade muito comuns nas eras antigas.

Contudo, a história está cheia de homens que cuspiram no dragão, antes ou depois de lhe terem feito o Seu sinal. Estas histórias, contudo, não têm sempre finais felizes de bravura reconhecida ou recompensada. Ficou famosa na história a valentia do capitão André Pessoa, que em 1610 se recusou a entregar o seu navio, o Nossa Senhora da Graça, aos japoneses, afundado-se com ele, após ter resistido 3 dias a repetidas investidas de cerca de mil e duzentos samurais. A valentia deste português impressionou este povo tão honrado, nobres orientais habituados à sua dose de dragões, que ainda recordam o seu acto de bravura numa belíssima celebração em Nagasaki, o Nagasaki Kunchi. Lembro também aquele a quem os amigos e admiradores apelidaram de O Samurai do Ocidente, Dominique Venner, sacrificado à moda dos antigos pagãos no altar da sua pátria, em nobre e viril protesto contra a infâmia que alguns procuram que desça sobre a França, não só através do dito “casamento” homossexual, mas por toda a subserviência e degeneração que a filha mais amada da Europa tem vindo a sofrer. Sacrifício esse que parece ter invocado forças autênticas, pelo que podemos ler nos pasquins que, assustadiços, se amedrontam perante o renascer da Europa. Outro valente derrotado merece ser relembrado, o poeta Rodrigo Emílio, um desses bravos de África que insistimos em esquecer, um tradicionalista (ou vanguardista, ou ambas as coisas) que levou toda a sua vida como honrado português, mesmo quando os democratas o sanearam da RTP. Dizia assim o poeta:

“Vou na aragem da largada
pobre e louco e triste e só
Na distância trespassada
Vela ao vento do que sou

E assim a distância voada
no meu ouvido ampla ainda
É janela quadriculada
Onde o infinito já finda.”

Também ia Donato, pobre, só, louco e triste, como todos os Santos, quando lhe surgiu o dragão. E assim o encontrou, onde o infinito findava, e fez-lhe o sinal da Santa Cruz e cuspiu sobre esse mal, derrotando-o para sempre. E o dragão caiu, como caiu o colosso, como caíram os ídolos de barro, como caiu Cartago, com um ribombar de morte e destruição igual à queda de Lúcifer. É inevitável, como o ressurgir do Amor de Deus, da Poesia, de Portugal e da Europa.

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"(...) as leis não têm força contra os hábitos da nação; (...) só dos anos pode esperar-se o verdadeiro remédio, não se perdendo um instante em vigiar pela educação pública; porque, para mudar os costumes e os hábitos de uma nação, é necessário formar em certo modo uma nova geração, e inspirar-lhe novos princípios." - José Acúrsio das Neves