quarta-feira, 1 de julho de 2026

Reis que fazem muita falta - Parte 1. D. Afonso IV

 



Na imagem, Afonso IV, armado com a sua arma favorita, a Ceifadora de Pinga-Amores.


Muita gente não gosta de Afonso IV porque o seu reinado está ali entalado entre dois flocos de neve muito especiais, o artista do pai, D. Dinis, que era um poeta mulherengo, e o choramingas do filho, D. Pedro I, que era desses românticos de faca e alguidar com uma costela adúltera, tal como o avô que não conseguia aguentar-se muito tempo sem tirar as cuecas.

Afonso IV era ainda Infante D. Afonso quando viu que o pai deitava a perder o trabalho espetacular de boa administração que marca o seu reinado. A corte era só larilices de trovadores e poetas e o país começava a ser alvo da rapina dos nobres, especialmente de uma alta aristocracia gerida pelos muitos bastardos de D. Dinis. 

A usura grassava pelo reino e os abusos dos poderosos e dos ricos atormentavam o povo que, queixando-se em cortes, não conseguia apelar a D. Dinis, alçado que estava o monarca pelo seu elevado e merecido prestígio nacional e internacional.

Em 1319 o nosso Afonso liderou a rebelião contra o seu pai apoiado quase somente pelos concelhos e pela gente do povo, mais os cavaleiros da sua Casa.

A partir daí foi um vendaval de porrada a que nem escapou o bispo de Évora que, coitado, por defender a causa do rei foi desta para melhor. Em 1323, em Lisboa, as milícias da cidade passaram-se para o lado do Infante, abandonando o rei no campo de batalha. Não fosse a rainha Santa Isabel aparecer, em vez de "D. Dinis fez tudo quanto quis", teríamos um "D. Dinis não voltou a empinar o nariz".

Em 1324 a guerra acaba por acordo comum e um ano depois morre D. Dinis. E acabou aí a pouca vergonha.

Afonso IV, mal assumiu o trono, destruiu os castelos dos irmãos bastardos. 

Nos primeiros anos do seu reinado, lançou leis que combatiam a usura e o abuso de poder dos nobres e dos burocratas. 

Fez leis contra o luxo, contra os penteados mariconços e contra o jogo, uma vez que o reinado do pai foi pródigo em importar modas caras. 

Obrigou os padres que andavam aí com mulheres a casarem-se com elas (os tempos eram outros).

Reafirmou a autoridade da Coroa perante a nobreza e a Igreja e ainda teve tempo de liderar as tropas portuguesas na vitória decisiva do Salado (1340), contra os mouros. Antes disso teve de andar às turras com os castelhanos porque aqueles morcões resolveram destratar uma princesa portuguesa e com o nosso Afonso ninguém faz farinha com as nossas mulheres.

Depois disto tudo, diríamos que o Afonso merecia algum descanso, não? Errado.

Em 1348 veio a Peste Negra que despovoou o Reino e causou graves problemas sociais e económicos. A coisa ia mal quando o manhoso do filho do Afonso IV resolveu pegar em armas contra o pai. Este ingrato, chamado Pedro (nunca confiar em Pedros), que para além de gago era parvo, em vez de passar tempo com a devida mulher, uma senhora de bem chamada D. Constança, andou nas indiscretas pinocadas com uma tal de Inês de Castro que, além de galega, tinha a juntar-lhe aos males o facto de ser de uma família que andava em maquinações políticas indecentes no reino vizinho, os Castros.

Duas coisas que o meu Afonso não gosta: traidores e intriguistas.

Como tal, para impedir que o Pedrito fosse enguiçado pelas coxas mágicas da Inês, que já lhe tinha dado a água do cu lavado e estava agora a levá-lo pelos caminhos dos irmãos e sobrinhos a meter-se nas guerras dos reinos vizinhos, o nosso Afonso cortou o mal pela raiz e mandou três compadres de confiança decepar a galega.

E vou dizer isto aqui para não haver dúvidas.

Fez. Muito. Bem.

Não há paninhos quentes para badalhocas. É cabeça fora, logo!

O Pe-pe-pe-pe-drinho não gostou e, junto com os irmãos da Castro, pôs-se a saquear o próprio reino que ia herdar. Burro. No Porto, como não gostamos de morcões nem de panhonhas, mandaram-no de volta para casa com o rabinho entre as pernas. O povo esteve sempre com Afonso IV.

Afonso IV morreu em 1357 e não se lhe conhecem filhos fora do casamento.

Como não foi uma maria amélia cheia de salamaleques e sentimentos de roto, ninguém o celebra, ficando só a memória do pai, que era um destravado, e do filho, que era um ata-ta-ta-ta-tadinho-nho-nho.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Morte e luto

 Em Liturgies if the Wild, the Martin Shaw

Be extravagant and protracted and real in your grief. Don't worry about doing it wrong. Labour over the preparation, exhaust yourself, show up. Make something by hand. Read stories to the beloved, allow yourself to go numb to it all. Fall asleep, get up, rinse and repeat. But don't let a chance like this go by. This is a time outside of time, and extraordinary things can happen. The Other Place is much closer. Dress better as your old ones may be watching. Get a few grey hairs and don't think about plucking them out. Derailment is mandatory, but not to be forced. Make sure people see the body if they possibly can. Don't expect anything to be the same, even when folks stop dropping off pasta dishes at the door. You have entered a new, deepened world now. It has something to say to you.

It seems Death is the great integrity maker of us all, if we agree to bend our heads. There is terrible deficit in the way many of us are born into this world, and it seems there is an equal absence in many of our departures.

I remember a story about Wallace Black Elk. It was noticed that one of his long plaits was dangingly untidily while the other was ordered and neat. It rather ruined his look.

Why so? he was asked. My wife is dead, he replied, as if it required no further answer.

And of course, it didn't.


quinta-feira, 2 de abril de 2026

Turismo, Estado Novo e S. Cristóvão- história de uma maldade

 

Nos tempos negros do Estado Novo havia uma Corporação dos Transportes e do Turismo .

Os profissionais dessas áreas, todos devidamente registados e enquadrados na política fiscal do Estado, contribuíam para a Caixa da Previdência corporativa, de onde retiravam mais tarde as suas reformas e comparticipavam os seus tratamentos. Ou, quem sabe, as ajudas necessárias às famílias destes profissionais que se pudessem encontrar sem rendimentos, devido a morte ou doença do principal ganha-pão ou, quem sabe, por motivos de emergência pública, como uma pandemia mundial.

Qualquer profissional destas áreas, com o chorudo cheque que a Segurança Social lhes deu este mês, vos dirá- Estamos muito melhor agora!


A Corporação destinava-se a proteger os profissionais perante uma câmara corporativa, composta de outros representantes. 

Tudo no pior espírito facínora do salazarismo mais horrendo.

Para piorar, o brasão da corporação (nome tão grotesco, tão medieval, tão anacrónico) tinha motivos declaradamente cristãos, representando no timbre São Cristóvão com o Menino Jesus às costas.

Típica opressão salazarista, impondo o cristianismo aos incautos, como se o cristianismo fosse coisa natural em Portugal. Uma vergonha. Estamos muito melhor agora!

O brasão em si representa uma hélice (representando os aviões, que poluem, fascistas!) e dois perfis de carril, em ouro, símbolo das ferrovias, que também são fascistas e foram todas, graças à laicidade, convertidas em ciclovias pela nossa linda democracia.

A minha Lista de blogues

Seguidores

Arquivo do blogue

Acerca de mim

A minha foto
"(...) as leis não têm força contra os hábitos da nação; (...) só dos anos pode esperar-se o verdadeiro remédio, não se perdendo um instante em vigiar pela educação pública; porque, para mudar os costumes e os hábitos de uma nação, é necessário formar em certo modo uma nova geração, e inspirar-lhe novos princípios." - José Acúrsio das Neves