segunda-feira, 11 de maio de 2020

A maior inimiga

24 de Julho de 1759. Kaunitz, diplomata da Imperatriz Maria Teresa d'Áustria, escrevia ao general Daun sobre a necessidade de conseguir mais vitórias contra uma enfraquecida Prússia, humilhada e sangrada em Hochkirch. Dizia Kaunitz, num dos mais importantes documentos do século XVIII, que era vital assegurar uma paz que não custasse a manutenção de um grande exército, uma paz que permitisse aligeirar o fardo dos povos, ao invés de o aumentar com mais impostos e mais contribuições para o esforço de guerra. Este tipo de humanismo, comum na corte de Maria Teresa, era raro na de Frederico da Prússia, o seu maior inimigo.

De facto, Kaunitz via na sociedade militarista da Prússia a maior inimiga da civilização europeia. Viena era a capital de um Império de arte, música e beleza - Berlim era o quartel general de uma dinastia de reis sargento, o centro nevrálgico de uma raça que sonhava em pisar com a sua bota de cavalaria todos os povos da Alemanha e, um dia, todos os povos da Europa.

A arrogância prussiana foi domada depois de Kunesdorf e a Europa salvou-se durante quase 100 anos.
Kaunitz sabia que em breve a Áustria, e depois todos os reinos da Europa, teriam de adoptar uma forma de governo "à prussiana" para sobreviver aos ataques e às pretensões de uma nação reduzida a viveiro de soldados. Em breve, caso a Prússia não fosse controlada, toda a Europa se veria reduzida à infâmia, à "carga insuportável" de fazer dos seus cidadãos carne para canhão. Ao estadista imperial preocupava-lhe algo mais do que os destinos da Áustria - preocupava-lhe "os destinos da espécie humana".

A loucura arrebatadora de Frederico da Prússia no campo de batalha, os erros cometidos em sucessivas derrotas militares e diplomáticas, valeram aos seus rivais austríacos a oportunidade de silenciar este foco de perigo para a paz europeia. Contudo, as sementes do mal já estavam semeadas.
O absolutismo prussiano instituiu as bases do recrutamento militar universal e obrigatório, mas foram os revolucionários jacobinos franceses que terminaram os moldes desta nova forma de guerra, a Guerra Total, a Guerra Democrática, envolvendo todas as classes sociais, conhecendo apenas a aniquilação total do inimigo.

100 anos após a batalha de Kunesdorf, a Prússia humilhava a França, fazia coroar o seu império em Versalhes e arrancava-lhe uma boa parte do seu território. A botifarra prussiana pensava ainda à moda violenta e brutal dos reis Fredericos. O único elemento aristocrático deste imenso estado bélico-burocrático era a Nobreza terratenente dos Junckers, os oficiais dos exércitos de Berlim. No resto, a Prússia já demonstrava em si o gérmen de socialismo igualitário que viria a brotar nas décadas seguintes.

Depois que Bismarck plantasse as sementes para o suicídio da Europa de 1914-1918, foi a vez de outro admirador confesso de Frederico da Prússia, como bem recordou Dominique Venner, de mergulhar a Europa em mais uma guerra fratricida, em mais um conflito de "tudo ou nada": Adolf Hitler. Este, por ironia cruel da história, austríaco.

No final, repetiu-se a história: em Valmy (1792) a Revolução Francesa derrotava a Prússia com um exército compulsivamente recrutado, ou seja, utilizando os métodos prussianos com ainda mais crueldade e vigor.
Em 1945, os aliados derrotavam uma Alemanha no jogo que esta havia inventado - o da Guerra Total, o da submissão total dos povos invadidos, o da supressão dos fracos frente aos fortes, lançando no território alemão um terror de pilhagem e violação que só competia com aquela que os próprios alemães criaram na Ucrânia e na Rússia, quando tentaram fazer do Leste da Europa uma terreno limpo, um deserto a ser habitado por uma nova raça de "camponeses soldado".

O feitiço virava-se contra o feiticeiro.

Contudo, em 1759  naquele dia de Julho, tudo isto parecia muito longínquo e a salvação da Europa parecia ainda muito possível, quando Kaunitz escrevia a Daun sobre como haveriam de salvar a espécie humana.



Na foto: Wenzel Anton Reichsfürst von Kaunitz-Rietberg, Príncipe de Kaunitz. Quadro de Jean-Étienne Liotard (1762)

quinta-feira, 9 de abril de 2020

He must seek his life in a spirit of furious indifference to it; he must desire life like water and yet drink death like wine.

«"He that will lose his life, the same shall save it," is not a piece of mysticism for saints and heroes.
(...)
A soldier surrounded by enemies, if he is to cut his way out, needs to combine a strong desire for living with a strange carelessness about dying. He must not merely cling to life, for then he will be a coward, and will not escape. He must not merely wait for death, for then he will be a suicide, and will not escape.

He must seek his life in a spirit of furious indifference to it; he must desire life like water and yet drink death like wine.

No philosopher, I fancy, has ever expressed this romantic riddle with adequate lucidity, and I certainly have not done so. But Christianity has done more: it has marked the limits of it in the awful graves of the suicide and the hero, showing the distance between him who dies for the sake of living and him who dies for the sake of dying. And it has held up ever since above the European lances the banner of the mystery of chivalry: the Christian courage, which is a disdain of death; not the Chinese courage, which is a disdain of life.»

G.K. Chesterton, "Orthodoxy"

domingo, 3 de junho de 2018

Não sei que incerta voz

«Sobre o Crescente e a Cruz
Atrás do Arado
a Raça canta sempre e ainda espera.
Cheia de fé, semeia. E o grão sagrado
muda-lhe a esperança em pão abençoado
por cada Primavera.

Sobe da estepe, quando a relha a corta,
não sei que incerta voz, que enlevo esparso.
É cinza heróica, são ossadas nuas.
Toda a grandeza morta,
rimando a intrepidez do velho sangue
com o furor fecundo das charruas.»

("Antologia Poética". Lisboa: Guimarães Editora, 1960, pág. 76)

quarta-feira, 28 de março de 2018

Rodrigo Emílio

Dia 28 de Março relembramos, no dia da sua morte, a vida e obra de Rodrigo Emílio, poeta-soldado, o último de uma antiga e vibrante tradição que enobreceu a história da Europa e de Portugal.

Sou do lugar
de certa gente sem par,
oriunda do perigo
e da vigília.
- E o Mar
é o meu jazigo
de família...

domingo, 11 de março de 2018

Escamas e machismo


Resumo crítico do filme The Shape of Water (A Forma da Água), de Guillermo del Toro (2017)

Imaginem o Tritão de Sintra metido em bestiais badalhoquices (ou bestialidades badalhocas) com uma muda.
E todos os personagens masculinos carecem, ao fim e ao cabo, de qualquer tipo de características redentoras. Excepto o homossexual, esse é dos bons.

Classificação final: uma estrela do mar assexuada em cinco estrelas do mar assexuadas. Era melhor ter ido ao festival de cinema feminista da FDUP. Ou talvez não.

quarta-feira, 7 de março de 2018

Moche


O Combate dos Trinta, de Penguilly l'Haridon

Peleja mítica, evento alto da era da cavalaria.
Poupando-se dois exércitos opositores à luta fratricida, trinta mancebos de cada um dos lados da contenta resolvem em santo ordálio a sorte caprichosa da vitória.
Costume belo e moral, a recuperar para o interesse de todos os bons cristãos e bons portugueses, como forma de desatar diferendos laborais.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Entre as Trevas e a Luz

Take the Middle Ages two hundred years after the Norman Conquest and nearly as long before the beginnings of the Reformation. The great cities have arisen; the burghers are privileged and important; Labour has been organized into free and responsible Trade Unions; the Parliaments are powerful and disputing with the princes; slavery has almost disappeared; the great Universities are open and teaching with the scheme of education that Huxley so much admired; Republics are proud and civic as the Republics of the pagans stand like marble statues along the Mediterranean; and all over the North men have built such churches as men may never build again. And this, the essential part of which was done in one century rather than two, is what the critics call “little social or political advance”. There is scarcely an important modern institution under which he lives, from that college that trained him to the Parliament that rules him, that did not make its main advance in that time.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Pouco Observador

Se aquilo que, durante muito tempo, pode ter-se assemelhado a uma inclinação política e moral para direcções que a clarividência repudia, no momento presente não será absurdo ver em Morrissey apenas alguém que diz o que necessário for para viver à altura da sua reputação de corajoso bardo anti-consensos. Amar os animais e atribuir aos chineses a categoria de sub-espécie, piscar o olho a Marine Le Pen e ao UKIP, associar levianamente terrorismo e imigração, perverter a razão no que ao conflito israelo-palestiniano diz respeito e encontrar justificação e alibi para comportamentos javardos constituem capítulos de relevo de um compêndio já considerável. 

A crítica aqui citada pode ser lida na íntegra no Observador e vem da pena de Pedro Gonçalves.
Não nos interessa aqui as ideias de Pedro Gonçalves, nem a sua sentença sobre o recente documentário da vida de Morrissey.

O Observador surgiu como um jornal de Direita, um modelo jovem e moderno para expor as ideias de um quadrante ideológico que conhece, em Portugal, poucos ou nenhuns meios mediáticos para se exprimir.
Contudo, a crónica de Pedro Gonçalves exprime na perfeição a verdadeira face do Observador - a face da direita que a esquerda nos permite.
E a esquerda, claramente, só permite uma direita que não aceite Le Pen, que embarque no discurso da ideologia de género, na cultura de policiamento dos comportamentos, no discurso politicamente correcto.
Nada de javardices. Só uma direita direitinha.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

The World State

Oh, how I love Humanity,
With love so pure and pringlish,
And how I hate the horrid French,
Who never will be English!

The International Idea,
The largest and the clearest,
Is welding all the nations now,
Except the one that’s nearest.

This compromise has long been known,
This scheme of partial pardons,
In ethical societies
And small suburban gardens —

The villas and the chapels where
I learned with little labour
The way to love my fellow-man
And hate my next-door neighbour.

G. K. Chesterton

domingo, 19 de novembro de 2017

Uma casa arrumada

Se os liberais transportavam um nacionalismo revolucionário, os miguelistas edificaram um "nacionalismo contra-revolucionário", identificando a forte identidade cultural: uma unidade étnica, linguística, religiosa, demarcavam Portugal no contexto Europeu. Ideário determinante, mais do que rei absoluto, D. Miguel aparece como libertador de Portugal. Analisa a este propósito Fernando Campos: "o nosso nacionalismo não precisa de socorrer-se dos mestres franceses da Contra-Revolução, porquanto, graças a Deus, os tem de casa, muito seus, os quais nada devem aos estranhos(...)" (4)

quarta-feira, 26 de abril de 2017

A necessidade de ser monárquico e o Ideal da cavalaria

Entre as recordações mais vivas que tenho da infância, a velha sala do meu tio José na casa de Tendais é uma das mais recorrentes. O fascínio não era dedicado à mesa em si, mas aos adornos que encimavam a mesma – duas pequenas esculturas de ferro figurando cavaleiros medievais, em posição de ataque, como se se confrontassem numa justa. A alma da casa e do seu velho dono pareciam revolver no mesmo espírito desta cena – as imagens, tal como o meu tio, enchiam a casa de uma dureza, de um rigor frio e velho, uma espécie de inverno branco que, em conjunto com a luz que entrava pelos cortinados da janela, enche as recordações daqueles dias com uma cor que cega.
Os corredores gelados da casa de Tendais, especialmente para a mente de uma criança, criaram em mim uma impressão muito forte, que acompanhou na pele os ensinamentos que os homens da minha família, o meu pai, tios e avôs, partilharam comigo. 
Lições de dever, de coragem, de generosidade, de caridade.
Levei comigo essas palavras e agucei as minhas conclusões ao longo dos anos. Questionei durante muito tempo os valores familiares. Um deles, o mais pitoresco, a tradição monárquica, foi talvez o que mais abalos sofreu. Enfrentei a dúvida que tantos jovens monárquicos enfrentam: porque razão nos devemos bater por uma ideia que mais não é do que uma afirmação estética, uma diferenciação social que, para os que não sofrem do pedantismo snob da suposta velha aristocracia, é mais prejudicial do que proveitoso?
A verdade é que a Monarquia não é palco para as vaidades da consanguinidade de sangue azul. A Monarquia não é também, ao contrário de tantos cientista políticos, um “atenuador” das lutas partidárias das democracias modernas. Isto não são monarquias, são velhas situações.
A Monarquia é a conclusão do Pensamento, é a Árvore, e a flor desta Árvore é o ideal da Cavalaria.
Numa coisa os democratas da monarquia têm razão: a Monarquia controla a paixão pelo poder dos poderosos. Mas fá-lo porque substitui essa paixão pelo amor ao serviço da Pátria, pelo amor aos feitos corajosos, pelo amor aos mais fracos e desprotegidos.
Numa coisa os snobs hemofílicos da monarquia têm razão: a Monarquia enobrece. Mas a Monarquia não enobrece os inúteis e os pedantes, os covardes e irresponsáveis, os que assumem as benesses da sua casta como direitos adquiridos. A monarquia enobrece os que vivem à lei da nobreza. Que nobreza?
O ideal de nobreza merece ser aperfeiçoado. A nobreza não depende de um canudo universitário ou de um salário milionário – encontra-se em todas as camadas sociais, pertence a todos os grupos profissionais e a todas as actividades que garantem o bem comum na sociedade portuguesa. Encontra-se no estudante que luta por uma bolsa ou por conseguir o dinheiro das propinas, no empregado fabril ameaçado pelo fecho da sua fábrica, no desempregado que todos os dias navega anúncios atrás de anúncios de emprego na Internet.
Quando tantos e tantos destes homens e mulheres, na sua luta diária, encontram tempo e disponiblidade para dar de si aos outros, é que nos apercebemos que o ideal de cavalaria, aquela dura rigidez do dever, naquela alma de ferro que se demonstra nos mais calorosos actos de amor, de facto existe, mais forte do que nunca, somente à espera de alguém ou algo que lhe dê significado. Esse alguém é, sem dúvida, a monarquia e esse algo é a necessidade de ser monárquico.

sábado, 15 de abril de 2017

Até breve, amigo!

A generosidade é uma característica própria dos homens corajosos. Contando com a generosidade com que o meu amigo Alberto Corrêa de Barros distribuía tanto sorrisos como sopapos, na sua vertente física e intelectual, posso dizer seguramente que tive a honra de estar presente perante um gigante. Vamos todos sentir a sua falta, Alberto, da sua enorme cultura e dos desafios que nos lançava a sua intrépida atitude e exemplo.

Alberto Pais de Figueiredo Corrêa de Barros.

Presente!

terça-feira, 4 de abril de 2017

Dicionário de Expressões Populares Portuguesas: Escarrapichar-se

Escarrapichar-se - Articular as palavras com ênfase ou excessiva meticulosidade; falar afectadamente (Torquel) (CF)

SIMÕES, Guilherme Augusto. Dicionário de Expressões Populares Portuguesas. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1993, pág. 272

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"(...) as leis não têm força contra os hábitos da nação; (...) só dos anos pode esperar-se o verdadeiro remédio, não se perdendo um instante em vigiar pela educação pública; porque, para mudar os costumes e os hábitos de uma nação, é necessário formar em certo modo uma nova geração, e inspirar-lhe novos princípios." - José Acúrsio das Neves