quarta-feira, 1 de julho de 2015

manual prático de como cuspir no dragão

Hermas Sozomeno conta, na sua História da Igreja, a curiosa história da batalha entre o Bispo Donato e o dragão. Já não é a primeira vez que aqui escrevo sobre o aparecimento inusitado de figuras mitológicas a personalidades da Igreja, especialmente comuns durante o período a que chamamos Baixo Império, ou Antiguidade Tardia, anterior ao dealbar da Idade Média.

O fim da autoridade milenar do Império Romano pode ter causado a que este tipo de interpelações se tenham tornado mais fáceis, permitindo a Faunos, dragões, etc., passear impunes pelas estradas do Egipto sem a devida supervisão. É um tipo de evento comum aquando da queda dos velhos colossos de bronze – os Impérios, os Regimes, os Sistemas, a Situação, quando instituídos poderosamente sobre a vida das nações, emitem um ruído profundo, místico, durante sua a derrocada, acordando as forças esquecidas do Céu e da Terra. Estas incredulidades ambulantes são despoletadas pela nossa própria incredulidade, pasmados que ficamos perante a queda dos ídolos de barro a que chamamos Impérios, Regimes, Sistemas.

Confrontados com estes desastres naturais (sim, ainda que causados pelas consequências das nossas acções, são bastante “naturais”) surgem sempre alguns pobres e tristes desesperados que, atirando as mãos à cabeça, dão por perdida a causa da “Humanidade”. Normalmente, são os antigos imperadores, directores, presidentes, usurários, responsáveis pela engrenagem infernal da Situação. Os cobardes que vivem para as coisas deste Mundo vêm-se facilmente derrotados por elas quando confrontados pelo Medo mais puro, pelo Violência mais antiga, com que a História e os deuses fustigam a Terra. Quando o Mundo passava por uma crise parecida, Deus trouxe-nos renovada esperança através do nascimento de uma criança, pobre e miserávelmente nascida numa gruta, um Rei dos Reis eterno para os pobres e miseráveis como Ele. Parece ser uma lição óbvia para todos nós, levando-nos a confiar nas coisas simples e boas como curativos para os tempos difíceis.

Voltando, contudo, a Donato, e ao dragão. Conta o historiador Sozomeno que o bom bispo, quando confrontado com a iminência de se tornar num torresmo diocesano,ou numa espécie de chanfana do Nilo, se recusou a fugir. Atacava o dragão, serpente incandescente vinda do Hades, quando Donato desenha, no ar, um enorme sinal da Cruz, em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, petrificando o dragão no instante. A maioria dos leitores, depois de se mostrar surpreendida com a possibilidade de se ser atacado por dragões, ou no caminho para Alexandria interpelado por faunos, ficará agora embasbacado com estes hábitos de se fazerem sinais da Cruz na via pública. As cruzes hoje não podem ir à escola, nem aos tribunais, nem a outros sítios onde são definitivamente necessárias, mas ainda são, por enquanto, permitidas nas ruas. Assim, quando começarem a cair os actuais colossos, como já estão a cair, veremos aparecer, de novo, dragões e faunos nas ruas, assim como bispos a fazer o sinal da cruz na rua, durante o dia.

O corajoso bispo não se ficou por aqui, contudo. A narrativa de Sozomeno afirma que, após o sinal, Donato deu o golpe de misericórdia ao cuspir na boca da besta de fogo. Surgem considerações, historicamente compreensíveis, sobre a facilidade anatómica de cuspir num dragão – que se crêem ser criaturas enormíssimas, logo, é difícil falhar – mas a questão mais importante é o significado que Sozomeno deu ao facto de Donato ter cuspido no dragão. O dragão é imponente, ambicioso, poderoso – Donato era um homem sozinho, um desses loucos de santidade muito comuns nas eras antigas.

Contudo, a história está cheia de homens que cuspiram no dragão, antes ou depois de lhe terem feito o Seu sinal. Estas histórias, contudo, não têm sempre finais felizes de bravura reconhecida ou recompensada. Ficou famosa na história a valentia do capitão André Pessoa, que em 1610 se recusou a entregar o seu navio, o Nossa Senhora da Graça, aos japoneses, afundado-se com ele, após ter resistido 3 dias a repetidas investidas de cerca de mil e duzentos samurais. A valentia deste português impressionou este povo tão honrado, nobres orientais habituados à sua dose de dragões, que ainda recordam o seu acto de bravura numa belíssima celebração em Nagasaki, o Nagasaki Kunchi. Lembro também aquele a quem os amigos e admiradores apelidaram de O Samurai do Ocidente, Dominique Venner, sacrificado à moda dos antigos pagãos no altar da sua pátria, em nobre e viril protesto contra a infâmia que alguns procuram que desça sobre a França, não só através do dito “casamento” homossexual, mas por toda a subserviência e degeneração que a filha mais amada da Europa tem vindo a sofrer. Sacrifício esse que parece ter invocado forças autênticas, pelo que podemos ler nos pasquins que, assustadiços, se amedrontam perante o renascer da Europa. Outro valente derrotado merece ser relembrado, o poeta Rodrigo Emílio, um desses bravos de África que insistimos em esquecer, um tradicionalista (ou vanguardista, ou ambas as coisas) que levou toda a sua vida como honrado português, mesmo quando os democratas o sanearam da RTP. Dizia assim o poeta:

“Vou na aragem da largada
pobre e louco e triste e só
Na distância trespassada
Vela ao vento do que sou

E assim a distância voada
no meu ouvido ampla ainda
É janela quadriculada
Onde o infinito já finda.”

Também ia Donato, pobre, só, louco e triste, como todos os Santos, quando lhe surgiu o dragão. E assim o encontrou, onde o infinito findava, e fez-lhe o sinal da Santa Cruz e cuspiu sobre esse mal, derrotando-o para sempre. E o dragão caiu, como caiu o colosso, como caíram os ídolos de barro, como caiu Cartago, com um ribombar de morte e destruição igual à queda de Lúcifer. É inevitável, como o ressurgir do Amor de Deus, da Poesia, de Portugal e da Europa.

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"(...) as leis não têm força contra os hábitos da nação; (...) só dos anos pode esperar-se o verdadeiro remédio, não se perdendo um instante em vigiar pela educação pública; porque, para mudar os costumes e os hábitos de uma nação, é necessário formar em certo modo uma nova geração, e inspirar-lhe novos princípios." - José Acúrsio das Neves