sábado, 15 de setembro de 2012

Pela encosta acima.

Guy adormeceu por breves instantes. Depois Ivor disse: « Guy, o que é que tu farias se te desafiassem para um duelo?»
«Ria-me.»
«Pois. Claro.»
«Porque é que te lembraste disso agora?»
«Estava a pensar na honra. É uma coisa que muda com o tempo, não é? Há cento e cinquenta anos, se alguém nos desafiasse, teríamos de lutar. Agora ríamo-nos. Deve ter havido uma altura, aí há cem anos, em que esta pergunta seria um tanto incómoda.»
«Sim. Os moralistas religiosos nunca conseguiram pôr fim aos duelos - só a democracia o conseguiu.»
«E na próxima guerra, quando formos inteiramente democráticos, suponho que será perfeitamente honroso para um oficial abandonar os seus homens. Será o dever proscrito nas Ordenações Reais - a fim da manter intactos os cadres capazes de dar instrução às futuras levas de prisioneiros.»
«É provável que os conscritos não apreciem a ideia de serem treinados por desertores.»
«Num exército verdadeiramente moderno, não achas que o facto de eles terem dado à sola os tornaria mais dignos de respeito? Parece-me que o nosso problema é vivermos num período incómodo de transição - como um homem desafiado para um duelo há cem anos.»
Guy via claramente o rosto amigo ao luar, o seu rosto austero, calmo e composto, apesar de pálido, tal como o havia visto nos Jardins Borghese. Ivor levantou-se e disse: «Bom, o caminho da honra é pela encosta acima», e foi-se embora.

Evelyn Waugh, «Oficiais e Cavalheiros»

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"(...) as leis não têm força contra os hábitos da nação; (...) só dos anos pode esperar-se o verdadeiro remédio, não se perdendo um instante em vigiar pela educação pública; porque, para mudar os costumes e os hábitos de uma nação, é necessário formar em certo modo uma nova geração, e inspirar-lhe novos princípios." - José Acúrsio das Neves