sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Os media no aproveitamento político da morte de uma criança - As lágrimas do crocodilo

Se havia dúvidas sobre a verdadeira cor deste novo jornal da direitinha, o último edital d'O Observador acabou de as esclarecer.
O jornalista José Manuel Fernandes junta-se ao coro internacional que visa mais uma vez impressionar as massas pelo apelo a um sentimentalismo pervertido. O aproveitamento político de alguns partidos, movimentos e jornais, tendo em vista amealhar prestígio social ou o avanço de metas políticas, do falecimento do pequeno Aylan.
Não me interpretem mal. Nada magoa mais do que a morte de uma criança inocente, independentemente da sua etnia, credo ou sexo.
O que me ofende é a construção de uma historieta de encantar, com entrevistas à família do falecido, apelos à moralidade pública e todo um aparato choramingas que visa apenas distrair as pessoas do que verdadeiramente interessa.
De onde vem esta guerra na Síria? Quem a começou? Quem a sustenta?
Quais são os principais responsáveis por estas ondas migratórias?
A Europa é acusada de não ter desenvolvido instituições e meios para salvar o pequeno Aylan, mas o que os nossos jornalistas não nos contam é a forma como a Europa apoiou as dissidências e os contrastes que puseram o Norte de África e o Médio Oriente a ferro e fogo. Tudo sob o pretexto da santa Liberdade, mascarando o interesse capitalista da grande finança. Já se vê que o governo a cair sobre a batuta das manifestações "espontâneas" que se segue é o distraído Líbano...
Não falta até a citação do economista bem intencionado. O The Economist ensina-nos que acolher todo o tipo de emigrantes é bom, para rejuvenescer a população europeia. Como se a multiplicação não fosse responsabilidade dos europeus. Qual raça de anjos na terra, servem apenas para pagar, receber e acolher, deixando os frutos do futuro aos outros.
Ou seja, em nome de um hipotética e falível prosperidade material, o fim do nosso património genético, da nossa presença no mundo enquanto povo de características únicas e peculiares. 
Uma Europa transformada numa gigantesca plataforma de emprego, investimento e "empreendedores". Já dizia Marx que o exército de escravos do capitalismo é o imigrante. Exército escravo esse que se vê obrigado, pela instabilidade induzida nos seus países de origem, a reduzir-se à função de substituir geneticamente a população autóctene, mais ciente das suas prerrogativas, agarrados que ainda vão estando a conquistas políticas e a raízes como a tradição ou a religião.

Encontramo-nos perante vários dilemas. Por um lado, as tradições, a espiritualidade e a religião dos europeus obrigam-nos a acolher os indefesos, os doentes, os pobres.
Por outro, o nosso sentido de comunidade e justiça obriga-nos a descobrir, entre nós, os verdadeiros culpados das tempestades que assolaram África e Ásia. Depois, restabelecer nesses países a sua soberania e estabilidade, criando condições para que os refugiados voltem para a terra dos seus antepassados.
Manietados, contudo, por todos os tipos possíveis e imaginários de materialismos, só nos restam as hipóteses dos que pretendem fechar fronteiras a cadeado e os que pretendem escancará-las. Nenhuma delas chega, nenhuma resolve, por si só, o problema. E o problema, mais década menos década, será demasiado grande e visível para ser contido.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

600 anos de Ceuta

Seja por interesse histórico, seja por orgulho nacionalista, a boa parte do país está hoje a relembrar, em jornais, livros e artigos, a tomada de Ceuta em 1415.
Tomando estes dias pelo que são, confesso que não sou grande fã da comemoração de datas-chavão. Será porventura pedantismo de quem estuda História, de quem absorve isto não de forma apoteótica, mas como quem respira e vê o mundo pelo que tem de sujo e violento, mas com as suas pontadas de beleza a prismar depois do feixe da luz.
Ceuta é descrita como o princípio de algo maravilhoso. É para alguns a promessa de uma cavalgada valquíriaca até um passado habitado por armaduras polidas, excalibures gloriosas e cruzadas galantes.
Se Ceuta tem validade, para mim, é pelo que reside por detrás do pano.
A praça eternamente cercada, frequentada por corsários, prostitutas, nobres exilados, almogávares, vadios, bispos, mouros, escravos, pecadores e santos. A Ceuta que foi durante muito tempo fronteira dos Algarves de Além-mar, e no parco tempo em que o não foi, centro de pirataria e rapinagem dos soldados da Cruz. Foi o marco da nossa verdade, de um Portugal que vivia e existia com as mãos na terra, como as grandes nações do Mundo, em vez de perdido na lua, a sonhar com sebastiões, naus catarinetas, democracias europeias e empreendedorismos.
Ceuta transformou-se durante a nossa presença numa cidade devotada à destruição do poderio naval berbere, à formação de uma casta de fronteiros, a cavalo ou embarcada, sempre pronta à acção. Nem sempre bem sucedidos na luta, a guerra nos mares formou uma gente seca pelo sal e pelo sol, de barba hirsuta e suja que saqueou as profundezas da Ásia, Goa-Malaca-Ormuz e tudo o resto, e criou um império de mercadores-piratas, ou mercadores-corsários dependendo da vossa fantasia.
Para os espíritos sensíveis de hoje, tal realidade fustiga a consciência. Para aqueles que vêm cada recordação da história como uma apologia da violência e para os que vêm como glória. Daqueles portugueses que estalaram as costas no convés dos navios de Ceuta, de mãos calejadas a montar e desmontar muralhas desvastadas pelos diários ataques do inimigo, já não podemos exigir mais nada. Nem que se façam santos nem que se façam demónios. Foram homens, bons e maus, de uma cepa superior, pelo sangue e pelo suor que lhes saiu, aos que festejam hoje.

Mestre Carlos Reis (1863-1940)

O baptizado

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Sempre Non

Terrível palavra é um Non. Não tem direito nem avesso. Por qualquer lado que o tomeis sempre soa e diz o mesmo.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

O Mika Antunès

Neste blogue fazemos, não raras vezes, uma defesa obstinada da tradição do povo português. Ao leitor deambulante que por aqui tropeça, essa defesa pode parecer uma intransigência iracional, meramente anacrónica, simplesmente fetichista.

Não têm sido poucos os esforços para evitar essa confusão. Nada tem sido mais prejudicial à criação de um pensamento "de direita", conservador e verdadeiramente radical, que o anacronismo e o "patrioteirismo da romantiquisse", aquele discurso de embuste cheio de sentimentalismos bacocos, das saudades de um Portugal de vistas curtas.

De facto, para o êxito de um pensamento renovado há que aceitar e criticar certas características do povo português, de certos elementos do povo português. Um dos filmes que mais lágrimas patróticas derramou nos últimos tempos foi o engraçadíssimo "Gaiola Dourada" um filme de uma sensibilidade muito honesta que retrata o tipo de emigrante luso em terras gaulesas que todos nós gostaríamos que fosse dominante. Com todos os seus defeitos e grandezas.

Infelizmente, não é. Ao lado das Maria e dos Josés, trabalhadores e amáveis, prestáveis, elementos de união da sua comunidade portuguesa e imprescindíveis à sociedade francesa, bons cristãos e honestos, estão os "Mikas" (que foram Miguéis) e as "Natalis" (que foram Natálias).

Esta companhia de emigrantes não é tão agradável, mas pode às vezes parecer mais representativa que a anterior. Os "mikas" são gananciosos, ambiciosos, brutos como uma parede, egoístas e estúpidos. São o produto terminado de gerações e gerações que, já antes do 25A74, eram educadas com cada vez menos cuidado pelas subtilezas da vivência pessoal, cada vez mais conectados com o único valor moral que uma sociedade pobre, pedante e pedinchona como a portuguesa tem: o dinheiro. Este é o único valor que conhecem e que os insufla. 

A única coisa que inibe estes "mikas" de uma vida de depredações e furtos (quando inibe) é o fraco exemplo dos meliantes que passaram pela sua experiência de vida -  os corruptos das câmaras e juntas de freguesia (que os mikas invejam e desprezam) não ganham para as chatices; os desgraçados dos surripiantes da aldeia não passam da miséria e da indigência (a estes o "mika" odeia com tal força que nos leva a concluir que a mensagem de amor e misericórdia para com os pecadores, espalhada pelo cristianismo, ou nunca chegou a certas partes deste país ou então foi há muito esquecida).

Os "mikas" não recebem bem os que vêm de Portugal, no mesmo estado que eles há uns 20 ou mais anos, para fazer a vida lá fora. Não são gentis (a não ser que possam vir a ganhar com a bajulice) e a sua presença em solo pátrio faz-nos desejar por uma invasão furiosa de turistas espanhóis. Concebem entre si uma prole que cumpre o fado de serem maus portugueses e maus estrangeiros. Quando voltam a Portugal todos os odeiam. Os familiares odeiam-nos, os hoteleiros odeiam-nos, os restaurantes odeiam-nos, até as auto-estradas tentam matá-los.

Podem viver uma vida inteira além-pirinéus que sabem menos sobre a sociedade que os rodeia do que um licenciado de Relações Internacionais (ou seja, muito, muito, muito pouco). Em nome do lucro e do ganho são capazes de esforços heróicos, se houvesse heroísmo na manhosice. Genéticamente, guardam as piores características dos povos pré-romanos que viviam, por estes lados, da rapina e do saque.

O "mika", concluindo a diatribe, é mais um dos produtos de um país que esqueceu, há muito tempo, de inculcar nas suas gerações a bondade, a generosidade e a valentia. Esse falhanço social, essa quebra das funções sagradas da pólis, é anterior à nossa mais recente "secularização" abrilina. Começou, convenhamos, na degradação de uma mensagem estado-novista que até era saudável, a que defendia a poupança, a auto-suficiência, a normalidade. Esta mensagem decaiu rapidamente na marosca miserável do novo-rico, no egoísmo tacanho e na mesquinhice, no desprezo por tudo o que não parecer iminentemente prático.

Ou seja, o "mika" seria, caso se interessasse, um eleitor fiel do quadrante PSD-CDS. E digo quadrante porque, na rotação lunar do partidarismo português, por muito que as formas mudem, é tudo o mesmo astro. Os astronautas que ainda acreditam no actual estado de coisas, ao votarem à direita, admitem políticamente o estilo de vida do "mika", o país da chico-espertice, do "todos por si e cada um na sua", o país que só concebe o uso de livros velhos para pé de mesa.

Com a diferença que esta nossa "direita" não se atura só ao Verão, é visita frequente pelos diferentes monitores da vida. De facto, com os "mikas", temos de lidar com eles, para gáudio dos deuses e do seu terrível sentido de humor. A esta direita, já nem os anjinhos a aturam.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

mais política

A Europa padece, travestida de UEropa ou eu-ropa, criação mal-abortada da utopia dos juristas e dos cuidados de uma administração de economistas.
Se há algo que demonstra o quão trágico é entregar os cuidados de um país a uma geração tecnocrática formada em Universidades de Direito e de Economia é toda esta mais que bem vinda problemática grega. Frente ao espírito indomável do Sul da Europa, os novos mangas de alpaca da política europeia andam à toa, sem saber que para comunicar há que tratar os Homens como aquilo que são: animais políticos (ou polidos?), em vez de orçamentos ou mercadorias.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

manual prático de como cuspir no dragão

Hermas Sozomeno conta, na sua História da Igreja, a curiosa história da batalha entre o Bispo Donato e o dragão. Já não é a primeira vez que aqui escrevo sobre o aparecimento inusitado de figuras mitológicas a personalidades da Igreja, especialmente comuns durante o período a que chamamos Baixo Império, ou Antiguidade Tardia, anterior ao dealbar da Idade Média.

O fim da autoridade milenar do Império Romano pode ter causado a que este tipo de interpelações se tenham tornado mais fáceis, permitindo a Faunos, dragões, etc., passear impunes pelas estradas do Egipto sem a devida supervisão. É um tipo de evento comum aquando da queda dos velhos colossos de bronze – os Impérios, os Regimes, os Sistemas, a Situação, quando instituídos poderosamente sobre a vida das nações, emitem um ruído profundo, místico, durante sua a derrocada, acordando as forças esquecidas do Céu e da Terra. Estas incredulidades ambulantes são despoletadas pela nossa própria incredulidade, pasmados que ficamos perante a queda dos ídolos de barro a que chamamos Impérios, Regimes, Sistemas.

Confrontados com estes desastres naturais (sim, ainda que causados pelas consequências das nossas acções, são bastante “naturais”) surgem sempre alguns pobres e tristes desesperados que, atirando as mãos à cabeça, dão por perdida a causa da “Humanidade”. Normalmente, são os antigos imperadores, directores, presidentes, usurários, responsáveis pela engrenagem infernal da Situação. Os cobardes que vivem para as coisas deste Mundo vêm-se facilmente derrotados por elas quando confrontados pelo Medo mais puro, pelo Violência mais antiga, com que a História e os deuses fustigam a Terra. Quando o Mundo passava por uma crise parecida, Deus trouxe-nos renovada esperança através do nascimento de uma criança, pobre e miserávelmente nascida numa gruta, um Rei dos Reis eterno para os pobres e miseráveis como Ele. Parece ser uma lição óbvia para todos nós, levando-nos a confiar nas coisas simples e boas como curativos para os tempos difíceis.

Voltando, contudo, a Donato, e ao dragão. Conta o historiador Sozomeno que o bom bispo, quando confrontado com a iminência de se tornar num torresmo diocesano,ou numa espécie de chanfana do Nilo, se recusou a fugir. Atacava o dragão, serpente incandescente vinda do Hades, quando Donato desenha, no ar, um enorme sinal da Cruz, em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, petrificando o dragão no instante. A maioria dos leitores, depois de se mostrar surpreendida com a possibilidade de se ser atacado por dragões, ou no caminho para Alexandria interpelado por faunos, ficará agora embasbacado com estes hábitos de se fazerem sinais da Cruz na via pública. As cruzes hoje não podem ir à escola, nem aos tribunais, nem a outros sítios onde são definitivamente necessárias, mas ainda são, por enquanto, permitidas nas ruas. Assim, quando começarem a cair os actuais colossos, como já estão a cair, veremos aparecer, de novo, dragões e faunos nas ruas, assim como bispos a fazer o sinal da cruz na rua, durante o dia.

O corajoso bispo não se ficou por aqui, contudo. A narrativa de Sozomeno afirma que, após o sinal, Donato deu o golpe de misericórdia ao cuspir na boca da besta de fogo. Surgem considerações, historicamente compreensíveis, sobre a facilidade anatómica de cuspir num dragão – que se crêem ser criaturas enormíssimas, logo, é difícil falhar – mas a questão mais importante é o significado que Sozomeno deu ao facto de Donato ter cuspido no dragão. O dragão é imponente, ambicioso, poderoso – Donato era um homem sozinho, um desses loucos de santidade muito comuns nas eras antigas.

Contudo, a história está cheia de homens que cuspiram no dragão, antes ou depois de lhe terem feito o Seu sinal. Estas histórias, contudo, não têm sempre finais felizes de bravura reconhecida ou recompensada. Ficou famosa na história a valentia do capitão André Pessoa, que em 1610 se recusou a entregar o seu navio, o Nossa Senhora da Graça, aos japoneses, afundado-se com ele, após ter resistido 3 dias a repetidas investidas de cerca de mil e duzentos samurais. A valentia deste português impressionou este povo tão honrado, nobres orientais habituados à sua dose de dragões, que ainda recordam o seu acto de bravura numa belíssima celebração em Nagasaki, o Nagasaki Kunchi. Lembro também aquele a quem os amigos e admiradores apelidaram de O Samurai do Ocidente, Dominique Venner, sacrificado à moda dos antigos pagãos no altar da sua pátria, em nobre e viril protesto contra a infâmia que alguns procuram que desça sobre a França, não só através do dito “casamento” homossexual, mas por toda a subserviência e degeneração que a filha mais amada da Europa tem vindo a sofrer. Sacrifício esse que parece ter invocado forças autênticas, pelo que podemos ler nos pasquins que, assustadiços, se amedrontam perante o renascer da Europa. Outro valente derrotado merece ser relembrado, o poeta Rodrigo Emílio, um desses bravos de África que insistimos em esquecer, um tradicionalista (ou vanguardista, ou ambas as coisas) que levou toda a sua vida como honrado português, mesmo quando os democratas o sanearam da RTP. Dizia assim o poeta:

“Vou na aragem da largada
pobre e louco e triste e só
Na distância trespassada
Vela ao vento do que sou

E assim a distância voada
no meu ouvido ampla ainda
É janela quadriculada
Onde o infinito já finda.”

Também ia Donato, pobre, só, louco e triste, como todos os Santos, quando lhe surgiu o dragão. E assim o encontrou, onde o infinito findava, e fez-lhe o sinal da Santa Cruz e cuspiu sobre esse mal, derrotando-o para sempre. E o dragão caiu, como caiu o colosso, como caíram os ídolos de barro, como caiu Cartago, com um ribombar de morte e destruição igual à queda de Lúcifer. É inevitável, como o ressurgir do Amor de Deus, da Poesia, de Portugal e da Europa.

terça-feira, 30 de junho de 2015

Anarchisme conservateur - Charles Robin

Charles Robin, autor e conferencista ligado ao grupo Egalité et Reconciliation, vai estar em Lille, para analisar as incongruências da critica libertária e do seu pretenso anarquismo, contrastando-o com um anti-capitalismo conservador inspirado em Platão.
Não vou poder estar presente, mas espero sinceramente que partes da conferência fiquem disponíveis na internet.
Podem ver mais sobre o autor aqui.


A minha Lista de blogues

Seguidores

Arquivo do blogue

Acerca de mim

A minha foto
"(...) as leis não têm força contra os hábitos da nação; (...) só dos anos pode esperar-se o verdadeiro remédio, não se perdendo um instante em vigiar pela educação pública; porque, para mudar os costumes e os hábitos de uma nação, é necessário formar em certo modo uma nova geração, e inspirar-lhe novos princípios." - José Acúrsio das Neves