domingo, 7 de junho de 2015

Calções Brancos não fazem um Cavalheiro

 Não respeita o chá das cinco, e não conhece pessoalmente a Rainha de Inglaterra. Considera-se, contudo e na maioria dos casos, um “conservador à inglesa”. Não raras vezes, é o produto acabado de uma mistura estranha entre Disraeli e de Gaulle, cozinhada pelo Prof. Espada. É um constitucionalista avançado: a questão do regime, das dinastias, são para ele meros detalhes medievais herdados de um passado não poucas vezes desconfortável. Herda o pior de dois mundos numa civilização decadente e desinteressada: senhoras e senhores, apresento-vos o “conservador-liberal”. 
O exemplo britânico é, para este ideólogo de blogue e Jota, perfeito, tal como o torneio de Wimbledon. De facto, tal como no evento mundialmente famoso, nas instituições inglesas reina uma respeitabilidade virginal. Da mesma maneira que os tenistas se vestem de branco, continuando uma tradição muito antiga de cavalheirismo, também os parlamentares ingleses se reunem em amena cavaqueira, os juízes usam perucas, os lordes são lordes e dizem coisas, a rainha usa uma coroa e os escândalos e divórcios da Família Real são tratados pela Direita inglesa com aquele embaraço delicodoce típicos da mais hipócrita ética burguesa. Até uma coisa popularucha como a Democracia parece histórica e “orgânica”. 
Ora, não é preciso ser-se um grande historiador para entender que em Inglaterra nunca houve uma evolução contínua das instituições democráticas. O moderado conservador inglês não aprendeu a negociar a própria alma com o diabo bebericando chá de hortelã. A história inglesa é um rol de massacres e razias contínuas desde a Guerra das Rosas, e especialmente a partir da Revolução Gloriosa é a história sangrenta de uma oligarquia poderosa que esfacela, mói e trucida o zé-povinho, quer através do fim das corporações profissionais (processo iniciado no séc XVII e que é directamente responsável pelas minas de carvão de Manchester, povoadas por crianças-proletárias), que pelas enclosures forçadas do séc XVIII (que quase destruiram a pequena propriedade inglesa, o último resquício da Merry England medieval), quer pelo esmagamento dos movimentos operários, etc. 
As instituições inglesas, desde a sua Rainha até ao cerimonial do render da Guarda, o espelho do espírito de Wimbledon. É uma tradição morta, sem conteúdo, presente apenas em forma, como um cadáver perfumado. As estrelas do ténis vestem-se de branco durante o torneio, mas fora do campo não actuam, de todo, como “gentlemen”. A Rainha reina, mas não governa. Os conservadores conservam, mas já não existe nada para conservar numa Igreja Anglicana virada do avesso, numa população desligada da sua identidade histórica e étnica, em cidades onde se sofrem os efeitos de uma imigração descontrolada que ainda recentemente deu azo a autênticos motins no meio de Londres. Onde está o benéfico e cristão governo de Sua Majestade Britânica, Sempre Fiel, num país governado, não pelo Parliament, mas pela City londrina, covil da finança mundial? 
O conservador liberal distingue-se do seu amigo monárquico liberal pelo facto de ser menos engraçado, menos pitoresco (não tem aquela impetuosidade viril da raça Marialva) e por juntar uma pontinha de maçudo à tal moderação tipicamente inglesa, ou seja, aterrorizada pela perspectiva de acção musculada e pelo risco de assumir o Absoluto. Os valores têm de ser negociáveis, pelos menos até quinta-feira, dia de ir jantar à tia Matilde. Há uns tempos atrás, um padre do Opus Dei escreveu uma crónica muito inteligente e sagaz onde descrevia o círculo social de onde muitas destas criaturas são originárias, mas viu-se obrigado, pela sua consciência, a desculpar-se. Aparentemente, muita gente do seu círculo social mais íntimo sentiu-se afectada pela crítica. Adivinhe-se lá porquê... 
O conservador-liberal assemelha-se ao homem que faz a espargata numa falha tectónica. Por um lado, aceita os tais valores morais, que trouxe do colégio, da tia Matilde, da mamã e do papá, que visam manter a fibra social de qualquer coisa em nome de uma coisa qualquer: a Pátria, e nunca a Nação, que é coisa de fascistas; a civilização judaico-cristã, e nunca o Cristianismo, primeiro porque os tempos são outros e porque ninguém de bem suporta práticas “fundamentalistas”. 
A frustração deste grupo político é rampante em todas as suas vertentes. Quando católico, é democrata-cristão, ou seja, assiste ao lento e progressivo desmantelar da Igreja por ela própria e ao encerramento dos locais de culto, bem como à formação de jovens gerações de compatriotas afastadíssimos desses valores. Quando conservador, limita-se a um diálogo defensivo do status quo, dormindo adúlteramente com as mesmas “forças vivas” que exploram o seu próprio povo e fazem vista grossa desses valores inegociáveis que, ano após ano, vão sendo cada vez mais regateados nos parlamentos e nas faculdades. 
Ser conservador e liberal na mesma dentada é impossível. Simplesmente porque ser conservador significa não mexer, enquanto que ser liberal significa mexer em todas as direcções. O ridículo da situação só adensa quando se procura distinguir o conservador social e o liberal económico. Apenas no mundo irracional das faculdades de economia e das comissões parlamentares é que o “mundo económico” está separado do “mundo social”. De um lado admite-se um mundo onde reina o voluntarismo, do outro as convenções sociais. Por um lado, o individualismo. Do outro, o Bem Comum. 
Ao contrário do que pensa, o conservador-liberal não é a Direita que Portugal precisa. É a Direita que a Esquerda deixa existir. O seu discurso é elitista, mas confuso e indecifrável, os seus objectivos são desconhecidos. A história do “conservadorismo-liberal” é, desde os aristocratas católicos liberais do século XIX, passando pela democracia cristã depois dos anos 50, uma história de retiradas, de valores negociados na boca das urnas, de cisões, traições e derrotas e de um lamentável fim na mediocridade, recorrendo frequentemente à tecnocracia como narrativa eleitoral. 
Da mesma maneira que um calçãozinho branco não faz um cavalheiro, uma meia-ideia não faz um Rumo. Uma Ideia, sim. E a Ideia para a Direita em Portugal é, sem sombra de dúvidas, a ideia de uma Direita Portuguesa.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

A propósito de touradas

No NPC fala-se nos comentários sobre a ausência de touradas no Japão, mas desconhece-se, certamente, a existência de touros ninja!

O vício apologético

Não nos cabe fazer o discurso apologético daquilo que se passou durante o miguelismo ou o Estado Novo ou qualquer outra época da nossa história recente em que possamos identificar uma classe política e governante interessada em guiar Portugal por um caminho genuíno, próprio e original e de acordo com o seu "código genético", a sua tradição, a sua génese.
O discurso apologético deve ser deixado às instituições religiosas ou de carácter místico-mitológico, como a Igreja Católica ou a Associação 25 de Abril.

Temos sim a obrigação de reconhecer os abusos que se fizeram, as vinganças camufladas em nome do Bem Comum, o desleixo do Estado para com os sectores carenciados da Sociedade - que marcaram o fim e as causas da decadência destes regimes.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Colinas Eternas

Este último texto no Nova Casa Portuguesa lembrou-me de um texto escrito e publicado no defunto jornal A Batalha, não o velho Batalha anarquista mas um recente projecto criado por um grupo de bons e jovens rapazes da Direita, que não o conseguiram manter. Ficou o mérito do esforço, contudo.
Não concordo com todos os pontos do texto do NCP. Diferenciar a tradição tauromáquica dos forcados da tradição cavaleira, tipicamente portuguesa, ou da espanhola, é um exercício de exclusão de partes que deixa pela metade a análise do espírito que criou essa mesma tradição. É como estudar a peonagem sem a cavalaria, a força sem a destreza, a camaradagem sem a ascese. Bandarilhar um touro não é mais fácil do que pegar um touro, adestrar um cavalo para o efeito é uma das grandes glórias da escola de cavalaria à portuguesa.
Ver o forcado como o único elemento da tradição tauromáquica verdadeiramente portuguesa é limitar essa visão ao mundo popular da tradição portuguesa. O touro não se pega sem ser bandarilhado primeiro - de outra forma, não será possível a pega, que exige que o focinho do touro se dirija para baixo. Tal só é possível pela fustigação causada pela pontada da bandarilha.
Essa visão limitada da tourada dá ao forcado um papel que ele não quer. O forcado é um elemento tão indispensável como os outros - e sabe disso. As opiniões da sensibilidade moderna, muito preocupada com imagens ensanguetadas, não o afectam.
A tourada não é uma luta de galos ou de cães, meras crueldades feitas para propósitos de mera violência. Vale a pena compreender isto antes de seleccionar que tipo de estereótipo nos interessa divulgar enquanto representante da camaradagem e da maneira portuguesa de estar no mundo.
O mundo do forcado precisa do mundo do cavaleiro e vice-versa. Exaltar o significado de um para perder o de outro é deixar de compreender ambos.
Aconselha-se assim, ao amigo do NCP, cuidado com os seus exercícios de criação de identidade. Não se vá perder o sentido da tradição, como quem exagera na poda da árvore.

Deixo aqui o tal texto, uma vez que o site do jornal onde estava publicado já não existe.

Sombras Sagradas Sobre Colinas Eternas

Dizia Salústio, no seu “De diis et mundo”, referindo-se à Tradição: “Isto não foi dantes, mas é sempre!”. A história da tourada em Portugal define-se assim mesmo, não tem um ponto inicial, mas também não terá um ponto final. Como todas as coisas oferecidas pela Tradição, também a tourada não se resume ao espectáculo físico que lhe dão os seus contornos visíveis. Nela, a prova como combate físico é apenas a transposição materialista a que se liga um significado superior, no qual os destinos do Homem e do Touro são unidos pelos deuses em laços de sangue. Na mitologia hindu, a árvore açvattha (a árvore da Tradição, com as suas raízes para cima, para o Alto Divino) é aliada do deus guerreiro Indra, o matador de Vrta, e Indra é assim invocado nos textos sagrados: “Tu que vais, vencendo como um touro irresistível, contigo, ó açvattha, podemos triunfar sobre os adversários.” Esta citação é retirada do Atharda-Verda, datado de 1800 anos antes de Jesus Cristo. O próprio Júlio César afirma, na sua “Conquista da Gália”, ter caçado o auroque, o famoso touro alemão. Porque razão este só se manteve nesta península, é algo que desconhecemos. Dantes o touro selvagem prolongava o seu reino do Norte da África até aos cumes da Lituânia.
Esta ligação dos povos ibéricos ao touro é bem demonstrada pelo escritor espanhol Frederico Garcia Llorca, nas suas Alocuciones argentinas:
“Este mugido de dor sai das frenéticas praças de touros e expressa uma comunhão milenária, uma oferenda obscura à Vénus Tartéssica do Rocío, viva antes que Roma ou Jerusalém tivessem muralhas, um sacrifício à doce deusa Mãe de todas as vacas, rainha das ganadarias andaluzas, esquecida pela civilização na solitárias marismas de Huelva.
Na metade do Verão Ibérico abrem-se as Praças, que é como quem diz, os Altares. O homem sacrifica o bravo touro, filho da docíssima vaca, deusa do amanhecer que vive no rocío. A imensa vaca celestial, mãe continuamente sangrada, pede também o holocausto do homem e continuamente o tem. A cada ano caem os melhores toureiros, destroçados, dilacerados pelos afiados cornos de alguns touros que mudam num terrível momento o seu papel de vítimas para o papel de sacrificadores. Assim como se o touro, por um instinto revelado ou por secreta lei desconhecida, elegesse o toureiro mais heróico para levar consigo, tal como quando nas tauromaquias de Creta levava consigo a virgem mais pura e delicada.”
A importância da tourada para os dias de hoje, no contexto da procura de uma identidade portuguesa verdadeiramente tradicional e não meramente fetichista, é matéria de elevada prioridade. Resumir a tourada ao casaco do cavaleiro, às suíças do forcado, ao fadinho faduncho e ao vinho tinto é um exercício meramente defensivo, condenado à derrota. Aqueles que amam a tradição portuguesa têm de compreender duas coisas: primeiro, o actual status quo político e institucional não foi feito para eles, não durará para sempre a nossa hipótese de usarmos as garantias dadas por este regime para defendermos a nossa identidade. O recuo dos nossos valores, imposto pela última vaga de legislação social, é a prova disso. Segundo, as nossas tradições só se mantêm vivas se renovadas continuamente no dia-a-dia, não no seu espectáculo meramente físico, mas no espírito que as preenche. Dizia o filósofo colombiano, Nicolás Gómez Dávila, que “o reaccionário não é um sonhador nostálgico de passados perdidos, mas um caçador de sembras sagradas sobre colinas eternas”. Nessas “colinas eternas” reside o elemento diferenciador dessa velha Europa, múltipla e trágica, a Europa do homem concreto, moldado pelas raízes, pela cultura e pela natureza. Homem esse que, como Dominique Venner reparou, é o alvo principal do materialismo historicista do comunismo e do mercado globalizado do capitalismo.
O teatro cósmico encetado pelo homem e o touro, essa raça bela e viril, é um espectáculo dionísico, terrível, inconcebível na sua carga emocional, religiosa e violenta para os dias de hoje. Constitui, contudo, dos pouco momentos em que o cidadão comum tem contacto com uma experiência verdadeiramente mística.
Num Portugal onde se dá, a cada Domingo e na grande maioria das paróquias católicas, um autêntico massacre litúrgico, onde missas, baptismos e casamentos passam por festas “new age” decalcadas dos anos 60, onde o único sacrifício presenciado não é o Holocausto do Filho do Homem padecendo na Cruz, mas o dos pobres espectadores que têm de lidar com os vibratos “gospell” dos coros de Igreja, com as salvas de palmas aos noivos antes da consagração da hóstia e demais sofrimentos estéticos impostos por esta Igreja Kumbaya – Católica, a Religião torna-se cada vez mais em substância vazia, ainda por cima informal. Cumpre reestabelecer, revitalizar e rejuvenescer a Religião Portuguesa usando, também, da força e vitalidade da Civilização Taurina a que pertencemos.
Só temos a perder com a uniformização dos costumes, da higienização civilizacional dos “terribles simplificateus” – e não falta quem, em nome de uma tradição que “não foi dantes, mas é sempre”, esteja bem preparado para lhes oferecer resistência, em nome da dignidade histórica de um povo.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Memórias do Legitimismo

Manifesto do Partido Legitimista (28 de Maio de 1907)
Publicado no Jornal "A Nação"

O que os Legitimistas defendem :

Monarquia cristã, tradicional hereditária, acompanhando os interesses e as necessidades justas da sociedade moderna, com o Rei como representante da autoridade suprema, responsável e livre: «Rex Noster Liber Est.»
Junto dele, como representante da Nação, livres também - «Nos Liberi Sumus» -, as Cortes Gerais, poder legislativo: o Ministério, poder executivo; e os Tribunais, poder Judicial.

Ao Rei queremo-lo chefe desses três poderes e exercendo a supremacia: no legislativo, pela sanção de leis, pela promulgação delas em circunstâncias excepcionais, inspirada no princípio da salvação pública, e pela faculdade de dissolver as Cortes ou convocá-las extraordinariamente; no executivo, pela livre nomeação dos ministros; no judicial, pela moderação ou comutação das penas impostas.

O Rei, e só ele na sua Família, receberia uma dotação proporcional aos rendimentos do Estado, e em harmonia com as circunstâncias do Tesouro Público. Junto do Rei, e por sua nomeação, funcionaria um Conselho de Estado político, de número limitado de membros, vitalícios, ao qual cumprisse aconselhá-lo em tudo que respeitasse ao exercício do Poder Real. Perante este conselho, e sob a presidência do Rei, responderiam individual e colectivamente os ministros.

Ao Rei competiria ainda ouvir as representações directas dos súbditos em audiências públicas.

O poder legislativo queremo-lo exercido pelo Rei, pelas Cortes Gerais, compostas por Procuradores do povo e por um conselho legislativo.
As Cortes Gerais devem reunir-se anualmente, constituindo a representação de todas as forças vivas da Nação. Compostas de procuradores de classes, o número destes deverá ser proporcional à importância e influência de cada uma delas na vida nacional. Por iniciativa de qualquer dos ministros deverão consignar em mensagem as necessidades, quer gerais, quer particulares, de cada classe, formulando, em conclusão e sinteticamente, as correcções necessárias às leis existentes ou o sentido de novas leis que fosse útil promulgar.

O conselho legislativo pensamo-lo formado por um resumido número membros, com especial competência para a redacção de leis, e sendo metade - incluídos os ministros em exercício - de nomeação régia, e outra metade de eleição das Cortes Gerais. Incumbe-lhes traduzir em artigos de lei os agravamentos votados pelas Cortes.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Un bel morir tuta la vita honora


Puestos estan frente a frente
Los dos valerosos campos,
Uno es del Rey Maluco,
Otro de Sebastiano,
El Lusitano.
Moço, animoso y valiente,
Robusto, determinado,
Aunque de poca experiencia
Y no bien aconsejado,
El Lusitano.

Brama que envistan los moros,
Y el exército contrário
Ya se vá llegando cerca,
Aellos (dize) Santiago,
El Lusitano.
Dispara la artelharia
La nuestra mal disparando,
Llueven balas, llueve muerte,
Saetas y mosquetazos.
El Lusitano.

Que por los lados ya todos
Es vanguardia nuestro campo
Y con sangre de los muertos
Está echo un grande lago.
El Lusitano.
Todo lo anda el buen Rey,
Dando muertes muy gallardo,
La espada tinta de sangre,
Lança rota, sin cavallo.
El Lusitano.

Que el suyo passado el pecho,
Ya no puede dar un passo,
A George Dalbiquerque pide
Le dé su rucio rodado.
El Lusitano.
Daselo de buena gana,
Y el Rey cavalga de un salto,
Mirale el Rey como jaze,
De espaldas casi espirando.
El Lusitano.

Mas le dize que se salve,
Pues todo es roto en pedaços,
Y el Rey se vá a los moros,
A los moros Sebastiano,
El Lusitano.
Busca la muerte en dar muertes,
Sebastiano el Lusitano,
Diziendo aora es la hora,
Que un bel morir, tuta la vita honora.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

aconselha-se

vivamente a seguir as "Acromiomancias Revisitadas" do dragão.
 O senão é que  Marcello apostou na dinamização económica a expensas da prudência política (neste caso, o inverso do Dr. Salazar).  Caetano herdou as boas finanças de Salazar, mas não lhe herdou a clarividência prevenida.  Por isso, quando  lhe desabou o choque petrolífero em cima, o sonho, que já vinha experimentando alguns sinais alarmantes, virou pesadelo. Nem sempre ir muito depressa é ir muito bem. Mas não fora esta prenda americana  dos amigos do costume, Caetano corria sérios riscos de modernizar o país ao ponto de tornar inúteis todos os seus peregrinos sucessores. Incluindo a adesão paulatina ao Mercado Comum europeu. Até vou mais longe, sem o ambiente decorrente do choque petrolífero, dificilmente a recepção popular ao golpe do 25 de Abril teria sido tão lorpa e festiva. Estamos, mais uma vez, no campo das puras influências externas, que sobrevoam e superam os protagonistas nacionais...

segunda-feira, 27 de abril de 2015

abolir a pobreza

Chesterton, aqui citado por Bonald
The trouble with out society is that the ideal is more wrong than the real.  Old Tories used to insist on teaching to the poor the principles of respect for private property, lest they should revolt and despoil the rich.  As a fact, it is the rich who have to be taught about the existence of private property, and especially about the existence of private life.  No ragged mob is likely to storm the nurseries of Mayfair, or steal the perambulators from the French nurses, or the pupils from the German governesses, parading in Kensington Gardens.  But philanthropists, under various excuses, really do raid the playgrounds of the poor.  They regard such a raid as a reform; and, in truth, it is a revolution.  Modern writers are very ready to cover great historical events with sweeping denunciations of crime; to say that the Great War was murder on a large scale or that the Russian Revolution was theft on a large scale.  They hardly realize how much of educational and philanthropic reform has been kidnapping on a large scale.  That is, it has shown an increasing disregard for the privacy of the private citizen, considered as a parent.  I have called it a revolution; and at bottom it really is a Bolshevist revolution.  For what could be more purely and perfectly Communist than to say that you regard other people’s children as if they were your own?

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Nicolás Gómez Dávila

Nadie se halla buscándose meramente a sí mismo.
La personalidad nace del conflicto con una norma.

João Camossa - entre a Anarquia e a Monarquia

texto de Daniel Sousa, no Literatura Marginal:
Camossa invocava uma corrente libertária para quem o rei devia ser o último vestígio do Estado. Podia também aliar-se a outro anarca-monárquico, o Salvador Dali, ou a um Tolkien, cujo pensamento não divergiria muito. Ou ainda, um pouco mais velho mas ainda assim conhecido, um homem livre como Afonso Lopes Vieira, e ainda, próximo e contemporâneo, um Agostinho da Silva, no reencontro entre um neo-republicanismo místico e um concepção anarco-comunalista reivindicada por uma facção do Partido Popular Monárquico, ideias compreendidas da influência de Herzen e do federalismo municipalista que apaixonara, nos primórdios da contestação oitocentista, uma primeira geração de republicanos. Subsumiam-se as ideias de uma monarquia pré-absolutista, idealizada na sua formulação popular e democrática, porque o que é verdadeiramente tradicional é inventar o futuro (diria mestre Agostinho da Silva).

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Participar

Cícero a demolir Julius Evola:
"É que a pátria não nos gerou e educou na condição de não esperar de nós como que alimento algum e de, estando ela própria ao serviço da nossa comodidade, fornecer ao nosso ócio um refúgio seguro e um lugar tranquilo para repouso, mas na condição de ser ela a receber os mais numerosos e melhores recursos do nosso espírito, do nosso engenho e do nosso discernimento, e de conceder, para nosso uso privado, somente o que lhe fosse supérfluo.
Já quanto às desculpas de que se servem como justificação para mais facilmente gozarem de ócio, essas não são minimamente aceitáveis. É o caso de dizerem que geralmente singram na carreira política homens que não são dignos de nada de bom, com os quais é sórdido comparar-se e aos quais é deplorável e perigoso fazer oposição, particularmente com a multidão excitada; e que, por esse motivo, não é próprio de um sábio tomar as rédeas quando não pode refrear os insanos e indomáveis ímpetos do vulgo, nem próprio de um homem livre confrontar-se com adversários impuros e desumanos e sujeitar-se ao ultraje das afrontas ou expor-se a injúrias insuportáveis para um sábio. Como se, para homens bons e fortes e dotados de uma alma grande, houvesse mais justa razão para seguir uma carreira política do que não obedecer a ímprobos nem permitirem que por estes mesmos o Estado seja dilacerado quando eles próprios mão estiverem em posição de pestar auxílio ao Estado, mesmo que o desejem."
Marco Túlio Cícero, "Tratado da República, Livro I". Trad. de Francisco de Oliveira. Círculo de Leitores e Temas e Debates, 2008, página 76-77
"E a verdade é que não basta possuir virtude, como se fosse uma arte qualquer, se ela não for usada. E embora uma arte possa ser mantida. como conhecimento em si, ainda que não seja usada, a virtude reside no seu uso prático Ora o seu uso supremo é a governação de uma cidade e a concretização, por actos, não por palavras, daquelas mesmas coisas que esses apregoam a um canto."
Marco Túlio Cícero, "Tratado da República, Livro I". Trad. de Francisco de Oliveira. Círculo de Leitores e Temas e Debates, 2008, página 73

Coca-Mola

O mais recente anúncio gay-friendly da Coca-Cola a passar na Televisão Portuguesa apresenta a típica mensagem distorcida dos valores comezinhos adaptados às modas da contemporaneidade.
Qual exercício neo-conservador, presta-se esta empresa a participar na massiva campanha para iludir os consumidores (que é o que nos resta, uma vez que cidadãos já não existem) de que os valores tradicionais da Família são compatíveis com o seu contrário, a não-família, o engano, a privação de uma criança de reconhecer um elemento feminino e masculino como seus geradores, enfim, a mundividência burguesa da sociedade.
Não admira reparar mais uma vez que a principal aliança do capitalismo mais desumano e destrutivo, do qual a Coca-Cola é fiel representante, é com os apaniguados do "progresso social". A luta para criar um mundo hedonista de pessoas que se definem pelo sexo das pessoas com quem se deitam é compatível, a cem por cento, com o actual regime económico que visa tornar-nos a todos em meros consumidores.
Como é agora hábito entre a esquerda, posto de parte o incentivo revolucionário, é agora altura de apelar ao trending, ao marketing e à desinformação, à destruição de conceitos basilares da sociedade para promover a mudança com o máximo de anestesia possível. Para que o consumidor coma caladinho e satisfeito.


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Artigos

“La Révolution Conservatrice n’est pas du tout un mouvement unitaire” 

Les représentants de la Révolution Conservatrice allemande n’ont que rarement utilisé ce terme pour se désigner eux-mêmes. L’expression ne s’est imposée qu’à partir des années 1950, à l’initiative de l’essayiste Armin Mohler, qui a consacré à cette mouvance un énorme « manuel » (La Révolution Conservatrice en Allemagne, 1918-1932) traduit en France en 1993. Elle désigne couramment ceux des adversaires de la République de Weimar, hostiles au traité de Versailles, qui se réclamaient d’une idéologie « nationaliste » distincte de celle du national-socialisme. Mohler les regroupe en trois familles principales : les jeunes-conservateurs (Moeller van den Bruck, Othmar Spann, Oswald Spengler, Carl Schmitt, Wilhelm Stapel, etc.), les nationaux-révolutionnaires (Ernst Jünger [photo], Franz Schauwecker, Ernst Niekisch, etc.) et les Völkische, qui sont des populistes à tendance souvent biologisante ou mystique. La Révolution Conservatrice n’est donc pas du tout un mouvement unitaire, même s’il existe entre ses représentants certains points communs. C’est plus exactement une mouvance, qui ne comprend pas moins de trois ou quatre cents auteurs, dont seule une minorité ont été traduits en français. Cette mouvance n’a pas à proprement parler d’équivalent dans les autres pays européens, mais pour ce qui concerne la France, on pourrait à bien des égards la rapprocher de ceux que l’on a appelés les « non-conformiste des années trente ».

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Sobre o regicídio

Lembrar o regicídio é mais do que um exercício de crença monárquica, é um acto patriótico. A morte de Dom Carlos I e do Príncipe Real não se deve à dicotomia Monarquia vs. República. 
Deve-se à actividade de um Chefe de Estado (D. Carlos) que procurou reabilitar uma instituição do Estado (a Monarquia em si, a instituição real) e o Estado ao mesmo tempo - contra os interesses da partidocracia "dos caciques", grande parte destes constituídos pelas "famílias-bem" que não só desertaram a Monarquia em todas as situações, durante o século passado, em que esta dependeu delas, como também conspirou activamente para a sua destruição. A Carbonária não passou da arma empunhada por grupos de interesse enfestados de gente republicana e monárquica.
Republicanos ou monárquicos, a data de hoje serve para nos lembrar o que espera a todos os que procuram contrariar o destino de um país que está a saque há mais de 200 anos por um bando a quem as questões de regime, governo e bem comum não interessam.

A minha Lista de blogues

Seguidores

Arquivo do blogue

Acerca de mim

A minha foto
"(...) as leis não têm força contra os hábitos da nação; (...) só dos anos pode esperar-se o verdadeiro remédio, não se perdendo um instante em vigiar pela educação pública; porque, para mudar os costumes e os hábitos de uma nação, é necessário formar em certo modo uma nova geração, e inspirar-lhe novos princípios." - José Acúrsio das Neves