segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Triste Realista

Eu sou realista,
Eu sou de nação,
Meu pae, minha mãe,
Corcundinhas são.

Ando triste pelos montes,
Nem por isso passo mal,
Antes triste realista,
Que alegre constitucional.

Trovas Absolutistas, Cancioneiro Popular Político (1906), de A. Thomaz Pires

domingo, 30 de novembro de 2014

Hunting the Tiger

«Hunting the tiger. Ele encontrou a expressão exacta do que qualquer homem digno desse nome é capaz de experimentar um dia ou outro, este filho de uma raça jovem e audaciosa que enterrámos há pouco, com vinte dos seus camaradas. O combate faz parte das paixões de primeira grandeza. E ainda não vi alguém que o instante da vitória não tenha emocionado. Amanhã isso vai tornar a apoderar-se de nós, quando, após uma rápida luta de morte, depois de um desencadeamento dos meios mais refinados, depois do gigantesco desdobramento de forças de que o homem moderno é capaz, tivermos fixado os olhos no fundo do desfiladeiro e no seu fervilhar de fugitivos. E, uma vez mais, todos soltarão, de uma boca que se escancara em goela, esse grito demente, esse grito longo que tantas vezes nos trespassou os ouvidos. É um canto infinitamente velho que ressurge da nossa alvorada e que nunca se teria pensado que ainda estivesse vivo em nós.
Amanhã reviveremos um desses instantes, e talvez agora mesmo, do outro lado, serpenteiem através do fogo os pequenos grupos que vamos enfrentar. Nunca nos vimos, e revestimos, por isso, uns para os outros a importância do destino. "Deve ser terrível matar pessoas que nunca viram." É o que se ouve, muitas vezes, quando se está de licença, longe do fogo, da boca da gente com tendência para as considerações sentimentais. "Sim, se ao menos eles vos tivessem feito alguma coisa." Está tudo dito. Têm de odiar, têm de ter um móbil pessoal para matar. Que se possa respeitar o adversário, mesmo quando nos batemos, não, evidentemente, contra o homem, mas contra o princípio puro, que alguém possa empenhar-se por uma ideia e por todos os meios do espírito e da violência, inclusive o lança-chamas e os gases de combate, são coisas que nunca compreenderão. Só se pode discutir isso entre homens. Enquanto ser pensante, não se pode matar sem outra forma de processo. Quanto mais nos sentimos ligados à vida pelo músculo, o coração e o cérebro, mais temos por ela um profundo respeito. Mas um dia, cedo ou tarde, reconhece-se que o devir está acima da vida.»

Ernst Jünger, A Guerra como Experiência Interior. Ulisseia, 2005, pág. 93

domingo, 23 de novembro de 2014

Ao Calor do Corpo

"Ao calor do corpo, as pólvoras não se molham nem os fulminantes falham com a humidade das noites." Explicava ele, aconchegando a larga cinta a descer muito abaixo das abas da jaleca de alamares de prata. Costumava atacar a curta espingarda de boca de sino - o seu trabuco - com buchas de papel, cortadas das proclamações do General Miguelista Macdonell, bem crente de que a boa doutrina, espalhada por descarga de zagalotes, mais fundo penetraria, do que a propaganda das literaturas.
(...)
"Olhe Menino! Digam o que disserem, façam o que fizerem, em Portugal não pode haver sossego sem honra... Grande crime, grande castigo!"

Carta a um Príncipe, Conde de Alvelos

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Zé da Fisga


Criado por Fernando da Silva Gonçalves após ser enviado a cumprir serviço militar em Cabinda, integrado na Companhia de Caçadores Especiais 371, o cartoon português "Zé da Fisga" foi originalmente publicado no jornal humorístico luandense "O Miau" (1964), transitando de seguida para a "Revista Notícia" (Angola, 1967), onde atingirá o seu maior público e a sua notoriedade entre os soldados do Exército Português. Chegou também a ser publicado em Portugal, pela revista "A Palavra". 
Considerado como uma das mais populares personagens do desenho humorístico português dos anos 60 e 70, a tiragem termina em glória e no seu auge em 1975, quando o seu autor retorna a Portugal. 
O êxito da personagem deve-se, de certo, às suas qualidades bastante portuguesas e sobejamente admiradas pelos soldados colocados no Ultramar. Malandro mas bom rapaz, desenrascado mas cumpridor, Zé da Fisga não perdia uma oportunidade para pregar uma boa partida ao seu sargento. 
 O coração doce de Zé da Fisga leva-o a provar o mel em várias colmeias, mas sempre tratando as abelhinhas com carinho. Don Juan de caserna, português dos três costados, está permanentemente rodeado de belas mulheres de todas as raças e cores - Zé da Fisga é o produto terminado e posto em prática de uma era que sonhava num Portugal multicontinental e multirracial, mas sempre Português.



sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Sobre o 11 de Setembro

Não considero o 11 de Setembro um ataque ao Mundo Ocidental. 
Foi, sem dúvida, um ataque a algo de muito mau e perverso no Mundo Ocidental. No coração da capital mundial do activismo das causas fracturantes e do capitalismo neo liberal ( hoje em dia, sempre lado a lado, mesmo com as máscaras que lhe tentam pôr) deu-se o massacre que justificou aquilo que este mundo pós-moderno precisa para manter os valores de uma burguesia decadente e uma sociedade de consumo que não conhece, do ponto de vista filosófico ou ideológico, opositores à altura - as políticas neocon de disseminação da democracia e da criação de novos mercados de escoamento e zonas de pilhagem de matérias primas. 
O 11 de Setembro é importante para essa sinagoga demoníaca que governa o mundo ocidental porque a) providenciou à Esquerda liberal e burguesa um discurso renovado de política externa e deu-lhe o monopólio político e institucional sobre a problemática do multiculturalismo, tudo isto depois de uma década em que se temia que a Esquerda Ocidental ia desaparecer no mundo da prosperidade pós-Muro de Berlim; b) permitiu à Direita conservadora e burguesa ter à disposição as infra-estruturas, os capitais, as circunstâncias e as desculpas perfeitas para lançar um programa de políticas neoliberais.
É claro que era uma tendência já marcada por outros eventos, mas o mundo de hoje, onde a oposição anti-sistema é um garante da metalinguagem do poder vigente, onde todos estes gatinhos zangados acabam por beber da mesma taça, directa ou indirectamente, foi construído pelos eventos causados pelo 11 de Setembro.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Liberté, Egalité, Beyoncé.


"(...) O ódio é um móbil poderoso e neste país pode haver muitas coisas confusas, mas duas delas são diáfanas como a luz do dia: os Espanhóis sabem morrer e sabem odiar como ninguém. Pode ter a certeza que os meus compatriotas virão atrás de mim. O mais curioso é que, quando analiso a questão a fundo, não sou capaz de os culpar por isso.
- É terrível! - comentou Frederic, indignado.
Dom Álvaro olhou para ele com genuína surpresa.
- Terrível? Por que motivo há-de ser terrível? Você engana-se, jovem. Não, não, nada disso. É Espanha, simplesmente. Para o entender seria preciso ter nascido cá."

O Hussardo, Arturo Pérez-Reverte

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Despertar

Um Risorgimento significa um despertar intelectual. Esta vontade tem os seus efeitos não apenas nas artes, mas na vida, na política, na economia. Se pareço demasiado enfático quanto à condição das artes sou-o tão somente devido ao facto de a arte ser mais rápida e aparente na resposta a um movimento intelectual do que as instituições, e não porque haja uma razão mais ponderada que lhe confira primazia.
Um Risorgimento implica todo um conjunto de emancipações; de ideias, de estultícias, de condições e de tiranias da pecúnia e do sabre."

Ezra Pound, Patria Mia

terça-feira, 17 de junho de 2014

Saudades do Futuro

Comunicação do Prof. Doutor Manuel Braga da Cruz por ocasião da sessão solene comemorativa do 180º aniversário da passagem e pernoita de D. Miguel em Alvalade a caminho do exílio. 

O miguelismo tornou-se apanágio de “uma maneira antiga de ser português”, transformou-se em saudade, bem portuguesa, de alguém amado que um dia havia de regressar. Tudo isso ficou e perdurou, entranhado na alma da pátria dilacerada pela divisão. Évora-Monte, Alvalade e Sines são as últimas estações de uma via- sacra não apenas de um Rei, mas de um povo antigo e de uma tradição ancestral, que nunca se aceitaram banidos da história, mas antes sonharam com o regresso a um caminho português de futuro.

domingo, 8 de junho de 2014

Fogo e Sangue

(ilustração de Almada Negreiros, in Roteiro da Mocidade do Império, Silva Tavares, Agência Geral das Colónias, 1938

«Ide buscar na guerra da Europa toda a força da nossa nova pátria. No front está concentrada toda a Europa, portanto a Civilização actual. A guerra não é apenas a data histórica de uma nacionalidade; a guerra resolve plenamente toda a expressão da vida. A guerra é a grande experiência. [...] É na guerra que se acordam as qualidades e que os privilegiados se ultrapassam. É na violência das batalhas da vida e das batalhas das nações que se perde o medo do perigo e o medo da morte em que fomos erradamente iniciados. A vida pessoal, mesmo até a própria vida do génio, não tem a importância que lhe dão os velhos; são instantes mais ou menos luminosos da vida da humanidade. [...] A guerra é o ultra-realismo positivo. É a guerra que destrói todas as fórmulas das velhas civilizações cantando a vitória do cérebro sobre todas as nuances sentimentais do coração. É a guerra que acorda todo o espírito de criação e de construção assassinando todo o sentimentalismo saudosista e regressivo. É a guerra que apaga todos os ideais românticos e outras fórmulas literárias ensinando que a única alegria é a vida. [...] A guerra cobre de ridículo a palavra sacrifício transformando o dever em instinto. É a guerra que proclama a pátria como a maior ambição do homem. É a guerra que faz ouvir ao mundo inteiro pelo aço dos canhões o nosso orgulho de Europeus. Enfim: a guerra é a grande experiência. Contra o que toda a gente pensa a guerra é a melhor das selecções porque os mortos são suprimidos pelo destino, aqueles a quem a sorte não elegeu, enquanto os que voltam têm a grandeza dos vencedores e a contemplação da sorte que é a maior das forças e o mais belo dos optimismos. [...] Fazei a apoteose dos Vencedores seja qual for o sentido, basta que Vencedores, ajudai a morrer os vencidos. [...] aproveitai sobretudo este momento único em que a guerra da Europa vos convida a entrardes prá Civilização.»

Almada Negreiros
Ultimatum Futurista – às Gerações Portuguesas do Século XX (Dezembro de 1917)

sábado, 5 de abril de 2014

Vou na aragem da largada

Vou na aragem da largada
pobre e louco e triste e só
Na distância trespassada
Vela ao vento do que sou

E assim a distância voada
no meu ouvido ampla ainda
É janela quadriculada
Onde o infinito já finda.

Rodrigo Emílio, Paralelo 26S Às Audições do Índico

A minha Lista de blogues

Seguidores

Arquivo do blogue

Acerca de mim

A minha foto
"(...) as leis não têm força contra os hábitos da nação; (...) só dos anos pode esperar-se o verdadeiro remédio, não se perdendo um instante em vigiar pela educação pública; porque, para mudar os costumes e os hábitos de uma nação, é necessário formar em certo modo uma nova geração, e inspirar-lhe novos princípios." - José Acúrsio das Neves