quarta-feira, 16 de julho de 2014

Liberté, Egalité, Beyoncé.


"(...) O ódio é um móbil poderoso e neste país pode haver muitas coisas confusas, mas duas delas são diáfanas como a luz do dia: os Espanhóis sabem morrer e sabem odiar como ninguém. Pode ter a certeza que os meus compatriotas virão atrás de mim. O mais curioso é que, quando analiso a questão a fundo, não sou capaz de os culpar por isso.
- É terrível! - comentou Frederic, indignado.
Dom Álvaro olhou para ele com genuína surpresa.
- Terrível? Por que motivo há-de ser terrível? Você engana-se, jovem. Não, não, nada disso. É Espanha, simplesmente. Para o entender seria preciso ter nascido cá."

O Hussardo, Arturo Pérez-Reverte

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Despertar

Um Risorgimento significa um despertar intelectual. Esta vontade tem os seus efeitos não apenas nas artes, mas na vida, na política, na economia. Se pareço demasiado enfático quanto à condição das artes sou-o tão somente devido ao facto de a arte ser mais rápida e aparente na resposta a um movimento intelectual do que as instituições, e não porque haja uma razão mais ponderada que lhe confira primazia.
Um Risorgimento implica todo um conjunto de emancipações; de ideias, de estultícias, de condições e de tiranias da pecúnia e do sabre."

Ezra Pound, Patria Mia

terça-feira, 17 de junho de 2014

Saudades do Futuro

Comunicação do Prof. Doutor Manuel Braga da Cruz por ocasião da sessão solene comemorativa do 180º aniversário da passagem e pernoita de D. Miguel em Alvalade a caminho do exílio. 

O miguelismo tornou-se apanágio de “uma maneira antiga de ser português”, transformou-se em saudade, bem portuguesa, de alguém amado que um dia havia de regressar. Tudo isso ficou e perdurou, entranhado na alma da pátria dilacerada pela divisão. Évora-Monte, Alvalade e Sines são as últimas estações de uma via- sacra não apenas de um Rei, mas de um povo antigo e de uma tradição ancestral, que nunca se aceitaram banidos da história, mas antes sonharam com o regresso a um caminho português de futuro.

domingo, 8 de junho de 2014

Fogo e Sangue

(ilustração de Almada Negreiros, in Roteiro da Mocidade do Império, Silva Tavares, Agência Geral das Colónias, 1938

«Ide buscar na guerra da Europa toda a força da nossa nova pátria. No front está concentrada toda a Europa, portanto a Civilização actual. A guerra não é apenas a data histórica de uma nacionalidade; a guerra resolve plenamente toda a expressão da vida. A guerra é a grande experiência. [...] É na guerra que se acordam as qualidades e que os privilegiados se ultrapassam. É na violência das batalhas da vida e das batalhas das nações que se perde o medo do perigo e o medo da morte em que fomos erradamente iniciados. A vida pessoal, mesmo até a própria vida do génio, não tem a importância que lhe dão os velhos; são instantes mais ou menos luminosos da vida da humanidade. [...] A guerra é o ultra-realismo positivo. É a guerra que destrói todas as fórmulas das velhas civilizações cantando a vitória do cérebro sobre todas as nuances sentimentais do coração. É a guerra que acorda todo o espírito de criação e de construção assassinando todo o sentimentalismo saudosista e regressivo. É a guerra que apaga todos os ideais românticos e outras fórmulas literárias ensinando que a única alegria é a vida. [...] A guerra cobre de ridículo a palavra sacrifício transformando o dever em instinto. É a guerra que proclama a pátria como a maior ambição do homem. É a guerra que faz ouvir ao mundo inteiro pelo aço dos canhões o nosso orgulho de Europeus. Enfim: a guerra é a grande experiência. Contra o que toda a gente pensa a guerra é a melhor das selecções porque os mortos são suprimidos pelo destino, aqueles a quem a sorte não elegeu, enquanto os que voltam têm a grandeza dos vencedores e a contemplação da sorte que é a maior das forças e o mais belo dos optimismos. [...] Fazei a apoteose dos Vencedores seja qual for o sentido, basta que Vencedores, ajudai a morrer os vencidos. [...] aproveitai sobretudo este momento único em que a guerra da Europa vos convida a entrardes prá Civilização.»

Almada Negreiros
Ultimatum Futurista – às Gerações Portuguesas do Século XX (Dezembro de 1917)

sábado, 5 de abril de 2014

Vou na aragem da largada

Vou na aragem da largada
pobre e louco e triste e só
Na distância trespassada
Vela ao vento do que sou

E assim a distância voada
no meu ouvido ampla ainda
É janela quadriculada
Onde o infinito já finda.

Rodrigo Emílio, Paralelo 26S Às Audições do Índico

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Soneto de Intimidade

Nas tardes de fazenda há muito azul demais.
Eu saio às vezes, sigo pelo pasto, agora
Mastigando um capim, o peito nu de fora
No pijama irreal de há três anos atrás.

Desço o rio no vau dos pequenos canais
Para ir beber na fonte a água fria e sonora
E se encontro no mato o rubro de uma amora
Vou cuspindo-lhe o sangue em torno dos currais.

Fico ali respirando o cheiro bom do estrume
Entre as vacas e os bois que me olham sem ciúme
E quando por acaso uma mijada ferve

Seguida de um olhar não sem malícia e verve
Nós todos, animais, sem comoção nenhuma
Mijamos em comum numa festa de espuma.

Vinicius de Moraes

Ventos da História

A única regra infalível da História é a de que não existem "Ventos da História", ou seja, não existem mudanças inevitáveis ou um progresso idílico. Existem civilizações que cedem e desaparecem e outras que resistem e prosperam. A nossa, cede.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Jünger, Venner e Maurras


Venner went on to discuss two of his major influences: Charles Maurras and Ernst Jünger. He admired Maurras’ hard-nosed character and his courage in the face of ordeals. After his trip to Athens in 1898, Maurras returned a convinced pagan, an inspiring thought to Venner. Venner looked to Homer as the foundation of European civilization: nature as the base, excellence as the principle, and beauty as the horizon.
Those values he received from Maurras who, however, was never confused about the true French identity which was created by the forty Catholic kings of France. While the foundation is important, the structure arising from it is what counts.
Jünger was authenticated by his life, in Venner’s eyes. Venner was moved by Jünger’s high spirituality formed in the forests and nature. He quotes St. Bernard:
You will find more in the forests than in books. The trees will teach you things that no master will tell you.
That is the spirituality of Jünger’s French and Gaulish ancestors, which is what Venner terms “tradition”, which “develops in us without our knowing it.”
Venner never mentioned that both Maurras and Jünger converted to Catholicism before their death. It is hard to believe that, in such thoughtful men, that was from weakness or ignorance. Most likely, it is the correct conclusion of old men who have known nature, excellence, and beauty, yet were still seeking for their fulfillment. Ironically, in Venner’s words, in those men tradition slowly developed within them. Venner makes the choice starkly clear: conversion or suicide. Mock me if you will, I am just trying to save you many years of lost time, if not suicide.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Dinheiro, Dinheiro, Dinheiro


Sou muito católico. Na realidade, não interessa se é muito católico, o importante é conhecer bem a família. Somos todos iguais perante Deus, logo se vê: o cerimonial, o aprumo, as eminências embatinadas são as mesmas, tratando-se de um Cavaleiro da Ordem de São Não-sei-Quantos ou da filha de uma peixeira. Que horror, mas como poderia ser de outra forma? Cada um ao seu nível. «Na casa de Meu Pai há muitas moradas». Evidentemente, há solares, há umas moradias para esses novos-ricos detestáveis com quem vou casar os meus filhos, e há os bairros sociais para essa gente muito santa, de quem eu quero muita distância. Dinheiro, Dinheiro, Dinheiro.
Está feita a actualização do meu sistema.
Perdido nestes delírios, empreendi.
Uma das hipóteses macroeconómicas que tem, embora implicitamente, tido mais impacto na nossa vida corrente é a … Oh, o texto já vai tão longo. O que interessa é que empreendi, sou um empreendedor. Se falasse agora do que empreendi, alguém leria? Alguém tem tempo para ler? Isto não é um Relatório e Contas, e mesmo que fosse, sabe Deus – perdão, Dinheiro – quantos o leriam. 
Hugo, fizeste bem. Neste texto, perdeste-te. Já não há volta a dar. É um texto para esquecer. Para a semana falaremos então do que interessa: Dinheiro, Dinheiro, Dinheiro. 
HPdA

domingo, 5 de janeiro de 2014

Entre a Tradição e a Modernidade

(trascrição em VII partes do artigo publicado n'O Diabo, 27 de Agosto de 2013)

O papel que Dom Miguel desempenha na nossa história está ligado a esse duríssimo combate entre a Tradição e a Modernidade que assaltou o Mundo Ocidental a partir do século XVIII. Esse assalto prende-se, contudo, à destruição da unidade do mundo cristão iniciado pela Reforma Protestante do século XVI. A grande tradição europeia está povoada das lendas de grandes reis que purificaram os seus reinos após períodos turbulentos de caos e desordem: desde o Rei Artur, passando por São Fernando de Castela e São Luís de França, o grande Santo Estevão dos Húngaros ou Frederico Barba-Ruiva para os imperiais germânicos, todos estes personagens de qualidades míticas possuíam um grupo de qualidades comuns. Eram homens pios, corajosos e valentes, detentores de algum tipo de habilidade mágica (como o dom de curar) que asseverava a sua concordância com a natureza divina da sua Realeza.
A personalidade profundamente europeia desta tradição cavaleiresca está plasmada nos Nove da Fama, os modelos exemplares do ideal de cavalaria, que sintetizam as três tradições que formam a Europa: a pagã ou gentia (através de Heitor de Tróia, Alexandre Magno e Júlio César), a hebraica (através de Josué, filho de Abraão e conquistador de Canaã, David, rei de Jerusalém e Judas Macabeu, reconquistador da liberdade dos israelitas) e por fim, a cristã (Artur, rei dos Bretões e dos Cavaleiros da Távola Redonda, Carlos Magno, Primeiro Imperador do Sacro-Império e Pai da Europa, Godofredo de Bulhão, cruzado e Guardião do Santo Sepulcro).

A reforma protestante e mais tarde a ruptura iluminista, especialmente na sua vertente revolucionária, deitam por terra esta cultura conjunta, criando uma nova religião social sobre as ruínas da antiga ordem: o Liberalismo, posteriormente os seus sucedâneos Capitalismo e Socialismo. O mundo da Tradição não é, contudo, derrotado facilmente, e através dos seus paladinos, entre os quais se conta em posição de relevo Dom Miguel, resiste.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Um Imenso Portvgal

Império Lusitano soube usar liberdade das elites locais e religião missionária para manter-se por cinco séculos, artigo de Carlos Haag


Essa foi uma das principais razões do sucesso dos portugueses em face dos rivais espanhóis. “A monarquia espanhola era uma variedade de reinos, enquanto Portugal era um reino unificado. Foram feitos grandes esforços para aumentar o poder do Estado a expensas da nobreza e das comunas. Esses recursos ajudaram na expansão marítima que, por sua vez, deixou o reino menos dependente de nobres e plebeus graças aos recursos obtidos.
Em troca, esses recursos permitiram ao Estado cooptar a nobreza, o que propiciou ao rei português uma consolidação espantosa do seu poder”, explica a historiadora Ana Paula Megiani, da USP, organizadora de O império por escrito (Alameda), outra pesquisadora do projeto.“Com essa centralidade, a monarquia portuguesa tinha uma capacidade de mando no império maior do que a espanhola, com o poder local funcionando como formas de exercício daquele poder, expressões de centralidade, e não de desmembramento do império”, avalia Ana. 
Ainda assim Portugal vivia uma contradição que os espanhóis não tinham: era um império sem imperador.“Nesse contexto, a face religiosa do império é a que melhor expressa a sua universalidade.
A Igreja ofereceu um substrato adequado à efetivação prática de um grupo de dogmas e princípios, tendo nas missões religiosas o seu principal instrumento operacional para cimentar as partes da totalidade”, afirma o historiador Adone Agnolin, da USP, do núcleo Religião e Evangelização da pesquisa. “A perspectiva religiosa traz a base de uma universalitas (princípio construtor de impérios herdado dos romanos), repassada, do ponto de vista político, à manutenção dos impérios, mas que, no fundo, se apoia sobre a ideia de um ‘império simbólico, unindo política e religião”, fala Agnolin.
Segundo o historiador, por meio de seus missionários, o Império Português reverte o processo de formação histórica ao encontrar seu pressuposto universal na dimensão do religioso. “O religioso é seu instrumento privilegiado para a realização do projeto e, a partir dele, Portugal se propõe como novo e inédito modelo imperial”, diz.

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"(...) as leis não têm força contra os hábitos da nação; (...) só dos anos pode esperar-se o verdadeiro remédio, não se perdendo um instante em vigiar pela educação pública; porque, para mudar os costumes e os hábitos de uma nação, é necessário formar em certo modo uma nova geração, e inspirar-lhe novos princípios." - José Acúrsio das Neves