segunda-feira, 29 de julho de 2013

O Shire


O conceito de sociedade como um todo orgânico, sem lutas de classes, com uma estrutura comunitária, tem caracterizado o pensamento social católico desde o Império Romano. Em muitos sentidos, o Shire exprime perfeitamente os ideiais económicos e políticos da Igreja, conforme expressos por Leão XIII em Rerum novarum e por Pio IX em Quadragesimo anno. A autoridade tradicional (o Thain) limitada excepto em tempo de crise; a representação popular (o Presidente de Michel Delving), igualmente limitada, a subordinação e, acima de tudo, a mínima organização e conflito. É o tipo de sociedade visionada pelos Distributistas Belloc e Chesterton na Grã-Bretanha, por Salazar em Portugal, pelos autores da Constituição Irlandesa, por Dolfuss na Áustria e por Smetona na Lituânia. Por muito ou por muito pouco que estes habitantes do mundo real se tenham aproximado do seu objectivo, a verdade é que o que pretendiam era algo muito semelhante ao Shire.

Charles A. Coulombe, The Lord of The Rings: A Catholic View

terça-feira, 21 de maio de 2013

Dominique Venner n'est plus

Dominique Venner não era um bom católico. Era, no entanto, um bom pagão.
O seu suicídio não se resume a um protesto - homens como este, de acção e honra, não se rebaixam ao nível do protesto. Venner aniquilou-se como um antigo guerreiro pagão, olhando de frente o monumento que encarna a tradição milenar francesa: a Nottre Dame de Paris, o seu sagrado altar católico, que apesar de não ser o altar de Venner, era o altar da religião que interliga as raízes pagãs folclóricas europeias e a Boa Nova, aquela que inspirou ao Velho Continente todas as suas maiores façanhas: a Medievalidade, a Cruzada, a Cristandade, a Liberdade.
Venner, enquanto europeu e pagão, morreu de frente para o último resquício de Europa que ainda não se destruiu em França. Morreu como os antigos gauleses que se degolavam para não se entregarem aos invasores. Morreu como um Homem só e voltado perante a ruína do mundo Ocidental. Hoje, os últimos europeus da Europa, calando os urros animalescos dos vendidos e dos cobardes, vão beber à sua memória, recordar as glórias da Cristianíssima França, cantar hinos à Morte e sorrir perante o invencível combate que as hordas da Modernidade lhes opõe.

Viva a Europa!
Montjoie Saint Denis!
Dominique Venner, presente!

segunda-feira, 20 de maio de 2013

O Sol e a Serpente


Nossa Senhora da Conceição, Anónimo, Museu de Arte Sacra de São Paulo

«Estes dois abrigos-santuários do Douro (Santuários do Cachão da Rapa e Pala Pinta), serão representantes de dois níveis e dois cultos ontológicos e mitológicos: o nível ctónico, o reino da Serpente e o nível celeste, o Reino do Sol. Solidariamente, culto dos antepassados e seu saber oracular, concedido aos homens nessas salas secretas e culto do Sol, concedido ao ar livre, face ao céu; dois aspectos dum mitologema percorrendo outrora estas margens.
E que ainda se poderá testemunhar no mesmo período neolítico no sul deste território: nos dólmens da Abelhoa e Reguengos de Monsaraz, nos quais o Sol está gravado nesses monumentos votados aos antepassados e à força da vida; e ainda no dólmen do Carrapito, na Beira Alta, onde há figuras radiadas como sóis e uma linha ondulada, como serpente ou água, indicando assim dois caminhos diferentes de culto, levando à mesma finalidade salvífica.
O caminho da serpente, dos abismos,levando ao país dos mortos ou das Ilhas dos Viventes, seria aquele dominante na escatologia e história dos portugueses. E ainda perdurando nas Barcas de Gil Vicente e depois em Pessoa; as Barcas, conduzindo à Ilha Perdida, como ao Paraíso: sempre na rota do sol poente deste extremo finistérrico ocidental.
Depois, na história portuguesa, o iniciado da serpente será o primeiro Descobridor navegante aportando às ilhas atlânticas.
Rota da serpente, será ainda antes, a testemunhada no nosso período da ocupação romana, pela Pateira da Lameira, em Penamacor, onde o seu cenário infernal, com mortos na boca das trevas, Perseu combate a Medusa, tentando evitar olhá-la directamente, perigo mortal, mas só na imagem reflectida no seu próprio escudo. Depois desse perigo mortal, será do Mar Tenebroso para o Descobridor português, novo Perseu.
Vários itinerários paralelos se traçam nesses tempos, o infernal dessa Pateira e o celeste da lápide funerária de cárquere onde o morto ascende ao céu no dorso de um cavalo. Esta lápide e esse objecto votivo, testemunham uma diversidade escatológica de uma única reintegração procurada, em níveis aparentemente opostos.
E, tal ainda na própria essência do Sol, eles se conjugarão. Reintegração que se expressará nos Vedas, onde o Sol possui nomes de “resplandescente e negro”, o que traz o dia e a noite. Tal como essa concepção védica, haverá na nossa proto-história, a mesma união de contrários, como expressão da plenitude ontológica do astro-rei. Suprema união ao ctónico e celeste, que terá sua máxima expressão a nível nacional em Portugal e muito especificamente na sua história da religião e da política, em si implicando concepções teológicas e cosmológicas, no século XVII, quando o Reino proclamou a sua plena liberdade, pela Independência perante Castela, e elegendo sua Padroeira Nossa Senhora da Conceição, Rainha do Céu e da Terra tendo a seus pés a serpente e a lua, e ao alto doze estrelas como resplendor. O rei D. João IV, coroando-a com a coroa dos reis de Portugal. Eis um declarado acto político de teologia realizado pela soberania portuguesa; e único na Europa da Idade Moderna.»

Dalila Pereira da Costa, As Margens Sacralizadas do Douro Através de Vários Cultos

nota sobre a pintura:  Imaculada Conceição, coroada por 12 estrelas, é apresentada sob a forma de Virgem do Apocalipse: e comparada ao Sol (Electa ut sol) e à Lua (Pulchra ut luna). Os outros emblemas são originários do "Cântico dos Cânticos" e da "Ladainha Lauretana": a Imaculada é Fonte dos Jardins (Fons Hortorum) ou Poço de Águas Vivas (Puteus aquarum viventium), Exaltada como o Cedro (Cedrus exaltata), Rosa Mística (Rosa mystica), Torre de Marfim (Turris eburnea), Escada do Paraíso (Scala paradisii), Estrela da Manhã (Stella matutina). A esses atributos místicos, junta-se a figura da serpente infernal esmagada pela Virgem, vitoriosa sobre o pecado original. A Ordem dos Franciscanos é evocada pelos dois cordões monacais que emolduram a imagem da Virgem, cada um deles com três nós, simbolizando os votos perpétuos de castidade, pobreza e obediência. A obra, executada provavelmente em São Paulo no século XVIII, pertencia ao Convento de Santa Clara de Taubaté.
fonte: Wikipédia.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Pois Bem!

Se um inglês ao passar me olhar com desdém,
Num sorriso de dó eu pensarei: - Pois bem!
Se tens agora o mar e a tua esquadra ingente,
Fui eu que te ensinei a nadar, simplesmente.
Se nas Índias flutua essa bandeira inglesa,
Fui eu que t'as cedi num dote de princesa.
E para te ensinar a ser correcto já,
Coloquei-te na mão a xícara de chá...

E se for um francês que me olhar com desdém,
Num sorriso de dó eu pensarei: - Pois bem!
Recorda-te que eu tenho esta vaidade imensa
De ter sido cigarra antes da Provença.
Rabelais, o teu génio, aluno eu o ensinei
Antes de Montgolfier, um século! Voei
E do teu Imperador as águias vitoriosas
Fui eu que as depenei primeiro, e às gloriosas
O Encoberto as levou, enxotando-as no ar,
Por essa Espanha acima, até casa a coxear.

E se um Yankee for que me olhar com desdém,
Num sorriso de dó eu pensarei: - Pois bem!
Quando um dia arribei à orla da floresta,
Wilson estava nu e de penas na testa.
Olhava para mim o vermelho doutor,
- eu era então o João Fernandes Labrador...
E o rumo que seguiste a caminho da guerra
Fui eu que to marquei, descobrindo a tua terra.

Se for um Alemão que me olhar com desdém,
Num sorriso de dó eu pensarei: - Pois bem!
Eras ainda a horda e eu orgulho divino,
Tinha em veias azuis gentil sangue latino.
Siguefredo esse herói, afinal é um tenor...
Siguefredos hei mil, mas de real valor.
Os meus deuses do mar, que Valhala de Glória!
Os Nibelungos meus estão vivos na História.

Se for um Japonês que me olhar com desdém,
Num sorriso de dó eu pensarei: - Pois bem!
Vê no museu Guimet um painel que lá brilha!
Sou eu que num baixel levo a Europa à tua ilha!
Fui eu que te ensinei a dar tiros, ó raça
Belicosa do mundo e do futuro ameaça.
Fernão Mendes Zeimoto e outros da minha guarda
Foram-te pôr ao ombro a primeira espingarda.
Enfim, sob o desdém dos olhares, olho os céus;
Vejo no firmamento as estrelas de Deus,
E penso que não são oceanos, continentes,
As pérolas em monte e os diamantes ardentes,
Que em meu orgulho calmo e enorme estão fulgindo:
- São estrelas no céu que o meu olhar, subindo,
Extasiado fixou pela primeira vez...
Estrelas coroai meu sonho Português!

P.S. A um Espanhol, claro está, nunca direi: - Pois bem!
Não concebo sequer que me olhe com desdém.

Afonso Lopes Vieira

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Cristo e o Mito


"Ora, a história de Cristo é simplesmente um mito verdadeiro: um mito que exerce em nós o mesmo efeito que os outros mas com esta tremenda diferença: aconteceu realmente. E, da mesma forma, deveremos dar-nos felizes por aceitá-lo, recordando que se trata de um mito de Deus enquanto os outros são mitos dos homens; ou seja, Deus recorre às histórias pagãs para se expressar através das mentes dos poetas, utilizando as imagens que lá encontra; enquanto o Cristianismo é a forma de Deus se expressar através daquilo a que chamamos «coisas reais». Assim, é "verdade", não no sentido de se tratar de uma «descrição» de Deus (pois nenhuma mente finita poderia alcançá-la) mas no sentido de se tratar da forma como Deus escolhe (ou pode) ser percebido pelas nossas faculdades. É claro que as «doutrinas» que extraímos do verdadeiro mito são "menos verdadeiras": são traduções daquilo que Deus já expressou numa linguagem mais adequada, nomeadamente a verdadeira encarnação, crucificação e ressurreição, de modo que estas possam ser compreendidas pelos nossos conceitos e ideias."

da carta de CS Lewis a Arthur Greeves

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

O Rei no Exílio

Pastor mais luso e nosso
outro se não conhece;
tem puras qualidades que rebrilham
entre as dos guardadores
da honra e da mantença das lavouras.
Ele é bravo e é pobre;
a nossa Língua fala
que um século vivido entre as alheias
jamais fez esquecida;
aprendeu na dureza
e alta dignidade
do pão do seu exílio
a saber como os pobres são honrados
quase só pelo serem,
e como o ventre obeso dos tiranos
do mando ou do dinheiro
é cousa dura e feia.



Éclogas de AgoraAfonso Lopes Viera

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Cidade de Papel

This is our paper city, built
on the rock of debt, held fast
against all winds by the paperweight of debt.
The crowds file slowly past, or stop and stare,
and here and there, dull-eyed, the idle stand
in clusters in the mouths of gramophone shops
in a blare of music that fills the crumpled air
with paper flowers and artificial scents
and painless passion in a heaven
of fancied love.
                       The women come
from the bargain shops and basements
at dusk, as gazelles from drinking;
the men buy evening papers, scan them
for news of doomsday, light their pipes:
and the night sky, closing over, covers like a hand
the barbaric yawn of a young and wrinkled land.

A.R.D. Fairburn, Dominion

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Doutrina Político-Poética para a Salvação Nacional

A el-Rei D. João 

Rei de muitos reis, se um dia,
se uma hora só, mal me atrevo
ocupar-vos, mal faria,
e ao bem comum não teria
os respeitos que ter devo;

Que em outras partes da Esfera,
em outros céus diferentes,
que Deus té'gora escondera,
cada uma de tantas gentes
vossos mandados espera.

Porque, Senhor, eles sós 
(justo e poderoso Rei!)
desdão ou lhe cortam nós,
como também entre nós
que sois nossa viva lei.

Onde há homens há cobiça;
cá e lá tudo ela empeça,
se a santa, igual justiça
não corta, ou não desempeça
o que a má malícia enliça.

Senhor, qu'é muito atrevida!
E onde ela nós cegos deu,
cortar é coisa devida;
exemplo, o justo de Mida, 
que el-Rei vosso avô fez seu.

Ora eu que, respeito havendo
ao tempo mais que ao estilo,
irei fugindo ao que entendo;
farei como os cães do Nilo,
que correm e vão bebendo.

A dignidade real,
que tem o mundo a direito, 
(sem ela ter-se-ia mal) 
é sagrada, é natural
deixemos medo e proveito.

As vossas velas, que vão 
dando quase ao mundo volta,
raramente contarão
gente de algum rei solta:
sem cabeça o corpo é vão.

Dignidade alta e suprema,
que há que a não reconheça?
Viu-se em Marco António tema
de a César pôr diadema
real sobre a cabeça.

Que nome de emperador
d'antes a César se dera,
sem suspeita e sem temor;
que inda então muito mais era
ser cônsul, ser ditador.

Um rei ao reino convém; 
vemos que alumia o mundo;
um sol, um Deus o sustém;
certa a queda e a fim tem
o reino onde há rei segundo.

Não, ao sabor das orelhas,
arenga cuidada e branda;
abastem as razões velhas:
a cabeça os membros manda;
seu rei seguem as abelhas.

A seu tempo o rei perdoa;
a tempo o ferro é mezinha:
forças e condição boa
deram ao leão coroa
de sua grei montesinha.

Às aves, tamanho bando, 
doutra liga e doutra lei, 
por vencer todas voando, 
a águia foi dada por rei,
que o sol claro atura olhando.

Quanto que sempre guardou
David lealdade e fé
a Saul! Quanto o chorou!
Quanta maldição lançou
aos montes de Gelboé!

Onde caíra o escudo
de seu rei, inda que imigo,
inda que já mal sesudo
saindo de tal perigo,
e subindo a mandar tudo.

O senhor da natureza,
de que o céu e a terra é cheia,
vestindo em nossa baixeza,
de real sangue se preza:
por rei na cruz se nomeia.

Sobre obrigações tamanhas
velem-se com tudo os reis
dos rostos falsos, das manhas
com que lhes fazem das leis,
fracas teias das aranhas.

Oue se não pode fazer
por arte, por força ou graça,
salvo o que a justiça quer.
Senhor, não chamam poder
salvo o que lhes val na praça.

E por muito que os reis olhem
vão por fora mil inchaços,
que ante vós, Senhor, se encolhem
duns gigantes de cem braços
com que dão e com que tolhem.

Quem graça ante o rei alcança,
e i fala o que não deve,
(mal grande da má privança)
peçonha na fonte lança,
de que toda a terra beve.

Quem joga onde engano vai
em vão corre e torna atrás,
em vão sobre a face cai;
mal hajam as graças más
de que tanto dano sai!

Homem de um só parecer,
dum só rosto e duma fé,
d'antes quebrar que volver,
outra cousa pode ser,
mas de corte homem não é.

Ouço gracejar, de cá,
de quem vai inteiro e são,
nem se contrafaz mais lá:
- Como este vem aldeão,
que não sabe onde se está!

As públicas santidades,
estes rostos transportado,
não em ermos, mas cidades,
para Deus são vaidades,
para nós vão rebuçados.

Mas, despois, que lhes fazemos?
Pode ser, não pode ser,
adiante o saberemos:
estamos um pouco a ver;
cai-lhes o rebuço, e vemos.

Senhor, hei-vos de falar 
(vossa mansidão m'esforça) 
claro o que posso alcançar; 
andam pera vos tomar
por manha, que não por força.

Por minas trazem suas azes,
encobertos seus assanhos,
falsas guerras, falsas pazes:
de fora são mansos anhos,
de dentro lobos robazes.

Tudo sua cura tem:
que é assi, bem o sabeis
e o remédio também.
Querei-los conhecer bem?
No fruito os conhecereis.

Obras, que palavras não!
Porém, Senhor, somos muitos;
e entre tanta abrigação,
tresmalham-se-vos os fruitos,
que não sabeis cujos são.

Um, que por outro se vende,
lança a pedra, e a mão esconde;
o dano longe se estende;
aquele a quem dói, entende,
com sós suspiros responde.

A vida desaparece,
e entretanto geme e jaz
o que caiu; e acontece
que dum mal que se lhe faz,
outro mor se lhe recresce.

Pena e galardão igual 
o mundo em peso sustém, 
é ma regra geral:
que a pena se deve ao mal, 
o galardão ao bem.

Se alguma hora aconteceu
na paz, muito mais na guerra,
que a balança mais pendeu,
faz-se engano às leis da terra;
nunca se faz às do Céu.

Antre os Lombardos havia
lei escrita e lei usada,
como inda hoje, parecia:
que onde a prova falecia
que o provasse a espada.

Ali no campo, às singelas,
em fim, morrer ou vencer,
fosse qual quisesse delas,
não era milhor morrer
a ferro que de cautelas?

A um nosso alto rei excelente,
Dom Dinis, tão louvado,
tão justo, a Deus tão temente,
falsa e maliciosamente,
foi grande aleive assacado.

Ele posto em tal perigo,
(rei que rei fez e desfez!)
co'as manhas do falso imigo,
foi-lhe forçado essa vez
à lei chamar-se que digo.

E às vilas e às cidades,
a que cumpriu d'acudir,
pelas suas lealdades:
tanto são más as verdades
às vezes de descobrir!

Da mesma casa real
em verdade um grande infante
tratado por manhas mal,
bradava por campo igual,
e imigos claros diante.

Em fim, vendo a indústria e arte
quanto que podem, chamou
um leal conde a de parte;
só com ele se apartou;
foi viver à milhor parte.

Onde tudo é certo e claro,
onde são sempre umas leis;
Príncipe no mundo raro!
Sobre tanto desamparo
foram três seus filhos reis.

Ó Senhor, quantos suores
passa o corpo e a alma em vão
em poder de envolvedores!
E, em fim, batalhas que são
salvo uns desafios mores?

Co'a mão sobre um ouvido
ouvia Alexandre as partes,
como quem tinha entendido,
por fazer certo o fingido,
quantas que se buscam d'artes.

Guardava ele aquele inteiro
para a parte não não ouvida;
não vá nada em ser primeiro;
quem muito sabe duvida;
só Deus é o verdadeiro.

A tudo dão novas cores,
envolvendo os peitos puros,
e falam sempre em primores.
Ante os reis, vossos senhores,
vindes com rostos seguros.

Contais, gabais, estendeis
serviços e lealdade.
Olhai, que a não daneis: 
falai em tudo verdade
a quem em tudo a deveis.

Senhor, nosso padre Adão
pecou; chama-o o Juiz.
Tenha que dizer ou não
i sua fraca razão,
porém livremente diz.

Sempre foi, sempre há de ser,
onde uma só parte fala,
sempr'a outra haja de gemer.
Se um jogo todos iguala,
as leis que devem fazer?

Vidas e honras tomais
debaixo de vosso amparo,
de estranhos e naturais;
suspiram, não podem mais,
e às vezes isto mal claro.

Também trás aquela arde
tão estimada a fazenda,
por mais que se vele e guarde;
tinha ela milhor emenda,
se não fosse mal, e tarde.

Geralmente é presumptuosa 
Espanha, e disso se preza: 
gente ousada e belicosa; 
culpam-na de cobiçosa, 
tudo sabe Vossa Alteza.

Pensamentos nunca cheios,
não têm fundo aqueles sacos!
Ainda mal com tantos meios,
para viver dos mais fracos
e dos suores alheios.

Que eu vejo nos povoados 
muitos dos salteadores,
com nome e rosto d'honrados:
vão quentes, andam forrados
de peles de lavradores.

E, Senhor, não me creais,
se as não acham mais finas
que as dos lobos cervais,
que arminhos e zebelinas,
custam menos, cobrem mais.

Ah, Senhor, que vos direi?
Que acode mais vento às velas.
Nunca se descuide o Rei:
que inda não é feita a lei, 
já se lhe buscam cautelas.

Então, tristes das mulheres,
tristes dos órfãos coitados,
e a pobreza dos mesteres,
que nem falar são ousados
diante os mores poderes.

Os quais quem os assim quer,
quem os negocia assi?
Que fará dês que os houver?
nossos houveram de ser,
buscaram-nos para si.

Ora, já que as consciências
o tempo as levou consigo,
venhamos às penitências,
Senhor, se eu visse castigo...
Boas são as residências;

Mas eu vejo cá na aldeia,
nos enterros abastados,
quanto padre que passeia,
enfim, ventre e bolsa cheia
e assoltos de seus pecados.

Se querem reconciliar
uns cos outros, tem seu trato;
abasta-lhes só acenar:
não nos fazem tal barato
ò tempo de confessar.

Senhor, esta vossa vara
como as mãos em que anda é;
a boa é ave mui rara;
crede que esta nunca é cara,
que seja muita a mercê.

Livre de toda a cobiça,
a Deus temente e a vós,
sem respeito, sem preguiça,
varas direitas, sem nós,
se quereis que haja i justiça!

Tomai, Senhor, o conselho
do bom Jetro ao genro amigo: 
é verdade, é Evangelho; 
como disse aquele velho, 
humildemente assi vos digo.

Que estas leis justinianas,
se não há quem as bem reja
fora de paixões humanas,
são um campo de peleja
com razões francas e ufanas.

Morre o nobre Conradino
co parceiro, em todo igual,
cada um de tal morte indino,
porque o duro, ou o malino
doutor interpreta mal.

Diz Agostinho sãmente: 
Cesse o sangue; a guerra finda;
diz mais, dalguns maiormente;
vem grosas, que corre ainda
o real sangue inocente.

Mas, Senhor, milhor o temos:
sendo vós o que mandais,
todos nos revolveremos,
os que tanto não podemos,
e aqueles que podem mais.

Quem por amor se encadeia, 
não é nome errado ou novo 
se por livre se nomeia;
não tem rei amor de povo 
rei em quanto o mar rodeia.

Não assoberbam soldados
aqui, nem soa atambor;
os outros reis seus estados
guardam de armas rodeados,
vós rodeado de amor.

Achar-nos-ão as divinas,
no meio dos corações,
esculpidas vossas quinas;
estas são as guarnições
de vós e dos vossos dinas.

É sem dúvida o francês 
a seu rei amor aceso:
não lho nega o português; 
traz porém guarda escocês, 
que não é de pouco peso.

O Padre Santo assi faz,
a quem certo se devia
alto assossego, alta paz;
e guardas todavia,
com que vai seguro e jaz.

Que se pode ir mais avante,
co's olhos, nem co sentido?
Sem ferro e fogo que espante,
com duas canas diante
is amado e is temido.

Uns sobre os outros corremos,
a morrer por vós com gosto;
grandes testemunhas temos
com que mãos e com que rosto
por Deus e por vós morremos.

Outrossi para os reveses
(queira Deus que não releve!)
em vós tem os portugueses
Codro dos atenienses,
Décios, que só Roma teve.

Do vosso nome um grão rei 
neste reino lusitano,
se pôs essa mesma lei, 
que diz o seu Pelicano: 
Pola Lei e Pola Grei.

Mas eu sou um guarda-cabras
vão-se assi de ponto em ponto;
queria só duas palavras:
que dos gados e das lavras
despois não tem fim nem conto.

Assim que seja aqui a fim:
tornem as práticas vivas;
perdestes meia hora em mim,
das que chamam sucessivas
estes que sabem latim.

Sá de Miranda

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Às chagas


Divinas mãos, e pés, peito rasgado,
Chagas em brandas carnes imprimidas,
Meu Deus, que por salvar almas perdidas,
Por elas quereis ser crucificado.

Outra fé, outro amor, outro cuidado,
Outras dores às vossas são devidas,
Outros corações limpos, outras vidas,
Outro querer no vosso transformado.

Em vós se encerrou toda a piedade,
Ficou no mundo só toda a crueza;
Por isso cada um deu do que tinha:

Claros sinais de amor, ah saudade!
Minha consolação, minha firmeza,
Chagas de meu Senhor, redenção minha.

Frei Agostinho da Cruz

António Nobre, Só


Imagem – filme “Ala-Arriba” – José Leitão de Barros, 1942.

Georges! anda ver meu país de Marinheiros, 
O meu país das naus, de esquadras e de frotas!

Oh as lanchas dos poveiros 
A saírem a barra, entre ondas de gaivotas! 
Que estranho é! 
Fincam o remo na água, até que o remo torça, 
À espera de maré, 
Que não tarda aí, avista-se lá fora! 
E quando a onda vem, fincando-a com toda a força, 
Clamam todas à uma: "Agôra! agôra! agôra!" 
E, a pouco e pouco, as lanchas vão saindo 
(Às vezes, sabe Deus, para não mais entrar...) 
Que vista admirável! Que lindo! que lindo! 
Içam a vela, quando já têm mar: 
Dá-lhes o Vento e todas, à porfia, 
Lá vão soberbas, sob um céu sem manchas, 
Rosário de velas, que o vento desfia, 
A rezar, a rezar a Ladainha das Lanchas:

Senhora Nagonia!

Olha acolá! 
Que linda vai com seu erro de ortografia... 
Quem me dera ir lá!

Senhora Da guarda!

(Ao leme vai o Mestre Zé da Leonor) 
Parece uma gaivota: aponta-lhe a espingarda 
O caçador!

Senhora d'ajuda! 
Ora pro nobis! 
Caluda! 
Sêmos probes!

Senhor dos ramos 
Istrela do mar! 
Cá bamos!

Parecem Nossa Senhora, a andar.

Senhora da Luz!

Parece o Farol... 

Maim de Jesus!

É tal e qual ela, se lhe dá o Sol!

Senhor dos Passos! 
Sinhora da Ora!

Águias a voar, pelo mar dentro dos espaços 
Parecem ermidas caiadas por fora...

Senhor dos Navegantes! 
Senhor de Matuzinhos!

Os mestres ainda são os mesmos dantes: 
Lá vai o Bernardo da Silva do Mar, 
A mai-los quatro filhinhos, 
Vascos da Gama, que andam a ensaiar...

Senhora dos aflitos! 
Martyr São Sebastião! 
Ouvi os nossos gritos! 
Deus nos leve pela mão! 
Bamos em paz!

Ó lanchas, Deus vos leve pela mão! 
Ide em paz!

Ainda lá vejo o Zé da Clara, os Remelgados, 
O Jéques, o Pardal, na Nam te perdes, 
E das vagas, aos ritmos cadenciados, 
As lanchas vão traçando, à flor das águas verdes, 
"As armas e os varões assinalados..."

Lá sai a derradeira! 
Ainda agarra as que vão na dianteira,.. 
Como ela corre! com que força o Vento a impele:

Bamos com Deus!

Lanchas, ide com Deus! ide e voltai com ele 
Por esse mar de Cristo... 

   Adeus! adeus! adeus!

Pedaços de Portugal

A Lorcha, uma embarcação tradicional de Macau, exemplo da mistura entre a cultura náutica portuguesa e chinesa.  

 fonte: Caxinas

domingo, 13 de janeiro de 2013

Quando D. Miguel passou por Ermesinde

Marcas de Um Rei - Piedade e Clemência
"Dirigio-se ElRei Nosso Senhor ao Hospital de Sangue da Formiga, percorrendo todas as suas enfermarias, demorando-se particularmente naquella em que estão os bravos militares, que forão feridos no campo da honra na justa defeza do Rei e da Patria. He impossivel explicar as demonstrações de benignidade, e de affecto, que ELRei Nosso Senhor Prodigalizou áquelles seus leaes Vassalos, como tambem se não póde pintar a emoção, que nelles, e em todos os circunstantes causou aquella scena verdadeiramente interessante, e pathetica. Depois de haver Sua Magestade assim penhorado dos mais vivos sentimentos de gratidão, e contentamento aquelles fieis guerreiros Seus defensores, Passou à Enfermaria onde se curão os prizioneiros rebeldes, que se achão feridos, e Patenteando toda a Grandeza de Seu animo verdadeiramente Real, e da Sua Piedade e Clemencia verdadeiramente Christã, Tratou com a mesma bondade e carinho aquelles seus inimigos, que tinhão vindo armados a este Reino com o sacrilego fim de atacar os direitos da sua incontrastavel Legitimidade. He escusado referir a sensação, que em todos produzio espectaculo tão tocante. Concluido este acto, tomou ELRei Nosso Senhor em direitura o caminho de Braga."
no jornal A Voz de Ermesinde

agradecido ao meu amigo Pianista!

A Arte do Mando

no MLP

O CJM, o RDM, a OSN ou quaisquer outros diplomas jurídico-militares daqueles tempos tinham uma valia indisputável, mas nem tudo isto somado chegava para conduzir homens ao combate. Vai-se à luta à voz de quem é Chefe. E o Chefe não impõe nada nem é eleito; o Chefe impõe-se e é aceito como tal! Quando muito, se as circunstâncias requerem acto mais sonoro, o Chefe é aclamado! Mas a aclamação do Chefe, como sucedia em Cortes aos Reis da antiga monarquia portuguesa, não tem efeito constitutivo da sua dignidade, senão de reconhecimento dela!
a lembrar De Maistre

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"(...) as leis não têm força contra os hábitos da nação; (...) só dos anos pode esperar-se o verdadeiro remédio, não se perdendo um instante em vigiar pela educação pública; porque, para mudar os costumes e os hábitos de uma nação, é necessário formar em certo modo uma nova geração, e inspirar-lhe novos princípios." - José Acúrsio das Neves