quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Minha doce trigueira



Porque andas tu mal comigo
Ó minha doce trigueira
Quem me dera ser o trigo
Que andando pisas na eira

Quando entre as mais raparigas
Vais cantando entre as searas
Eu choro ao ouvir-te as cantigas
que cantas nas noites claras

Por isso nada me medra
Ando curvado e sombrio
Quem me dera ser a pedra
em que tu lavas no rio

E falam com tristes vozes
Do teu amor singular
Aquela casa onde coses
Com varanda para o mar

Por isso nada me medra
Ando curvado e sombrio
Quem me dera ser a pedra
Em que tu lavas no rio


Poesia de Gomes Leal

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Paz Sem Limites


Ruhe auf der Flucht by Adrian Ludwig Richter, 1873

O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; habitavam numa terra de sombras, mas uma luz brilhou sobre eles. 

Multiplicaste a alegria, aumentaste o júbilo; alegram-se diante de ti como os que se alegram no tempo da colheita, como se regozijam os que repartem os despojos. 
Pois Tu quebraste o seu jugo pesado, a vara que lhe feria o ombro e o bastão do seu capataz, como na jornada de Madian. 
Porque a bota que pisa o solo com arrogância e a capa empapada em sangue serão queimadas e serão pasto das chamas. 
Porquanto um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado; tem a soberania sobre os seus ombros, e o seu nome é: Conselheiro-Admirável, Deus herói, Pai-Eterno, Príncipe da paz. 
Dilatará o seu domínio com uma paz sem limites, sobre o trono de David e sobre o seu reino. Ele o estabelecerá e o consolidará com o direito e com a justiça, desde agora e para sempre. Assim fará o amor ardente do SENHOR do universo. 


Salmos 96(95),1-2a.2b-3.11-12.13.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Camões, de Roy Campbell

Camões, alone, of all the lyric race,
Born in the black aurora of disaster,
Can look a common soldier in the face:
I find a comrade where I sought a master:
For daily, while the stinking crocodiles
Glide from the mangroves on the swampy shore,
He shares my awning on the dhow, he smiles,
And tells me that he lived it all before.
Through fire and shipwreck, pestilence and loss,
Led by the ignis fatuus of duty
To a dog’s death — yet of his sorrows king —
He shouldered high his voluntary Cross,
Wrestled his hardships into forms of beauty,
And taught his gorgon destinies to sing. 


Roy Campbell

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

A Palavra "Caridade"

"Hoje em dia as pessoas têm medo da palavra “caridade”, têm medo de palavras, atribuem conotações e pesos à palavra “caridade”. Na acepção de São Paulo, caridade é amor, é espírito de serviço, é o outro precisar de nós sem que nós precisemos do outro e portanto levamos o que ele precisa e não o que nós queremos levar. A solidariedade é algo mais frio que incumbe ao Estado e que não tem que ver com amor, mas sim com direito adquiridos. Infelizmente empobrecemos a nossa língua atribuindo algumas conotações a algumas palavras e portanto temos medo de as usar."
Jornal i
Isabel Jonet, uma mulher cuja coragem tem-me vindo a impressionar cada vez mais.

domingo, 9 de dezembro de 2012

The Demon of Evil


Dostoevsky warned that "great events could come upon us and catch us intellectually unprepared." This is precisely what has happened. And he predicted that "the world will be saved only after it has been possessed by the demon of evil." Whether it really will be saved we shall have to wait and see: this will depend on our conscience, on our spiritual lucidity, on our individual and combined efforts in the face of catastrophic circumstances. But it has already come to pass that the demon of evil, like a whirlwind, triumphantly circles all five continents of the earth... 

 Men Have Forgotten God
 by Aleksandr Solzhenitsyn

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

O Homem-Manada


The true "herdist" will carefully avoid acting or thinking originally, in order not to destroy the uniformity which is so dear to him, and he is also ready to rise immediately against anybody who dares to act independently and thus destroy the sacred unity of the uniform group to which he belongs. The loyal herdist will not rise alone against the sacrilegious offender; he will have the support of the rest of the circumscribed society and thus a mass action of collective protest will take place, forcing the "lonely individual" to conform or to withdraw. It must be fully borne in mind that no one of us is completely free from the influence of the herdist instinct and even the noblest among us yield to its dark appeal in one form or the other. 

The herdist instinct is furthermore not only personal, in the sense that it clamors for a personal collectivism; it creates also a longing and desire for the visual or acoustic contemplation of identitarian or uniformistic phenomena. The true herdist, the man truly dominated by that inferior instinct, will not only rejoice in marching amongst twenty thousand uniformly clad soldiers, all stepping rhythmically in one direction, but he will find an almost equal gratification in contemplating the show from a balcony. He will not only be happy in sitting amidst two hundred other bespectacled businessmen, drinking beer and humming one chant in unison, but the aspect of a skyscraper with a thousand identical windows will probably impress him more than a picture by Botticelli or Zurbarán.

Erik von Kuenhelt-Leddihn, The Menace of the Herd

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Princípios e Economia

Abandonment of Christian principles led to Europe’s economic crisis: Hungarian Prime Minister 
Orban said at the XIV Congress of Catholics and Public Life on “Hope and the Christian response to the crisis.” Behind every successful economy, Orban said, there is “some kind of spiritual driving force.” Viktor Orban “A Europe governed according to Christian values would regenerate.”
 “The European crisis,” he said, “has not come by chance but by the carelessness and neglect of their responsibilities by leaders who have questioned precisely those Christian roots. That is the driving force that allowed European cohesion, family, work and credit. These values were the old continental economic power, thanks mainly to the development which in those days was done in accordance with [those] principles.”

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Slavery


To all the horrors of technicism one must add the scourge of monotony and the tyranny of time. Cities like London, New York, Berlin, Paris, Chicago, Pittsburgh, Detroit, or Glasgow are high spots of slavery in comparison to Albania, Bulgaria, or even Central Africa. The slavery of the watch and clock, the bourgeois, anthropocentric slavery of material prestige and successful competition (to slave in order to keep up standards), the wage slavery of the proletarian, the school slavery of the children, the conscription slavery of the adolescents, the road slavery, the factory slavery, the barrack slavery, the party slavery, the office slavery, the parlor slavery of manners and conventions — all these slaveries make political "freedom" appear a bitter joke.

Erik von Kuehnelt-Leddihn, The Menace of the Herd

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Novo Sermão da Montanha


Portugal assim dizia, 
Quasi sempre em dôr tamanha! 
Assim prégou aos seus filhos 
Novo Sermão da Montanha. 

Honra os teus Mortos. E' deles 
Que tu vens. Deves-lhe culto
Que são os vivos? - A Sombra 
Dos Mortos que fazem vulto. 

- Povo! Povo! eu chamo... Escuta. 
Repara em mim: vê e pasma! 
Sombra e chagas do que fui... 
Fiseram de mim um fantasma. 

Onde irei? A ser escravo? 
Velho e rôto vagabundo 
Aos encontrões, ás esmolas, 
Aos enxovalhos do mundo... 

Povo! em ti, confio e espero 
Como foi no tempo antigo. 
Has de salvar-me...Ou ao menos 
Saberás chorar comigo. 

Antonio Corrêa d'Oliveira

agradecimentos a Cristina Ribeiro

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

A Batalha Cultural que os Católicos perderam em Portugal


e de como estão prestes a perder a Guerra, se não mudarem de táctica.

Quando o Muro caiu, há 23 anos atrás, poucos dentro da Igreja Católica poderiam pensar que a principal ofensiva cultural contra os valores religiosos da sociedade ocidental ainda estava para vir.
Após um século de combate contra o relativismo moral, o socialismo, o individualismo e o comunismo, a Igreja Portuguesa encontrava-se refasteladamente encostada ao novo regime democrático, manobrando na penumbra a pouca influência que ainda tinha dentro do Estado e da vida sócio-cultural do País. Depois de um século panfletário como o século XIX, depois da pujança ideológica e intelectual da primeira metade do século XX, a Igreja chegava ao virar de século desarmada - os pasquins católicos, os jornais conservadores e tradicionalistas, as publicações de obras de pensadores e políticos da Doutrina Social da Igreja, tudo isso desapareceu ou recuou em audiência até chegar à irrelevância. A Igreja continuava forte, as suas congregações ainda movimentavam as comunidades urbanas e rurais - no entanto, o seu papel nos destinos do pensamento político do País esfumava-se nos poucos políticos católicos (e quase todos católicos progressistas) que permitia o Estado do pós-25 de Abril. A principal culpada desta retirada foi, e é, a ideia retirada de um certo espírito pós-Concilio Vaticano II que dita que a Igreja só se deve envolver na política através dos leigos, ou que todos os esforços de aplicar a Doutrina Social da Igreja devem ficar-se pelos programas dos partidos democrata-cristãos.

Com isto, não pretendo defender a presença de bispos e padres no parlamento da República. A capacidade de os clérigos contribuírem para o descrédito da Igreja Católica na sociedade tem sido fartamente comprovada pela acção de muitos dos últimos bispos portugueses, especialmente D. Januário Torgal.
No entanto, não existe uma única revista de alcance nacional, ou jornal, inteiramente votado às doutrinas da Igreja, à cosmovisão católica dos problemas do país. As congregações católicas perdem-se em tercinhos e em passeatas, mas não existe num país com 80% de católicos uma publicação mensal que combata o socialismo, a devassidão moral, as concepções new age do casamento e do "direito ao corpo", a corrupção do Estado ou o espoliar violento que tem vindo a sofrer o nosso património público.

Em vez disso, a agenda católica para a política prende-se no retardamento de reformas que os próprios líderes da comunidade sentem ser, ao fim e ao cabo, imparáveis. A atitude meramente reaccionária, meramente defensiva, de perpétuo cerco sem perspectivas de socorro, só pode trazer às fileiras do cristianismo o desânimo e o desespero. Essa atitude defensiva girava à volta de alguns princípios inegociáveis, ou assim pensa a Igreja quando os discute com o Estado Português: o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Quis a Igreja descansar sobre os seus louros após a primeira vitória no referendo do aborto - no entanto, nada fez para combater a proliferação da cultura do contraceptivo, chegando até alguns dos seus "sequazes" a apoiá-la. Quando chegou a altura de se bater nas urnas pela segunda vez, uma nova geração estava já preparada para aceitar, naturalmente, o alargamento do período do aborto e do seu uso como novo contraceptivo. Quis a Igreja combater, com marchas e artigos e entrevistas, o casamento homossexual - no entanto, não mostrou metade do ardor para combater os sucessivos regimes de divórcio, que o facilitavam ao ponto de o casamento se tornar no mais frágil contrato do código civil português. Quando a maioria parlamentar e o governo quiseram, por fim, acabar de perverter totalmente esse instituto, já metade do caminho estava andado na corrupção. Só os católicos, e a Igreja, não quiseram ver isso.

No entanto, nos bastidores da política, a Esquerda ataca noutros sentidos com o mesmo fervor com que ataca os pontos "inegociáveis" da ICAR. Hoje em dia, o catolicismo nada tem a dizer sobre a subsidiariedade, a democracia, a economia e a propriedade. Da Doutrina Social da Igreja sobram princípios vagos e mal-entendidos que já começam a ser gozados nas faculdades de Verão dos partidos ditos "de direita". 
Nada diz a Igreja sobre a forma como a propriedade está distribuída no país. Os conceitos individualistas são aceites com a mesma complacência com que se torce o nariz às investidas estatistas nos domínios da cultura, da arte, do poder local e até da caridade. O ataque aos símbolos nacionais, a destruição do ambiente e da paisagem portuguesa - tudo isso são causas que o conservadorismo católico esqueceu ou relelgou para a Esquerda. Absorvendo estas causas, a Esquerda adaptou-as à sua ortodoxia. O mesmo fez com o estudo da História, da Sociologia, da Artes. Não há influência católica relevante no cinema ou na pintura portuguesa. Do que se escreve sobre o passado, muito é feito às custas da nossa antiga religião, com a pior das intenções, ainda que tenha sido pior nos anos 70.
Tudo isto porque, das organizações, associações, paróquias, ordens e conventos, congregações e prelaturas, que a Igreja tem em Portugal, nem um tostão é direccionado para a Batalha Cultural que o "progressismo" ganha, todos os dias, nos jornais e nas televisões nacionais. Não existe uma escola intelectual para a Doutrina Social da Igreja que influencia uma publicação regular sequer, não existem projectos apostados numa nova estética, numa nova mensagem que conduza a tradição e doutrina católicas às massas. Os donos dos media ganharam à Igreja uma batalha que o Islamismo e o Protestantismo não conseguiram - durante duas décadas, ou mais, calaram a voz pública da Igreja e separaram-na dos fiéis. Se no fim dos anos 80 a indignação dos católicos se faz ouvir para um sketch de Herman José que ataca a Rainha Santa Isabel, na primeira década do século XXI os Gato Fedorento podem retratar Jesus, no canal público de um país predominantemente católico, da forma que lhes apetecer. Afinal de contas, os católicos aprenderam a ser modernos e tolerantes.

A Igreja não possui, neste século, nenhum equipamento próprio para enfrentar a modernidade. Não possui uma Teoria, porque não tem veículos que a transportem até as pessoas. Não possui uma Estética, uma vez que os seus próprios valores morais estão dependentes das apreciações morais dos novos tempos - e sem moral não se constrói, imita-se. Se há movimentos que tentam criar o seu próprio espaço na sociedade política, logo são desaconselhados a usar o nome "católicos". Como se o nome fosse um desincentivo à simpatia dos outros grupos. E se for? Que alternativas temos, e que alternativas tiveram os primeiros cristãos? Por muito mal vistos que fossem pela sociedade romana, nunca lhes passou pela cabeça chamarem-se "Grupos de Amigos da Pesca" ou "Associação Sal da Terra". 

A Igreja enfrenta vários desafios neste século que agora começa. No entanto, nenhum desafio é maior para a Igreja do que encontrar, de novo, a forma de se exprimir dentro da sociedade. Essa expressão terá que assumir uma imagem de força, de confiança, de caridade e de esperança - uma mensagem verdadeiramente jovem, enérgica, capaz de assegurar pela força da oração e da acção uma nova aurora para Portugal e para aquilo que realmente Portugal significa. E isso só se faz autonomizando a Igreja - arrancando-a dos moldes da sociedade moderna em que alguns bem-intencionados padrecos pra frentex lhe impuseram (os mesmos que acusam a minha geração de sermos os "adolescentes conservadores e reaccionários"), dando-lhe símbolos próprios, intelectuais próprios, economistas próprios, arquitectos próprios, historiadores próprios, juristas próprios - e acima de tudo isso, artistas e poetas próprios.

Talvez agora, que os "inegociáveis" que os bispos mantiveram a custo durante os primeiros 40 anos da Igreja se foram à vida, uma nova fase se abra para a Igreja e para os cristãos, Uma fase em que estes finalmente percebam que não têm nada a perder no espectro político, porque já nada têm, e tudo a ganhar no prisma espiritual.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Municipalismo - André Azevedo Alves

Artigo de AAA no Económico

A reorganização torna-se ainda menos defensável quando se considera que não toca nas câmaras municipais, onde se concentra a maior parte da despesa pública em termos locais. Melhor teria feito o poder central em promover uma maior autonomia administrativa e financeira das autarquias, a que se deveria juntar um reforço dos mecanismos de responsabilização locais. Em qualquer caso, trate-se de freguesias ou câmaras, a iniciativa de qualquer reorganização deveria partir das comunidades locais e nunca centralizadamente de Lisboa. Um bom exemplo, independentemente da posição que se tenha sobre a proposta, é a discussão lançada por Luís Filipe Menezes sobre uma possível fusão dos municípios de Porto e Gaia. Já a reforma em curso do mapa autárquico comprova, infelizmente, a plena actualidade do que escreveu o grande Alexandre Herculano: "Todos os interesses que deviam ser zelados por municípios estão à mercê de um ministro que reside em Lisboa, e que nem os conhece, nem devidamente os aprecia."

A Cruz ao Pescoço


A meus filhos — para que as cumpram, ou não, e as façam (ou não) cumprir.

Meninos, tomem sentido:
amanhã já não me acordem.
— É isso, pai, um pedido?...
— Não, amores: é uma ordem.

Vou morrer menino e moço,
sem pátria nem parentela,
com esta cruz ao pescoço
e a coroa real na lapela.

Pretendo um inteiro olvido.
Não quero que me recordem.
— É isso, pai, um pedido?...
— Não, amores: é uma ordem.

Rodrigo Emílio, Inéditos

Direitinha

A chico-espertice de Helena Matos é própria desta direitinha que não quer dar sinais de muita religiosidade e, por isso, atira de vez em quando uma chalaçazinha ao cristianismo. No caso de Helena Matos, a ideia é fazer com que o cristão da bancada central-direita do parlamento se sinta bem consigo mesmo - "Ufa!, ainda sou moderno e sem pregas!".

A minha Lista de blogues

Seguidores

Arquivo do blogue

Acerca de mim

A minha foto
"(...) as leis não têm força contra os hábitos da nação; (...) só dos anos pode esperar-se o verdadeiro remédio, não se perdendo um instante em vigiar pela educação pública; porque, para mudar os costumes e os hábitos de uma nação, é necessário formar em certo modo uma nova geração, e inspirar-lhe novos princípios." - José Acúrsio das Neves