quinta-feira, 25 de outubro de 2012

O Santo


 

 "(...) a liberdade, em despeito do determinismo inflexível da natureza, não é uma palavra vã: ela é possível e realiza-se na santidade. Para o santo, o mundo deixou de ser um cárcere, ele é, pelo contrário, o senhor do mundo, porque é o seu supremo intérprete. Só por ele é que o Universo sabe para que existe: só ele realiza o fim do Universo." 

 Antero de Quental, Carta a Wilhelm Storck

Os Inimigos da Família



But there is, curiously enough, a third thing of the kind, which I am really inclined to think that I dislike even more than the other two. It is not the Communist attacking the family or the Capitalist betraying the family; it is the vast and very astonishing vision of the Hitlerite defending the family. Hitler's way of defending the independence of the family is to make every family dependent on him and his semi-Socialist State; and to preserve the authority of parents by authoritatively telling all the parents what to do. 
His notion of keeping sacred the dignity of domestic life is to issue peremptory orders that the grandfather is to get up at five in the morning and do dumb-bell exercises, or the grand mother to march twenty miles to a camp to procure a Swastika flag. In other words, he appears to interfere with family life more even than the Bolshevists do; and to do it in the name of the sacredness of the family. It is not much more encouraging than the other two social manifestations; but at least it is more entertaining. 

 THREE FOES OF THE FAMILY, GK Chesterton.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Fundamentos de uma Nação Bélica

As ordenanças constituíam outra das instituições relevantes da sociedade local portuguesa, certamente uma das mais originais. Todo o reino se encontrava dividido em capitanias-mores de ordenanças, coordenadas por um capitão-mor, que devia ser o senhorio donatário ou alcaide-mor em terras onde existisse, coadjuvado por um sargento-mor. Cada capitania-mor dever-se-ia subdividir num número variável de companhias de ordenanças, chefiadas pelo respectivo capitão, com o apoio de outros oficiais. À hierarquia das ordenanças competia ter arrolados todos homens maiores de 16 anos, exceptuando os privilegiados e os velhos, para que pudessem, quando solicitados, ser recrutados para o exército de 1 . a linha ou ainda para operarem localmente como milícias quando tal fosse necessário, pelo que deviam reunir-se regularmente para receberem treino militar. Os ofícios de capitão-mor e de sargento-mor conferiam sempre nobreza vitalícia, qualquer que fosse a dimensão da capitania (os restantes, apenas enquanto eram exercidos), e exigiam um grande empenho a quem os exercia, pela natureza das tarefas requeridas e pela duração indeterminada do ofício. A estabilidade do ofício e o tremendo poder do recrutamento militar, de que eram depositários os seus detentores, constituem aspectos fundamentais para a caracterização desta instituição, ciclicamente criticada pela sua ineficácia e pelas opressões a que dava lugar . 


 Nuno Gonçalo Monteiro, Elites locais e mobilidade social em Portugal nos finais do Antigo Regime,

sábado, 15 de setembro de 2012

Pela encosta acima.

Guy adormeceu por breves instantes. Depois Ivor disse: « Guy, o que é que tu farias se te desafiassem para um duelo?»
«Ria-me.»
«Pois. Claro.»
«Porque é que te lembraste disso agora?»
«Estava a pensar na honra. É uma coisa que muda com o tempo, não é? Há cento e cinquenta anos, se alguém nos desafiasse, teríamos de lutar. Agora ríamo-nos. Deve ter havido uma altura, aí há cem anos, em que esta pergunta seria um tanto incómoda.»
«Sim. Os moralistas religiosos nunca conseguiram pôr fim aos duelos - só a democracia o conseguiu.»
«E na próxima guerra, quando formos inteiramente democráticos, suponho que será perfeitamente honroso para um oficial abandonar os seus homens. Será o dever proscrito nas Ordenações Reais - a fim da manter intactos os cadres capazes de dar instrução às futuras levas de prisioneiros.»
«É provável que os conscritos não apreciem a ideia de serem treinados por desertores.»
«Num exército verdadeiramente moderno, não achas que o facto de eles terem dado à sola os tornaria mais dignos de respeito? Parece-me que o nosso problema é vivermos num período incómodo de transição - como um homem desafiado para um duelo há cem anos.»
Guy via claramente o rosto amigo ao luar, o seu rosto austero, calmo e composto, apesar de pálido, tal como o havia visto nos Jardins Borghese. Ivor levantou-se e disse: «Bom, o caminho da honra é pela encosta acima», e foi-se embora.

Evelyn Waugh, «Oficiais e Cavalheiros»

Guernica

texto de J. Luís Andrade


Com o intuito de dourar a pílula, Guernica é sempre apresentada como uma área aberta, sem o menor interesse militar, o que, como já vimos, não correspondia à verdade. Para marcar ainda mais a imagem de idílica localidade e, quiçá, aumentar o hipotético número de vítimas, fala-se ainda do facto de o dia 26 de Abril ter sido dia do mercado semanal a que haviam ocorrido todos os lavradores da região; assim, o descontraído e pacífico encontro rotineiro, teria sido dispersado pelo inesperado e mortífero ataque da aviação alemã. A realidade, porém, é que o mercado bem como o jogo de pelota que normalmente lhe sucedia havia sido cancelado face à proximidade da frente, a menos de 15 Km, e à avalanche de tropas bascas em retirada, apenas tendo estado presentes um pequeno número de lavradores inadvertidos.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Agradecimento

Pude experimentar vários estilos de texto: crónicas, críticas, poemas, provocações;
tanta coisa por aqui passou.
Inventei discursos, propus temas, discuti valores.
Foi uma forma de mostrar ideias, problemas literários, paradoxos de vida.
Desafiei-me. Só ganhei com isso.
Conheci pessoas e lugares.

Descubri-me.

Obrigado Manel.



P. S. Ganhaste um espectador Portuguez.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Um Rei

in Dragoscópio
Um rei não me representa (senão teríamos, em vez duma teia de representantes múltiplos, uma trama de representante único): um rei simboliza-me, congrega-me, confere-me sentido enquanto povo. Serve de elo vivo entre o passado e o futuro, entre o sagrado e o profano, entre o que nunca muda e o que muda todos os dias, entre os mortos e os vivos, os antepassados e os vindouros. O rei é, não faz de conta. É um algo acima e para além da sua pessoa e de todas as nossas pessoas. A limite, pois, o rei não é derrubável ou cancelável por qualquer surto efervescente de turbamultas mais ou menos orquestradas ou noctiluzes. Não, o que é, de facto, é traível: a começar pela pessoa dele próprio, se aceitar, vilmente, a canga ou a mutilação. Se, em vez de príncipe de homens livres, se degradar ao Primeiro dos escravos da puta da Lei. Rex é regra e a regra está acima, antes e para lá da lei. Ou não está. E depois pode ser atraiçoado por todas essas pessoas que não apenas se proclamam republicanas, como, e se calhar pior um pouco, se apregoam "monárquicas", isto é, adeptas do pseudo-regime. Ora, a república que é ela senão o estado e consequência última da deterioração da monarquia? Aliás, entre nós, que tem sido a república senão um proliferar de pseudo-reizinhos ao colo dum feudalismo de Estado?

domingo, 15 de julho de 2012

O homem que cunhava moedas

Certa tarde, deveras quente, com pouca brisa
certo carácter inconsciente irrompe pela crista
com poder mágicos, sólidos e inefáveis
controladores aéreos que escapam aos radares.

Este homem de que vos falo
era conhecido por cunhar moedas
gostava de ir comer à Cunha
mareava raridades.

Neste texto, que celebra coisas tão mundanas e profanas
quanto o podem ser as capicuas

este vosso benfazejo bem-feitor
compõe uma sonata
com nata
dos Açores

pois se esta terra fica mais perto de Louisiana
terra onde reina o Sr. Cunha.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Para si, Camões

No ano do leão, reinava pacificamente uma volatilidade no ar
que nem o Cupido conseguia apanhar
No ano do pombo-torcaz, reinava alegre e lentamente uma maresia florentina
que nem a Vénus era consentida permissão para ser menina

No meu tempo, o tempo tinha tempo para ser menino
No tempo dela, a franja que ela não tinha era cretina

No canto da mesa
o copo
No ramo da presa
o tolo

"Mas ela reina?"

"Em várias flamas variamente ardia"

terça-feira, 10 de julho de 2012

Um dia em Louisiana

Cucu Mr President, you have a call

"Who is calling?"

It is your life, Sir.

--//--

O bule estava quente, já tinha sido escaldado vezes sem conta, mas o seu conteúdo nunca tinha sido vertido para uma chávena, por mais simples que fosse.

Havia até quem desconfiasse que alguma vez o bule fosse usado para o que realmente era o seu dever.

Um dia, uma menina de modos simples pegou no bule.
Esse bule nunca mais se esqueceu das mãos que pegaram nele.

"E a chávena? Que aconteceu à chávena, avó?"

It is your life, Sir.

domingo, 8 de julho de 2012

PassarElle

Beleza não rima
nem com grandeza
nem com fineza
nem com princesa

Beleza nem rima
com fraqueza
com rudeza
com tristeza

Beleza só rima com Beleza.

Belzebu é único.

Belzebu rima com Beleza.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

A mulher que tinha um gato

Onde é que eu já a vi?
parece-me que é uma Anabela
que conheci há muito e muito tempo
não lhe vou falar lembro-me eu melhor
das outras pessoas do que elas de mim
e não tenho nada para lhe dizer
parece-me daquelas pessoas
que não vão a uma loja para comprar coisas
mas para serem compradas pelas coisas
que será feito da mãe da Anabela?
estava convencida de que o mais importante
a fazer nesta vida era ser a esposa
de um sócio gerente da fábrica de
impermeáveis Parabellum inquiria
antes de convidar as meninas que a Anabela
conhecia o que é que os pais dela faziam
o teu aspira a sala? não faz nada?
o teu é escritor? mas isso dá alguma coisa?
o teu morreu? já não faz nada!
só o pai da Anabela fazia
alguma coisa que dava alguma coisa
a Anabela é que já deve ter descoberto
que os impermeáveis Parabellum
não fazem a felicidade de toda a gente

Adília Lopes, "Obra"

Entrevista no jornal "A Voz de Ermesinde"

Entrevista realizada a um músico de grande valia.
Edição online aqui.

Editada em "acordês" de acordo com os princípios adoptados pela redacção do jornal, mas enviada em português pelo autor.

3ª entrevista feita pelo autor a músicos residentes ou provenientes de Ermesinde.

quinta-feira, 21 de junho de 2012




Marcher des heures à travers la forêt
Respirer par le nez, se retourner jamais
Mettre un pied devant l'autre pour trouver le repos
Poser les balises d'un monde nouveau
À la tombée du jour, atteindre la clairière
Ermite volontaire évadé de l'enfer
Faire une prière et faire un feu de bois
Boire à la rivière pour la première fois
Déplier la toile pour s'en faire un abri
Briser le silence en poussant un grand cri
Crier à tue-tête pour entendre l'écho
Et compter les étoiles couché sur le dos
Baigné dans la lumière d'une aurore boréale
Réaliser que la beauté est sidérale
Ralentir le rythme de la course folle
Folâtrer un instant sans but, sans boussole
Sentir le vent caresser son visage
Ajuster sa mire, se fondre au paysage
Ajouter des secondes au film de sa vie
Vidanger son cerveau, tomber endormi
Plonger dans le lac du pays de Morphée
Féconder la terre où germent les idées
Débusquer dans le bois le grand caribou
Boucaner dans la pipe du bon Manitou
Chanter avec le lièvre, le renard et le loup
Louvoyer vers la cache du carcajou
Jouer de la vielle avec un farfadet
Descendre dans la grotte avec les feux follets
Laisser la poésie décider de son sort
Sortir au matin et accepter la mort
Mordre dans la vie sans penser à demain
Maintenir le cap tout droit vers son destin

Heresia

"YOU hold that your heretics and sceptics have helped the world forward and handed on a lamp of progress. I deny it. Nothing is plainer from real history than that each of your heretics invented a complete cosmos of his own which the next heretic smashed entirely to pieces. Who knows now exactly what Nestorius taught? Who cares? There are only two things that we know for certain about it. The first is that Nestorius, as a heretic, taught something quite opposite to the teaching of Arius, the heretic who came before him, and something quite useless to James Turnbull, the heretic who comes after. I defy you to go back to the Freethinkers of the past and find any habitation for yourself at all. I defy you to read Godwin or Shelley, or the deists of the eighteenth century, or the nature-worshipping humanists of the Renaissance, without discovering that you differ from them twice as much as you differ from the Pope. You are a nineteenth-century sceptic, and you are always telling me that I ignore the cruelty of Nature. If you had been an eighteenth-century sceptic you would have told me that I ignore the kindness and benevolence of Nature. You are an Atheist, and you praise the deists of the eighteenth century. Read them instead of praising them, and you will find that their whole universe stands or falls with the deity. You are a Materialist, and you think Bruno a scientific hero. See what he said, and you will think him an insane mystic. No; the great Freethinker, with his genuine ability and honesty, does not in practice destroy Christianity. What he does destroy is the Freethinker who went before." 

G. K. Chesterton: 'The Ball and the Cross.'

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"(...) as leis não têm força contra os hábitos da nação; (...) só dos anos pode esperar-se o verdadeiro remédio, não se perdendo um instante em vigiar pela educação pública; porque, para mudar os costumes e os hábitos de uma nação, é necessário formar em certo modo uma nova geração, e inspirar-lhe novos princípios." - José Acúrsio das Neves