quinta-feira, 31 de maio de 2012

O Deus dos cristãos

Aconselho vivamente a leitura de

O Excesso do Dom


de João Manuel Duque

Editado pela Alcalá, em parceria com Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa
Maio de 2004

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Cortina de criança

Vou vos contar um segredo.
Por favor não contem a ninguém.
É segredo.

Havia uma alma bem bonita, por fora e por dentro.
"Por fora do quê, Mãe?"
Por fora da pele, meu filho.
"Por dentro do quê, Mamã?"
Por dentro da terra, da inconsciência, do amor.

Ela falava defronte da janela.
Seu filho já se tinha emigrado para o céu junto ao Rio Douro, naquele lugar onde era muito costume concretizar o pedido feito a Deus para terminar a vida de desespero de forma fluída, rápida e esvoaçante.

Ela roçava o desamparo de virgem.

Seu Pai lhe dava muita força.
Ela era muito devota.

Ora,
meu amigo,
se ainda não descobriste o segredo,
não serei eu quem to irá revelar.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Bernardo Sassetti (1970-2012)

Oiço-o.
Parado, olhando as águas de Espinho.
Finjo que não o conheço.
Mas não me esqueço que o seu Retrato das Cantigas do Maio, Avec le Temps, me fazem dar Gracias a la Vida.

Desculpa-me.
Eu não te mereço.


Obrigado José Almeida por te lembrares, por o felicitares, por escreveres.

Obrigado Pedro Burmester.
Obrigado Fausto Neves.
Obrigado Helena Caspurro.

sábado, 5 de maio de 2012

Dia da Mãe

No sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e órgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado,
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens,
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo. São
silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,
em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos, porque
os filhos estão como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães.
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,
e atiram-se, através deles, como jactos
para fora da terra.
E os filhos mergulham em escafandros no interior
de muitas águas,
e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos
e na agudeza de toda a sua vida.
E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,
e através dele a mãe mexe aqui e ali,
nas chávenas e nos garfos.
E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível
amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.

"Fonte" de Herberto Hélder

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Princípio do Provocatório X

É elementar, meu caro Watson,
quando a fome é tanta,
a plebeia desconfia.

Pela verdade dos factos se mostra a vontade dos actos.
Só diz a verdade quem tem a vontade.

http://omeuamoreglandular.blogspot.pt/2011/02/apontamento-oitavo.html

Paixão? Sim, num copo de vinho do Porto

Fico triste quanto os meus amigos ficam tristes.
Fico triste quando o meu melhor amigo não está com sua esposa.
Fico triste quando a mulher do meu melhor amigo não está com seu marido.
Fico triste quando me lembro que já fui contente, alegre, esfuziante, dramático, carismático, sôfrego de vida, alma mater de mim mesmo.
Fico triste quando sei que fico triste.
Fico triste quando denoto que estou triste.
Fico triste quando sei que sei que fico triste.
Pela raiva contida numa pauta eu me vergo perante sua eminência, a Música.
Pela calma da voz seguinte eu me contenho em meu despudorado sofrimento.
Fico triste quando não compreendo a minha própria argumentação, quando noto que fui enganado por mim próprio vezes sem conta, que todo o meu esforço foi em vão, que esse alguém mestiço, violento e de candeias às avessas, como só umas pestanas altas, elegantes de tão austeramente brilhantes, com a clareza de um olhar que nada diz, de tão belo e fútil que é, como só essas pestanas podem parecer ser sérias.

domingo, 29 de abril de 2012

Em dia de Abrilada



O que diz Pátria mas não diz glória
 Com um silêncio de cobardia,
 E ardendo em chamas, chamou vitória,
 Ao medo e à morte daquele dia.

 A esse eu quero negar-lhe a mão,
 Negar-lhe o sangue da minha voz,
 Que foi ferida pela traição
 E teve o nome de todos nós.

 O que diz Pátria sem ter vergonha
 E faz a guerra pela verdade
 Que ama o futuro, constrói e sonha
 Pão e poesia para a cidade.

 A esse eu quero chamar irmão
 Sentir-lhe o ombro junto do meu
 Ir a caminho de um coração
 Que foi de todos e se perdeu.

 António Manuel Couto Viana

10 Mandamentos errantes, numa coroa de barro

Anda, não fujas, não cambalearás
não acentuarás
não dançarás
não comungarás
não abanarás
não saltarás
não precisarás
não mostrarás
não perseguirás
não cairás

sábado, 28 de abril de 2012

História de vida

lá estás tu a fazeres-me corar

seu ser visceral

a análise galopante por entre as cortinas do saber

chegando o dia da grande batalha
"esse dia estará próximo, menina?"

há coisas
tão bonitas!

que eu saiba, África não faz assim tão mal às pernas
mas sim, com suas planícies e desertos
silêncios brumosos
cavam sepulturas de solidão
das esfíngies desgrenhadas
de tal sal debruado
como camisas de alecrim
envoltas num capricho
de mulher

domingo, 15 de abril de 2012

Alice no País do Inspector

No céu o mais leve arco-íris: era o anúncio. A manhã como uma ovelha branca. Pomba branca era a profecia. Manjedoura. Segredo. A manhã preestabelecida.
Ave-Maria, gratia pela, dominus tecum. Benedicta tu in mulieribus et benedictum frutus ventri tui Jesus. Sancta Maria Mater Dei ora pro nobis pecatoribus. Nunca et ora nostrae morte Amen.
Padre Jacinto ergueu com as duas mãos a taça de cristal que contém o sangue escarlate de Cristo. Eta, vinho bom. E uma flor nasceu. Uma flor leve, rósea, com perfume de Deus. Ele-ela há muito sumira no ar. A manhã estava límpida como coisa recém-lavada.


(Onde estiveste de noite)

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Ritmo e vida quotidiana

Existe um tempo para tudo,
um tempo para construir,
um tempo para destruir,
um tempo para chorar,
um tempo para rir,
um tempo para procurar,
um tempo para perder,
um para se estar em silêncio e um tempo para falar...


Eclesiastes

Homenagem

Em sua honra
No seu dia

Pe. Joaquim dos Santos nasceu a 13 de Abril de 1936

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Monarquia e os Jovens

Recentemente uma jornalista do JPN entrevistou-me, e a outros jovens estudantes, para um artigo sobre a monarquia entre os jovens. Os resultados estão à vista aqui e aqui, com a ressalva que é afirmado num desses artigo que conclui a minha licenciatura em Direito, o que não é verdade.

Coloco aqui na íntegra no blogue as minhas respostas.


- Como e quando entrou em contato com a causa monárquica?

O primeiro contacto com a ideia monárquica costuma ser dado em casa. No meu caso, apesar de conhecer alguns antecedentes familiares monárquicos, o meu primeiro contacto com a monarquia, de um ponto de vista intelectual e teórico, deu-se no meu primeiro ano de Direito, no seguimento do estudo de Ciência Política. No entanto, o meu pensamento monárquico só começou a conhecer uma deriva "pouco comum" a partir da leitura do livro de Erik Kuenhelt-Leddihn, "Liberty or Equality".

- O que o atraiu na Monarquia, e porque é que considera que seria uma melhor forma de governo?

O que atrai na monarquia é o facto de, ao contrário de todas as restantes formas de governo, fazer sentido. É mais fácil explicar a uma criança o dever de honra, fidelidade e amor a uma figura paternal como o rei do que ensinar o mesmo tipo de sentimentos por um órgão de soberania eleito com determinada regularidade, seja esse órgão composto por um presidente ou por um "palramento". É claro que a contra-argumentação passa por dois pontos essenciais: há aqueles que são plenamente contrários à paternalidade, e exigem o total relativismo e impessoalidade das relações políticas (e até familiares!), como se a constituição política de uma nação fosse apenas o compêndio da vontade das gerações cotemporâneas. Com esses não há discussão possível, pois o ponto de discórdia é uma questão de princípios morais. A outra contra-argumentação surge da possibilidade de o Rei não estar à altura dos seus deveres políticos "paternalistas". Ora, da mesma maneira que não existem pais e mães perfeitos, não existem soberanos perfeitos. É o fundamento moral da monarquia que a justifica: o amor filial que temos ao nosso país surge assim com uma representação pessoal, familiar e típica do quadro de valores que a maioria da população, por circunstâncias históricas e humanas, partilha.

- Tens muitos amigos monárquicos, ou nem por isso? Como reagem os outros colegas ao facto de ser monárquico? Compreendem a sua opção?

É mais fácil para um monárquico ter inimigos monárquicos do que amigos monárquicos. Uma vez que os chamados "monárquicos" e as "causas monárquicas" são receptáculos de frustrações e ambições desmedidas de alguns meninos das classes altas, o ambiente habitual nesses lupanares raramente é coisa saudável para a criação de uma teoria intelectual portuguesa, popular e coesa. O crescimento actual das Reais Associações deve-se apenas ao actual mal estar nacional, económico e social, que consegue forçar o típico "monárquico" a engolir alguma das suas "manias" e a juntar-se em comunidade com outros como ele. No entanto, o número de tradicionalistas entre as hostes monárquicas tem vindo a aumentar, com um crescimento muito pequeno mas sustentável.
Em relação à segunda pergunta, as reacções não são muito díspares: ou ignoram, ou se opõem. Já tive de me afastar de um evento devido ao facto de a presença de um "monárquico reaça" os incomodar mais do que a presença de um comunista.

- Como é que imagina um Portugal monárquico? Era possível a implantação de um regime monárquico actualmente em Portugal? De que forma seria útil para resolver a crise económica, política e social que o País atravessa?

Não imagino Portugal de outra forma sem ser monárquico. De tal forma é assim, que o que existe hoje é a República Portuguesa e não Portugal. A implantação de um regime monárquico é tão possível quando a implantação de um regime parlamentar, presidencialista ou tribalista. Com a propaganda certa, com o apoio do exército e da conjuntura económica tudo se faz. Pode ser instaurado um regime monárquico em Portugal com o acordo das restantes potências mundiais, basta querer e querer com muita força. É claro que isso não resolverá, de maneira nenhuma, os problemas do país. Esses problemas não são meramente económicos ou sociais. Há toda uma recuperação do espírito português que tem de renascer e fortalecer, e a consequência de se ensinar à Pátria aquilo que ela significa é a monarquia. Ao contrário dos constitucionalistas, não vejo a monarquia como o fim do problema em que vivemos, mas como o fim da solução que precisamos.

- Está a ponderar apenas apoiar a ideologia ou intervir ativamente num futuro próximo?

Não pretendo fazer nada em prol da restauração da Monarquia porque o país não está preparado para uma Monarquia. Trocar o Presidente da República por um Corta-Fitas honorário e hereditário (nem se pode dizer hereditário quando a sucessão do rei depende, exclusivamente, de uma lei sucessória disponível a alterações pelo Parlamento) não é restaurar a Monarquia. Aquilo que eu pretendo fazer, e aconselho que outros monárquicos como eu o façam, é que se apliquem nas suas áreas de estudo, sejam bons profissionais e procurem pelo exemplo dar a este país aquilo que ele precisa. Questões de Coroas e Princesas são claramente secundárias quando estamos perante um país a viver num completo interregno histórico, sem "rei nem lei, nem paz nem guerra".

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"(...) as leis não têm força contra os hábitos da nação; (...) só dos anos pode esperar-se o verdadeiro remédio, não se perdendo um instante em vigiar pela educação pública; porque, para mudar os costumes e os hábitos de uma nação, é necessário formar em certo modo uma nova geração, e inspirar-lhe novos princípios." - José Acúrsio das Neves