sexta-feira, 16 de setembro de 2011

O CRAT - o C

O leitor incauto perguntar-se-à sobre o que raio é um CRAT. Na busca desesperada para encontrar um termo que defina um movimento conservador, reaccionário, autoritário ou tradicionalista, resolvi por fim baixar os braços, desistir e entregar a um movimento sério e promissor uma temporária sigla pateta - C(onservador) R(eaccionário) A(utoritário) T(radicionalista).

Um movimento conservador baseia-se em 6 premissas:
1 - todo o edifício de pensamento conservador assenta na crença num Princípio Criador de todo o Universo, um Mestre Eterno com autoridade suprema sobre as leis materiais da Existência;
2 - a moralidade absoluta. Proveniente da experiência religiosa e social da comunidade, é inquestionavelmente a base da lei pública, e daí a necessidade da existência do Estado, que é o promotor principal do Bem Comum;
3 - o princípio fundamental da acção do Governo é balizado pelo princípio da subsidiaridade, presente na Doutrina Social da Igreja Católica, ou seja, a acção do aparelho burocrático supremo só se deve dar quando os organismos mais pequenos e pessoais (Família, Paróquia, Município, Empresa, Sindicato, Associação, etc.) falharem em providenciar à sociedade uma resposta eficaz que apazigúe a exigência de Paz Pública demandada pelo Bem Comum a toda a sociedade;
4 - o Estado deve preservar e respeitar a originalidade regional dos múltiplos centros de poder tradicionais.
Não só se impõe um reforço do princípio da subsidiaridade, como um movimento CRAT propõe toda uma nova perspectiva sobre o problema da soberania e os limites do poder estatal - o poder estatal absoluto criado pela Revolução Francesa e pelo Demo-Liberalismo, reforçados pelos Nacionalismos e pelos Socialismos e agora pelo Mega-Estado Europeu são aqui postos em causa e em cheque. Toda uma nova orgânica presta-se aqui a ser construída;
5 - anti-individualismo.
O limite pessoal em prol do bem da comunidade é mais valioso do que o esforço sobre-humano para vencer a todo o custo a competição que a Educação e a Mentalidade Moderna querem implementar nas mentalidades ocidentais. A Massificação e a Uniformidade são características Pós-Modernistas enquanto que a Heterogeneidade e a Unidade são os fundamentos da riqueza cultural e civilizacional Europeia.
6 - a procura por um equilíbrio sustentável entre a Liberdade pessoal e a liberdade das unidades tradicionais da sociedade. Este equilíbrio deve partir pela atribuição a cada indivíduo do máximo racional de liberdade. Esta Liberdade pauta-se pela felicidade individual e social, e não tem nada a ver com a suposta "liberdade para errar". No Erro não existe Liberdade, pois ele afasta a Dignidade e a Espiritualidade. No entanto, o princípio do máximo de liberdade racional não se prende a uma norma puritana ou a um Estado Totalitário Ultra-Moralista. Tal como afirma São Tomás de Aquino, o ser humano tem como dado inerente à sua existência a Culpa, o Pecado Original, e como tal, apesar de poder ser aperfeiçoado, não terá nunca a possibilidade de se tornar perfeito. Como tal, sendo o pecado parte natural do homem, tem o Estado obrigatoriamente de velar pelo seu bem mas ao mesmo tempo permitir que este possa conviver e aprender com os seus instintos pecadores, uma vez que esta é a sua natureza concedida por Deus.
Um Estado que proíba totalmente o pecado é uma negação do Homem e da Redenção.

Posta esta exposição, pergunta-se o leitor "Não é pois suficiente a denominação de Conservador para um movimento que pretende ser, antes de tudo, conservador?"Seria, não fosse a própria raiz da palavra inútil à vista da actualidade portuguesa. Já não há nada para conservar em Portugal. A Tradição ou morreu ou vai lutando quase desarmada contra um Estado poderosíssimo e uma Nova (a)Moralidade invencível e destrutiva. Os partidos conservadores portugueses são aqueles que, aceitando os preceitos da Revolução e do Materialismo, apenas pedem que se mantenha algum do status quo antigo, que lhes permita alguma da paz social mínima para manter alguma capacidade produtiva e as diferenças sociais que lhes agradam, não por sentido de dever patriótico mas sim por utilitarismo e vaidade pura. Um Movimento CRAT não é só conservador. Nas Palavras de António Sardinha:
«Não somos conservadores - dada a passividade que a palavra ordinariamente traduz. Somos antes renovadores, com a energia e a agressividade de que as renovações se acompanham sempre. O nosso movimento é fundamentalmente um movimento de guerra. Destina-se a conquistar - e nunca a captar. Não nos importa, pois, que na exposição dos pontos de vista que preconizamos se encontrem aspectos que irritem a comodidade inerte dos que em aspirações moram connosco paredes-meias. É este o caso da Nobreza, reputada como um arcaísmo estéril em que só se comprazem vaidades espectaculosas. A culpa foi do Constitucionalismo que reduziu a Nobreza a um puro incidente decorativo, volvendo-a numa fonte de receita pingue para a Fazenda. Foge, cão, que te fazem barão!- chacoteava-se à volta de 1840. Mas para onde, se me fazem visconde?! E nas cadeiras da governança o cache-nez célebre do duque de Avila e Bolama ia esgotando os recursos do Estado em matéria de heráldica.»
E é precisamente esta peculiaridade que nos leva ao segundo elemento de um movimento CRAT, em análise no próximo texto: o T.

Acordo Ortográfico

Aconselho a visionar o programa de hoje (16 de Setembro de 2011) do Sociedade Civil, sobre o Acordo Ortográfico, da RTP2.

Mente Moderna, Mentira Moderna

The Problem with Liberalism, in Collapse, The Blog

What an intolerable thing it must be to a liberal: to be on the side of history that has experienced unparalleled success; to identify with an intellectual and philosophical tradition that has not only succeeded in its goal of destroying an entire civilization but has succeeded to such an extent that the survivors of this moral and rational apocalypse imagine themselves more civilized than ever, despite veering back toward illiteracy, paganism, and squalor; and yet to measure their successes against an impossibly high standard, a standard so high that every minor breach of their false and evil creed -- even a largely-unread post on some nobody's blog -- produces oceans of inchoate rage. What a miserable endeavor modernity has been: always destroying, always negating, but never producing anything of value and never fulfilling its promises. Somewhere in Hell, the devil is surely dancing at his triumphs.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Trono Vago

Repúdio de Évora-Monte

Em consequência dos acontecimentos que me obrigaram a deixar os meus domínios de Portugal e a abandonar interinamente o exercício da minha autoridade, a honra e a dignidade da minha pessoa, os interesses dos meus fiéis vassalos, e, finalmente, todos os motivos de justiça e decoro me obrigam a protestar, como protesto à face de toda a Europa relativamente a todos os acontecimentos acima mencionados e contra qualquer inovação que o governo de Lisboa tenha introduzido ou haja de introduzir às leis fundamentais da monarquia.
Deve concluir-se do que fica dito que a minha aquiescência a todas as estipulações que me foram impostas pelas forças preponderantes, confiadas aos generais dos governos actualmente existentes em Lisboa e Madrid, de acordo com duas grandes potências, foi da minha parte um mero acto provisório, dirigido a salvar os meus vassalos de Portugal de grandes desgraças que a minha justa resistência não lhes teria poupado, sendo, como fui, surpreendido por um ataque imprevisto e ilegal de uma potência amiga e aliada. Por todos estes motivos, tenho firmemente resolvido, logo que esteja no meu poder (como convém à minha honra e obrigação), fazer conhecer a todas as potências da Europa a injustiça da agressão dirigida contra os meus direitos e pessoa, e protestar e declarar, como protesto e declaro agora, que estou em liberdade, contra a capitulação de 26 de Maio passado que me foi proposta pelo governo de Lisboa; acto que assinei para prevenir maiores desgraças e poupar o sangue dos meus fiéis vassalos. Esta capitulação, portanto, deve ser considerada nula e sem efeito.

Porto de Génova, 20 de Junho de 1834 - D. Miguel de Bragança

Retalhos de um Professor de Piano ( V )

Gosto em ser professor

(...) Fazer crer em alguém, ao longo das aulas, que temos de ter um cuidado extremo para com os sons, de forma a podermos transmitir as nossas emoções e as emoções dos compositores de forma mais fidedigna, mais inteligente possível, usando a intuição, pois claro, o instinto, o irracional, isto tudo é uma tarefa premente, que nos irá facilitar a vida, para que da música aprenda a gostar. (...)

Caso queira ler o artigo completo, poderá encontrá-lo no nº 880 do Jornal "A Voz de Ermesinde", edição de 10-09-2011, já nas bancas.

Recordações da Hungria (VI)

Esquilos, montes de esquilos.
Árvores, muitas árvores. De fruto, de folhagem, de contagem decrescente para o quarto crescente lunar.
Eram momentos de pura leveza, rebelião das águas do rio Danúbio contra as pedras de pouca envergadura que ladeavam aquela parte da Ilha Margaret, mesmo no meio deste inigualável, insofismável, grandioso, fogoso, longo rio, junto à capital de uma parte do, outrora, Império Austro-Húngaro. Budapest era, de um lado e do outro, existência civilizacional à parte.
Ora olhava-se para a esquerda, Buda, o Castelo, símbolo de decadência pela sua escadaria pouco cuidada, portas fechadas e degradas, quase em ruína, essas de entrada daquela "Villa" privada, senhorial. Para a direita, Pest, o centro, a Música, as paixões, as convivências a pulularem por entre edifícios históricos, pessoas em feriados nacionais histriónicas.

Naquele lugar, porém, nada disso vinha ter connosco, mesmo que ao de leve.
Tínhamos o nosso próprio silêncio.
O que fazíamos era muito mais prazeiroso, tentar tirar fotos a esquilos, montes de esquilos.
A minha reluzente companheira nessas andanças, nesses correres e saltares tão pueris, perfilhava-se como uma sedutora de esquilos perfeita.
Lembro-me como se fosse hoje, sentia aquela aragem perfumada de tudo e de nada e afinal era só a face a corar de tanto correr através do bosque.

Até que, enfim, nos sentámos, completamente corroídos por essa benevolência do corpo: o cansaço.
Ao lado dos bancos estendia-se uma das poucas áreas que não tínhamos calcorreado. Escorrego, deslizo, espreguiço-me por entre a verdura ainda fresca desse rigoroso inverno.

Ela continua a falar das aulas que teve com o irmão de Ivo Pogorelich, um tanto ou quanto boas demais para quem também tinha laivos de loucura, poucos é certo - ela sublinhava isto com veemência, chegando quase a começar a falar no seu idioma. Eram coisas que lhe inculcavam amor à Pátria, amor à Música.

Eu ainda me deliciava com aquele cheiro pressentido, reflectido no meu espelho sensorial que, por qualquer razão ainda hoje inexplicável, era de tâmaras.

Que saudades daquelas caminhadas, daqueles passeios ao domingo, daquele tempo passado a reflectir, com aquela prestimosa, sedutora de esquilos muito engraçada.

Em suma, aquilo foi uma adorável peregrinação pelos locais escondidos e reveladores do

šuma.

sábado, 10 de setembro de 2011

Fundamentos da Monarquia Hispânica

texto de Flávio Alencar para a revista Aquinate
A prática política ibérica baseava-se num modelo de Monarquia tradicional ou orgânica, de raiz medieval, em que o rei era, entre os grandes senhores, um primus inter pares. O rei não concentrava as decisões, mas vigorava o princípio da subsidiariedade, segundo o qual as instâncias de poder mais locais devem em geral resolver as questões de que sejam capazes. Conforme a necessidade, apelar-se-ia a esferas mais altas, que têm assim um papel subsidiário, se responsabilizando por empresas e encargos que fogem da capacidade da família e do município, e administrando a justiça. A Monarquia orgânica estruturava-se hierarquicamente, como uma pirâmide em que no cimo há muita autoridade e pouco poder, e na base há muito poder e pouca autoridade. O poder dos senhores locais sustentava a autoridade do rei, que assumia assim a figura de pai, senhor e juiz de todos. Os súditos devem respeitar e obedecer ao rei como pai, e o rei deve ser justo, solícito e misericordioso para com os súditos como para com filhos seus. Neste contexto, se podem entender os mecanismos de lealdade e de concessão de graças e mercês que marcam a relação entre rei e súditos nas sociedades de corte no Antigo Regime.

Em Portugal e Espanha, a Monarquia tradicional se assentava sobre um paradigma corporativo, como tem salientado um número cada vez maior de historiadores, seguindo a senda indicada por António Manuel Hespanha e Angela Barreto Xavier. Esta historiografia aponta para a necessidade de compreender o Antigo Regime Ibérico a partir de seus próprios usos e costumes, instituições e práticas. Aplicar, no estudo das sociedades de Antigo Regime, noções próprias da democracia liberal que sucedeu a Revolução Francesa – no caso do direito, p.ex., a noção de direitos individuais, de fundo racionalista – é condenar-se a não compreender essas sociedades em razão do anacronismo dos conceitos empregados. Aliás, esta acusação de anacronismo é a que, no caso do Brasil, fazem os partidários da idéia de Antigo Regime nos trópicos – estribada no paradigma corporativo – aos que defendem a noção de Antigo Sistema Colonial, prenhe de uma inegável visão economicista da História.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Four Religions


Four religions:

Liberalism: A single human world ordered by pure reason, based on pure (content-free) concepts. Freedom says you ignore the content of human goals so you promote all of them simply as such, and equality says you ignore the content of human qualities so you treat all men as equal in value. Put them together and you get liberalism.
Islam: A single human world ordered by pure will. There’s no place for reason, since God, who acts by arbitrary choice and is not bound by reason, is the immediate cause of everything.
Judaism: Two parallel human worlds, the public world everyone is part of that can be appropriately ordered by pure reason, and a private Jewish world ordered by will in the form of a contract between God and the Jewish people that imposes arbitrary conditions like keeping kosher.
Catholicism: Two human worlds, the order of nature and the order of grace, that are conceptually distinct but cannot be separated without violence because they are part of a single rational divine order: grace completes nature, and is meant for all.
To the extent the foregoing schema approximates reality, it appears that liberalism and Islam are direct mortal foes, and liberalism and Judaism are natural allies, since they need not interfere with each other. Liberalism and Catholicism can work together on some practical issues but in the long run are irreconcilable since the conceptions or reason and reality are different—Catholic reason has natural-law content, liberal reason does not.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Monarquia e Constituição

Kings and Constitutions
Any constitution strong enough to prevent a monarch from doing wrong is also strong enough to prevent a monarch from doing what is right.
(...)
A constitution is a legal document, it is blind, impartial, unfeeling and heartless. At certain times and in certain circumstances those can all be positive things but they can also be negative. A monarch, on the other hand, is fallible like anyone else, but can also have humanity and compassion in a way that no legal document possibly could. No code can ever cover every eventuality and even under the best of circumstances a constitution will always come up lacking and have to be revised, amended or reinterpreted. In some cases, such as we are seeing today all around the world, they can be reinterpreted out of all recognition from what their original intent was. In a republic a constitution is necessary because, like constitutions themselves, a republic lacks humanity. It sees the people as numbers on a page, as economic units or as a herd to be controlled and managed toward a productive end (productive for someone at least). However, a monarch, without a written constitution has the freedom to use his or her own judgment, common sense and to adjust policy with humanity and compassion, seeing beyond the cold hard facts to the greater, evident, truth. A democratic constitution, for example, would say that the majority is right, no matter what the circumstance, and must be satiated. A monarch without a constitution can, contrarily, overrule the majority when what they want is clearly detrimental to themselves, society or the good of the country.
(...)
A monarch has a conscience, a constitution cannot. A monarch can treat people with dignity and as individuals according to their unique circumstances or situation. A constitution sees no individuals, only a nameless, faceless number on a census report. The most powerful or the most powerless can be crushed by the unfeeling legalism of a constitution and no constitution is fool-proof. We are seeing that today, in my opinion, reflected in republics like Greece, Portugal and Italy as well as constitutional monarchies like Spain or Belgium. Their constitutions did not keep them from losing -at least in some measure- sovereignty to the European Union nor did they check the power of the government from enacting socialist policies that have ruined their economies, destroying the productive and rewarding the unproductive to the point that they are now near collapse. The original British constitutional monarchy, which maintained a balance of power between the Crown, the lords and the commons, worked quite well but it has been changed to something, by this point, completely different from that system. Constitutions can be good and in some cases can be necessary but history and the present day situation of the world only reaffirms my belief that they are not absolutely essential and can even be, at times, a detriment.

O Peregrino

"Sou e não sou. Desapareço e apareço. Faleço e ressuscito! Ando de morte em morte, de vida em vida [...] Sou o judeu errante, o peregrino. Sou eu, em mim, dentro de mim, em carne e osso, e uma substância incandescente que me ilumina e consome. Exaltada pelos ventos, irrompe do meu ser, devora-o e é só ela - a estranha flama enlouquecida! Entonteço-me de fumo, não me vejo. Sou uma pessoa que eu nunca vi - aquele negro espectro que se eleva dentre os escombros dum incêndio. Apavora contemplá-lo; mas não lhe posso fugir. Pelo contrário, terrivelmente seduzido, mais me aproximo dele; confundo-me com ele e sou uma criatura absurda que existe e não existe [...]
Sou um absurdo; e este absurdo é a força que me sustenta de pé, entre a realidade inferior e o sonho etéreo."
Teixeira de Pascoaes, O Pobre Tolo

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Recordações da Hungria (V)

Da minha varanda contemplo árvores de grande porte sucumbirem ao vento, agreste e mal-disposto, que se aplacara ao Norte da nossa bússula interior e que, num grande opróbrio, as tinha vindo a obrigar, durante largos e intermináveis minutos, a enconstarem-se às vizinhas e aos vizinhos arbustos, muito incomodados com sua presença intimidatória, pois acaso já teremos mencionado que eram árvores de grande porte?
Ao longe e trazido pelo ar, esse acumulador de sons que os transporta, identifico notas de música provindas de um piano, um piano um tanto ou quanto desafinado ou desregulado. Seria Schumann, seria Chopin, Vianna da Motta ou Luís de Freitas Branco?
Não, a melodia não o revelava assim tão romanticamente, para o seu estilo. Tudo era envolvido numa forma sempre robusta, viva, audaz. Modulações contrastantes, ritmos abrasadores, comunhão de ideais de liberdade e sua irmã predilecta, a fraternidade. Fossem essas ou outras promessas, aquela música era de uma linearidade sem par, antecedida em fervor religioso por Bach, envolvida num dramatismo mais irónico, com alguma veleidade sensorial por Gluck.

Era Beethoven, o decano.

A mãe dessa pessoa, dessa humanidade em pessoa que estaria ao piano numa entrega ao espírito de Deus na procura de alcançar a sua perfeição, deveria ser uma mãe, dizia eu, compreendiva, pois se nenhum grito de angústia a assaltava.

Era Amor, o ufano.

Da minha varanda aclaro as memórias entreabertas por J. Almeida: é devido ao seu apontamento sobre os preços dos bilhetes para ver a tetralogia de Richard Wagner "O Anel de Nibelungo" na Casa da Música, no Porto.

«Era final de ano lectivo, exames à porta, como se costuma dizer. Mas as únicas portas que eu queria abrir eram as do MuPa (Palace of Arts de Budapest, Hungria) essa sala de concertos enorme mas incrivelmente pequena para tanto assombro ao assistir, pela primeira vez ao vivo, a toda a Tetralogia do Anel de Nibelungo de Richard Wagner.
Foi emocionante, um período da minha vida que não esquecerei. Só que é verdade aquilo que Debussy diz (embora não seja seu abnegado defensor, o Debussy em relação aos "wagnerianos"): obras criadas para um certo espaço correm o risco, muitas vezes, de verem o seu valor ser falseado sendo representadas noutras esferas, sociais, geográficas e musicais. Principalmente com esta obra e com Parsifal.
Uma pessoa raramente, por conseguinte, fica satisfeita com os cenários, com o momento em que vamos ver tal obra, de acordo com seu espírito interior e exterior. Mas quando tudo isto está de bem com connosco, com nosso gosto e nós de bem com a vida, então é momento raro aquele que vivemos.
Eu vivi, "literalmente", no MuPa durante 4 dias: eu já nem almoçava em casa, era à beira-rio, a 2 passos do "local".
Era época de exames, como já referi. Pois, está bem, era o tanas o estudo. Ele já o tinha sido feito anteriormente, de modos que eu vivia descansado, como depois de pode constatar na carta de curso. A vista no MuPa para o exterior era deliciosa. A comida do bar divina. Diabólicos, só os seus preços! Memorizei tudo o que havia para memorizar dos livros, cd's e restante panóplia de sensações e visões das lojas e do que as pessoas levavam, conquanto os intervalos eram de quase uma hora, por vezes. Ora essa, então e não conhecias ninguém? Eu explico:
Juntou-se pessoal, cada um ia estando na fila de forma dividida de tempo para comprar o bilhetes. Infelizmente, só um sobreviveu: eu. Os outros não aguentaram tanto tempo, ou queriam estudar, ou "não gostaram". Ao 3º dia eu já ia para lá só como que numa caminhada para Santiago de Compostela ou Fátima. Só espiritualmente, porque fisicamente era uma catrefada de gente nos transportes. Romaria!!!
Conheci, fiquei conhecido de amigos, amigas. Ainda hoje falo com gente que conheci nesses 4 dias.
Ainda hoje me lembro das férias que fizemos, juntos, depois disso.
Bom, atrás mencionei o acto, em comunhão, da compra dos bilhetes.
Bilhetes para estudantes, fossem de que curso universitário ou secundário fosse, vendidos horas antes de cada dia de espectáculo. Longas filas. Porque razão?
Porque os preços eram de, atenção caro leitor,
1,20 €.

E esta hein? diria Fernando Pessa, com seus olhos esbugalhados de espanto.

E quer a Casa da Música vender a 35€ por pessoa, preço NORMAL, por espectáculo?
Ainda por cima numa versão reduzida e com menos instrumentos? Só para que possa ser itinerante? Claro, assim fica mais barato para quem a põe em cena.
Se a ideia de dar a conhecer esta obra é meritória, a forma escolhida não é a melhor.
Ainda por cima a publicidade não apela a nada, que raio de parte eles puseram para ouvirmos?
A explicação dos artistas também não me transmitiu rigorosamente nada. E um vídeo sem legendas em português? E se eu for uma pessoa que não saiba nenhum daqueles idiomas mas que goste de ouvir boa música???
Ainda por cima, o cenário não é nada de extravagante, a cantora que aparece a cantar no segundo vídeo faz vibratos de 3ª, o que, trocado por miúdos, canta entre (ou varia a afinação) 1 a 3 notas de cada vez. Isso não dá. Nota-se logo. O preço exagerado por isto????
Até me podem apresentar outras salas de espectáculo por essa Europa fora (sempre é uma forma de se mostrarem "cidadãos do mundo", que têm informação do "estrangeiro") que em poucas salas de espectáculo podemos encontrar preços bons como estes. Mas se até a sala não é boa o suficiente acusticamente?
Lembram-se de falar na Romaria?
Essa romaria era nos transportes públicos mas de gente de todas das faixas etárias e estratos sociais, como agora se denominam "os indivíduos" em classes.
E se eu vos disser que essa treta de termos que comprar um passe e ele só estar válido até ao final do mês, mesmo que a gente compre em meados do mesmo?
Lá não funciona assim: compramos dia 10, ele dá até dia 9 do mês seguinte, e depois queremos ficar alguns dias sem passe porque sabemos que não o utilizamos - vamos de férias, por exemplo (Budapest ficava quase deserta de moradores nas férias, fossem elas quais fossem, então feriados é que era, mas isso são outras "estórias" - desculpa Manel, mas tinha que o escrever - é a vida) - então compramos dias depois e vigora até um dia antes, do mês seguinte. Tão simples, tão convidativo para se usarem mais os transportes públicos. Mas em Portugal é um m.... Não pensam nas pessoas. Budapest faz parte de um país mais pobre, sim, mais pobre, que Portugal. Aqui pensamos como novos ricos, é tudo à grande.

E por isso voltamos à questão dos bilhetes. É a mesma coisa para se ver uma ópera.

...e por aí adiante...

domingo, 28 de agosto de 2011

Uma obscura trama



Hoje topei com alguns conhecidos meus
Me dão bom-dia, cheios de carinho
Dizem para eu ter muita luz, ficar com Deus
Eles têm pena de eu viver sozinho

Hoje a cidade acordou toda em contramão
Homens com raiva, buzinas, sirenes, estardalhaço
De volta a casa, na rua recolhi um cão
Que de hora em hora me arranca um pedaço

Hoje pensei em ter religião
De alguma ovelha, talvez, fazer sacrifício
Por uma estátua ter adoração
Amar uma mulher sem orifício

Hoje afinal conheci o amor
E era o amor uma obscura trama
Não bato nela nem com uma flor
Mas se ela chora, desejo me inflama

Hoje o inimigo veio me espreitar
Armou tocaia lá na curva do rio
Trouxe um porrete a mó de me quebrar
Mas eu não quebro porque sou macio, viu

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Capitalismo, Liberalismo, Catolicismo

Junto con los demás nuevos teólogos políticos, Stephen Long rechaza toda acomodación al liberalismo y al capitalismo. Se esfuerza principalmente en desmontar las tesis de Michael Novak. Este católico liberal acepta el liberalismo con sus leyes específicas, pero reconoce la necesidad de normas morales que tiene este sistema económico para poder prosperar. Como el capitalismo no produce valores por sí mismo, hay que encontrar en otro lugar la fuente de los valores necesarios para su funcionamiento. Las religiones son necesarias para esto, en particular el catolicismo. Ahora bien, el catolicismo, deplora Novak, ha sido demasiado a menudo hostil al liberalismo, por no comprender suficientemente los mecanismos de la economía moderna. Es importante, por tanto, reformarlo, renovarlo, abrirlo a esta realidad.

Novak se adhiere sin pestañear al principio básico del liberalismo económico: la “mano invisible” de Adam Smith mediante la cual la búsqueda individual de beneficios produce la riqueza óptima. Desde su punto de vista, ese ejercicio mecánico de una libertad negativa es independiente de la moral: sería incluso peligroso contrariar el juego de los egoísmos. Al mismo tiempo, Novak, en tanto que cristiano, defiende la libertad positiva de la persona que busca lo bello, lo verdadero e incluso el bien común. Long denuncia esta incoherencia.

La concepción de la libertad negativa propia de los liberales (libertad de no ser obstaculizado para actuar) conduce a defender los mercados y las empresas aun cuando tengan efectos moralmente nocivos. Ahora bien, para un cristiano, deberían estar subordinados a fines morales. Novak sólo retiene de la Doctrina Social de la Iglesia lo que pueda compensar las desastrosas consecuencias de un sistema cuyos principios son radicalmente ajenos a ella. La llamada a la religión y a la ética sigue siendo puramente extrínseca en un sistema cuyo resorte es la utilidad. Mientras que un gran pensador como Joseph Schumpeter habría comprendido la potencia moralmente corruptora y corrosiva del capitalismo (que engendra a su vez la reacción socialista), Novak se manifiesta incapaz de reconocer la lógica utilitarista, individualista y, por tanto, inmoral del sistema.


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"(...) as leis não têm força contra os hábitos da nação; (...) só dos anos pode esperar-se o verdadeiro remédio, não se perdendo um instante em vigiar pela educação pública; porque, para mudar os costumes e os hábitos de uma nação, é necessário formar em certo modo uma nova geração, e inspirar-lhe novos princípios." - José Acúrsio das Neves