terça-feira, 9 de agosto de 2011

O Contrato Social


Relembrando isto:

Sobre a Teorização Contratualista das Origens do Estado

"Uma sociedade não se constitui pelo acordo das vontades. Pelo contrário, todo o acordo das vontades pressupõe a existência de uma sociedade, de gentes que convivem, e o acordo não pode consistir senão em determinar uma ou outra forma dessa convivência, dessa sociedade preexistente. A ideia da sociedade como reunião contratual, portanto jurídica, é o mais insensato ensaio que se fez, para deitar o carro adiante dos bois. Porque o direito, a realidade direito (não as ideias do filósofo, jurista ou demagogo acerca dele), é, se me permitem a expressão barroca,secreção espontânea da sociedade, e não pode ser outra coisa"
A Rebelião das Massas - Prefácio aos Franceses, Ortega y Gasset

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

The Contemporary Generation - II

He was not born for the classics, nor does he fit the role of the "old master".
To me, he will always remain the fresh gay musician that he is.



Otto Klemperer on Hindemith,


Minor Recollections, 1964

The Contemporary Generation

It is not surprising that things have developed as they have. The discovery, in the last century (XIX), of the extreme limits of power and subtlety in the effect of the musical tone extended the boundaries of the tonal domain at the disposal of the composer into hitherto undreamed-of distances. New combinatios of tones came to be recognized, and new ways of bending a melodic line were discovered. It seemed as if the sun had risen upon a new, glowing, iridescent land, into which our musician-discovers rushed headlong.
Blinded by the immense store of materials never used before, deafened by the fantastic novelty of sound, everyone seized without reflection on whatever he felt he could use.


At this point instruction failed.



Either it fell into the same frenzy as practice, and devoted itself to flimsy speculation, instead of adapting its systems of teaching to the new material, or it lapsed into inactivity, and what had never been a very strong urge towards novelty turned into a barren clinging to the past. Confidence in enherited methods vanished; they seemed barely adequate now to guide the beginner's fisrt steps.


Whoever wished to make any progress gave himself unreservedly to the New, neither helped nor hindered by theoretical instruction, which had simply become inadequate to the occasion.


Part of the introductory chapter to the first volume of his book Unterweisung im Tonsatz ( 'The Craft of Musical Composition' ).


Isto foi sendo escrito até 1937.


Mas esta situação iria ser repetida depois de 1945.


Ou seja, antes e depois da 2ª Guerra Mundial há grandes controvérsias e mudanças na visão que se tinha da composição musical.


O mais irónico disto é que, neste texto, Paul Hindemith, compositor alemão, deu expressão, só pela consideração musical, a uma argumentada rejeição de muita da música por parte do regime degenerado dos Nazis. Mesmo que Hindemith, pessoa sem qualquer atitude ou demonstração, mesmo que em privado, de qualquer inclinação ou pensamento político ou até mesmo religioso, tenha mesmo assim sofrido, tanto à sua música como ao seu livro, críticas e discursos de uma violência aterradora e sem qualquer justificação por parte, principalmente, de Goebbels, o que levou à necessidade de uma defesa irredutível, em artigo de jornal Deutsche allgemeine Zeitung ( o último jornal liberal diário na altura ), do maestro alemão Wilhelm Furtwängler.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Consolatio Philosophiae

Desejas tu o poder?
Sê senhor dos teus impulsos
Não te abandones ao prazer:
Recusa um guia tão vergonhoso!
Ainda que a terra distante
Da Índia sob as tuas leis trema
E que, no fim do mundo, te obedeça Tule,
Expulsa os teus negros cuidados
Deixa de te comprazer
Senão, o poder não será teu.

Boécio, Consol., III, 10

terça-feira, 2 de agosto de 2011

People in concerts/O típico espectador de concertos de piano

Há aqueles que estão lá só para ver quem está e quem não apareceu, que vestidos levou, que perfume vai usando. Notam-se logo as não comparências de "gente importante". Há gente que se só vê lá. Temos os que ouvem uma interpretação muito boa mas só sabem dizer "Ah, aqueles estudos de Chopin foram muito bem tocados, mas o Pollini toca melhor" ou "a Martha Argerich toca mais rápido", entre outros dislates.

Aqueles que falam de tudo e mais alguma coisa menos do concerto em si. Aqueles que fazem questão de nos fazer saber que já têm bilhetes para o próximo concerto do festival ou ciclo e que, se quiséssemos, tínhamos a tido a possibilidade que essa pessoa arranjasse um convite. Estes também fazem propaganda dos concertos que viram e daqueles que vão dar, dos cursos de aperfeiçoamento/masterclasses que fizeram e vão realizar, das peças que andam a estudar, dos concursos em que vão participar, das escolas e professores com que vão estudar, sem nada lhes ser perguntado. É um desenrolar quase mecânico por cada concerto que passa.

A comparação com outros concertos que nós tenhamos visto é salutar, demonstra conhecimento de recitais ao vivo, alguns deles sublimes, os quais normalmente deixam-nos sem palavras. Só o exagero de tudo ter que dizer a toda a gente é que chateia.

Há aqueles que estão a conversar tranquilamente e aqueles que pensam estar no meio de um arraial. Os que ficam no seu lugar no intervalo, porque não lhes apetece andar a cumprimentar meio mundo - finos, porque assim quem quiser vai ter com essa pessoa. E aqueles que, não vendo uma pessoa há muito tempo, só se lembram de dizer "estás com melhor cara, até o teu acne melhorou", ou "ah, agora usas maquilhagem", ou até andas a namorar, não andas?", entre conversas sobre o tempo.

Há casais importantes. Há casais fictícios ainda mais importantes. E ainda há coscuvilhice para casais que o poderiam ser. Há dissertações sobre a idade de certos músicos.

"Personagens"

Aquela que vai logo para o facebook escrever maravilhas do concerto, que aquele pianista é o maior, ou pior, que aquela cravista é a melhor e que muda de opinião ao concerto seguinte.

Aqueles que vêm sempre com CD da Fnac e que no fim passam por lá de novo.

Aqueles que ficam meia hora quer para levantar bilhetes quer para pôr o casaco de peles no bengaleiro.


A sensação de se assistir, de respirar uma interpretação, seja de que agrupamento ou instrumentista solista, ao vivo, é sempre única e irrepetível, se bem que, por vezes, inócua, outras porém, inolvidáveis.

É uma atmosfera de espera pelo novo, pela inspiração, pela surpresa, pela revolução.

Esse será, obrigatoriamente, um dos fascínios do concerto ao vivo - a não recriação total de uma gravação.

Combinam-se cafés, negócios e negociatas, jantares, namoros, gravações, recitais. Trocam-se contactos, criamos factos, ouvimos relatos.

Só que há sempre gente que não desliga os telemóveis; logo na parte mais íntima, quase silenciosa PIMBA, lá começa uma valsa de Chopin toda estridente. Há fotógrafos que usam máquinas com tamanho flash que a gente fica a parecer uns fantasmas de tão brancos que ficamos, quase hipnotizados. Há quem se lembre de se levantar a meio e passar à frente do público e das câmaras mesmo à descarada.

Pior, há gente que se veste mal, outra muito mal. Vá lá, outra que se veste muito bem. A mesma coisa na escolha dos perfumes, dos sapatos, dos adereços, da maquilhagem, do corte de cabelo. Há pessoal que leva pochete - há uma pessoa que, de tanto andar sempre com a mesma, já se tornou um clássico - e outros que andam com a casa às costas.

Vê-se mulheres bonitas, outras demais feias, horrorosas. Mas, ufa, há mulheres muito bonitas, mulheres de pianistas que são mesmo uma "brasa". Há mulheres na assistência lindíssimas, outras caquécticas. Há fascínio entre os ouvintes se uma certa e determinada pianista levar um certo e determinado vestido vermelho fatal.

Há públicos agradáveis, outros profundamente desagradáveis, mal-educados, distraídos. Há silêncios constrangedores, mas outros deliciosos.


Dedicado a todos que assistem a concertos e que vão mantendo este evento cultural com público.

domingo, 31 de julho de 2011

Crítica de concerto XIV

25 de Julho / Éric le Sage - Piano /Festival Internacional de Música da Póvoa do Varzim
Robert Schumann
Primeira Parte: Cenas Infantis Opus 15 --- Fantaisa Opus 17
Segunda Parte: Estudos Sinfónicos Opus 13
Extra: Previsivelmente, uma das peças do ciclo Davidsbundlertanze Opus 6

Com uma postura em palco muito direita, quase sem emotividade visível, um perfil parecido ao de Sequeira e Costa, fiquei logo imergido nos anos 20 do século passado num qualquer sarau parisiense, dada o timbre que revelava o Fazioli, marca do piano. Sem nunca exagerar, na primeira parte, nas dinâmicas mais fortes, foi revelando uma gama muito grande nesse aspecto e uma enorme facilidade em mostrar o que de mais importante lhe impelia a música no momento da forma mais subtil possível.

Ele precisava de outro piano, ainda mais sensível. Ou então não, dado que na segunda parte, respondeu de forma muito convincente ao ímpeto quase destruidor do pé direito do intérprete, a ser levantado a grande altura, para desespero do pedal de sustentação, que já rangia por todos os lados.
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Lembrou-me um concerto na mesma sala, com a mesma peça na 2ª parte, em que quase no final do Estudos o pedal CAIU com estrondo provocado por esforço desequilibrado e exagerado do pé direito, com o pianista a vergar-se para tentar arranjá-lo e, de seguida, a perguntar "Há algum afinador na sala?". E não é que NÃO havia? Uma autêntica vergonha para a casa, mas principalmente para os afinadores, que se gabavam de serem "de grande gabarito".
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Quando o pianista Éric le Sage chega à última peça das Cenas Infantis, cujo nome é "Fala o poeta" de acordo com a tradução de Vianna da Motta, pensei logo: "Já?! Ainda agora começou e já chegámos ao fim." E porquê?
Porque ele conseguia algo muito raro, que é a maneira de conduzir um discurso de forma a que pareça una e única, em que nos é dada uma interpretação que parece sair daquele preciso momento e não formatada. Toda a estrutura é preservada e o pormenor revelado com precisão.
Isto é, não andou a massacrar-nos com o baixo se ele é recheio harmónico; não expunha em demasia uma melodia calma e dormente; todo o virtuosismo acontecia sem "caretas".
Concerto de sala praticamente cheia.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Pequeno retábulo da minha pessoa (Crónica VIII)

Palavras a mais
Livros a mais
Leitura a menos
_____________________
Quero ouvir mais pássaros
Ainda mais gotas de chuva
ainda mais hebraico, japonês
ainda mais galaico-português.
Ainda mais rádio
Ainda menos televisão.
_____________________
Liberdade a menos
Libertinagem a mais
Respeito a menos
Despeito a mais
_____________________
Fado a mais - Não havia estrelas no céu, nem gaivotas a voar, nem peixes a nadar, na Lua por companhia - O rio, esse rebelde grande demais, tinha-se tornado numa suave cadência perfeita...
_____________________
Quero menos, muito menos, grupos de trabalho num comité, inserido no instituto, sob a alçada duma secretaria, com um programa para um projecto, para fazer um relatório de modo a avaliar uma proposta.
_____________________
O Homem que perdeu tudo sem nunca ter vivido.
Tudo perdia,

tudo era nada

e nada fazia.

Tudo valia.

Castelos de areia, flores numa floresta, equívocos e mal-entendidos.

Tudo isto são tretas.


Fim.

...do texto.

...da citação.

...da crónica.

da rubrica.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

O Guerrilheiro - 1852



Ei-lo erguido no topo da serra,
Recostado no seu arcabuz:
De pequeno criado na guerra,
Não conhece, não vê outra luz.
Viu a terra da Pátria agredida,
Ergueu alto seu alto pensar:
- Pula o sangue, referve-lhe a vida
Vinde ouvir o seu rude cantar.

Eia, sus, oh! meus bons camaradas,
Desse sono por fim despertai;
Além tendes vossas espadas,
Eia, sus, bem depressa afiai.
Vai a terra da Pátria vencida,
Quem da luta se pode escusar?
- Pula o sangue referve-lhe a vida
Vinde ouvir o seu rude cantar.

Que me siga quem tem a vaidade
De ouvir balas sem nunca tremer,
Que me siga quem quer liberdade,
Quem não teme na luta morrer.
A estranhos a Pátria vendida
Pede braços que a vão libertar.
- Pula o sangue referve-lhe a vida
Vinde ouvir o seu rude cantar.

Já povoam os ecos da serra
Os sons rudes do altivo clarim;
E d'envolta com os gritos da guerra
Vão em roda cantando-lhe assim:
"Eia, avante, que a Pátria agredida
Quer seus filhos na luta encontrar.
- Pula o sangue referve-lhe a vida
Vinde ouvir o seu rude cantar.

Era noite, mas noite calada.
Sem estrelas no céu a luzir;
Fôra noite dos santos fadada
Para a terra da Pátria remir.
"Se esta luta por nós for vencida
Pode a terra da Pátria folgar"
- Pula o sangue referve-lhe a vida
Vinde ouvir o seu rude cantar.

Adeus serra, calada gigante,
Erma filha do meu Portugal;
Adeus terra que inspiras distante,
Este canto sentido e leal!
"A estranhos a Pátria vendida
Pede braços que a vão libertar".
- Pula o sangue referve-lhe a vida
Vinde ouvir o seu rude cantar. II

Não faltava ninguém no combate
Não faltava na luta ninguém
Só depois - já depois do embate
Rareava nas filas alguém.
Foi acção por acção decidida;
Vinde os mortos no campo contar.
Pula o sangue referve-me a vida
Vinde ouvir-me meu triste cantar.

Era dia: nas armas luzentes
Vinha em chapa batendo-lhe o sol;
Mas nem todos dos lá combatentes,
Viram brilho do imenso farol.
Pela terra de sangue tingida
Mais de um bravo se via rojar.
Pula o sangue referve-me a vida
Vinde ouvir-me meu triste cantar.

Vencedoras as quinas ficaram
Vencedoras ainda uma vez,
Mas de pranto depois as regaram
Quem lhes dera valor português.
Lá ficara uma espada esquecida
Sem que o dono a pudesse zelar.
Pula o sangue referve-me a vida
Vinde ouvir-me meu triste cantar.

Desabando do topo da serra,
Lá deixara o fiel arcabuz:
De pequeno criado na guerra,
Viu na guerra extinguir-se-lhe a luz.
Vira a terra da Pátria agredida
Ergueu alto o seu alto pensar.
Pula o sangue referve-me a vida
Vinde ouvir-me meu triste cantar.

sábado, 23 de julho de 2011

Crítica de concerto XIII

18 de Julho / Recital Final de Composição / Café-Concerto ESMAE

Segundo o início do Programa:

"Morphing ... onde tudo se transforma. Podemos modificar gradualmente as imagens que a nossa memória cria, mas mantemos a essência do objecto. Neste concerto procuramos moldar o som, criando uma textura orgânica que se vai desintegrando de forma pontilhada.
Perdemos os acontecimentos, respiramos os sons, vivemos as imagens...e a nossa mente?

...desaparece..."

Frames#87: clarinete, electrónica em tempo real e vídeo (compositor: Igor Silva)

Ondas de memória: ensemble (comp. Diogo Carvalho)

Monólogo V: guitarra portuguesa (I. S.)

Twelve Gardens nº1, 2 e 3: piano e vídeo (D. C.)

As palavras não mudam: flauta e electrónica (I. S.)

Contrastes: violoncelo e piano (D. C.)

Slow motion: electrónica e vídeo (D. C.)

Clepsydra: grande ensemble e electrónica (I. S.)

Excelente grafismo para capa das notas de programa. Fantasia científica é o que me ocorre.

Excelentes textos elucidativos das obras.

1ª peça - Tinha momentos em que parecia um elefante a soar do clarinete de Frederic Cardoso, porque a peça era mesmo assim escrita. Aquilo era um "calhau" para o intérprete. O vídeo era, por vezes, abusivo.

2ª - Percebi ainda melhor, com outro olhar, a totalidade da obra, a imagem de fundo (uma gare de metro e seus carris) também ajudou. Mas a minha opinião já tinha sido muito boa (ver crítica aqui). Senti mesmo pena por alguém, indo de encontro ao "objectivo - haver uma sensação de desconforto e a ansiedade" (Nota de Programa).

3ª - Brutal, Som fantástico, ritmos alucinantes para a tradição auditiva do repertório daquele instrumento.

4ª - Não senti nada.

5ª - Acho que podia ser mais curta, já que os seus motivos eram interessantes, principalmente com a qualidade tímbrica da flauta, mas que a dada altura, paravam no tempo.

6ª - Esta é que não percebi mesmo nada. Vá lá, senti estranheza.

7ª - Gostei das imagens das flores em diversos ângulos, embora gostasse delas em cores vivas, mas isso talvez fosse contra a estética e gosto da ideia intrínseca à peça. Por acaso, até achei a peça andante e não lenta.

8ª Adorei. Gostei ainda mais do que da primeira vez .

Notas: Há pessoas que pensam que estão a aplaudir em Budapest. Uma salva de palmas de cada vez. E alguém se importa de desligar as câmaras frigoríficas? Lá pró raio do barulho. Acho que alguém se esqueceu de como se abriam as cortinas ;) Foi engraçado.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Recordações de um Concerto ( IV ) (Festival Internacional de Música de Espinho - III)

16 de julho ; Sequeira Costa - Piano
Primeira Parte : Frédéric Chopin - Fantasia Opus 49
Balada nº4 Opus 52
Berceuse Opus 57
Barcarola Opus 60
Tarantela Opus 43
Segunda Parte: Claude Debussy - Suite Bergamarsque
Maurice Ravel - Jeux d'eau
Franz Liszt - Au bord d'une source
Lenda de São Francisco de Assis caminhando sobre as ondas

Extras: Brahms - Intermezzo
F. Chopin - Valsa Opus 64 nº2
Chopin - outra Valsa (de que já não me lembro o Opus)

Pouco há a dizer, poucas são as palavras para caracterizar tal recital, tais interpretações. Quando tal acontece, de forma absorta e de profundo respeito pela elevada mestria, o crítico deve remeter-se ao silêncio. O crítico, neste caso, já tinha ouvido o programa exactamente igual, com os mesmos extras, só podendo tomar o plano da comparação, dizer que que foi diferente.
Desta vez tivemos um pianista mais cansado, com mais perdas de notas, mas com mais sorrisos e aclamações de pé. Foi um concerto mais real, o anterior mais elegíaco. Ambos geniais.
Casa cheia.
Alma cheia.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Non Nobis


"War must be, while we defend our lives against a destroyer who would devour all; but I do not love the bright sword for its sharpness, nor the arrow for its swiftness, nor the warrior for his glory. I love only that which they defend." Faramir, son of Denethor.
J.R.R. Tolkien, The Two Towers

Crítica de concerto XII (Festival Internacional de Música de Espinho - II)

9 de Julho, David Geringas - violoncelo / Pedro Burmester - Piano
Primeira Parte:
Johann Sebastian Bach - Suite nº3, BWV 1009 (violoncelo solo)
Gustav Mahler - Canções das crianças mortas (transcrição para violoncelo e piano de Viktor Derevianko)
Segunda Parte:
Franz Schubert - Sonata "Arpeggione", D 821
Robert Schumann - 3 Peças de Fantasia, Opus 73

Extras:
Piotr Tchaikovsky - Nocturno
Peça de outro compositor russo
Rimsky-Korsakov - Voo do Moscardo ("The Flight of the Bumble Bee") - versão piano e cello
Frédéric Chopin - Andamento lento da sonata para piano e cello, Opus 65


Entrada fulgurante do violoncelista, a solo, com muita energia e direcção, revelando os momentos de maior tensão harmónica sem pedantismo. Revelando grande facilidade técnica e gosto/prazer em arriscar no palco, foi uma interpretação muito interessante, diferente mas com estrutura, evidenciada na forma modelar em como se desenrolavam as danças no tempo com seus andamentos próprios e algo voláteis.
Depois, foi a entrada da Morte, uma peça que me fez revirar as vísceras de tão pesada de carácter, expectante procura de chão. A ouvir de novo, completamente só.
Segunda Parte:
Clara demonstração de como um pianista é bom. Tendo este confirmado nos bastidores, não houve um único ensaio igual, o violoncelista fazia tudo diferente, articulações, andamentos, dinâmicas; ele moldava tudo segundo a "sua" inspiração/atmosfera. E o pianista a demonstrar uma enorme segurança, clarividência no encaminhar das frases e uma técnica irrepreensível.
Eram sublimes os seus pianíssimos, o seu contraste para com a fogosidade do violoncelista.
Como extras, momentos para brilharem, para "darem ares" de delicodoce - neste caso, com bom gosto - e uma atitude super descontraída por parte do pianista nos agradecimentos.
O virador de páginas - igual ao concerto anterior - tanto virava em cima da hora como a seguir ficava "horas" de pé à espera. Vestido de forma igualzinha, calças de ganga e sapatilhas, com camisa preta.
Casa quase cheia como um Bloco, com mais pessoas à Esquerda.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Crítica de concerto XI (Festival Internacional de Música de Espinho)

8 de Julho, Concerto de Música de Câmara

Renaud Capuçon - violinista

Frank Braley - pianista


Ludwig van Beethoven

Primeira Parte: Sonata n.8 Opus 30 nº3 -------------- Sonata nº5 Opus 24

Segunda Parte: Sonata nº7 Opus 30 nº2

Extra: segundo andamento de outra sonata de Beethoven (o duo gravou há pouco a integral)


As minhas impressões foram de positiva surpresa. Surpresa, por exemplo, na perspectiva de evidenciar os motivos rítmicos, pelo pianista, de forma "amaneirada", como que mostrando tiques que teriam sido próprios da época (com toda a subjectividade daí adjacente, quer na análise auditiva, quer na análise a priori do contexto). Dava muito carácter às frases com diferentes ataques para diferentes acentuações e staccatos curtíssimos, mas que cortavam em excesso a noção de frase.


Outro exemplo será o excessivo vibrato do violinista, bom para finais de frase mas a despropósito nos seus inícios. Isto dava demasiado ênfase a cada nota, sendo que revelava ao mesmo tempo conforto técnico e de afinação.

Conforto era o que demonstrava também nos seus movimentos, mas todos com sentido e conexão com o significado da música, enquanto que o outro era pindérico, ao ajeitar as páginas, o mexer delicadamente e "em câmara lenta" o cabelo com gel, só gel, o olhar derretido para o parceiro. É isto que se costuma chamar de "intérprete expressivo" sem se saber o real valor desse epíteto.


Aborrecimento, onde?


2ª parte começa por ser o início do aborrecimento, porque aquilo que antes se tinha revelado frescura pela sua novidade, resvalou para o chato, para o "piroso" como alguém já o disse. Passa-se a notar a falta de uma estrutura mais abrangente, completa e perceber para onde ia música, mesmo que, de tão anestesiados que estávamos, já não pedíamos isso a 100%. O extra não ajudou à festa, com aquele "delicodoce". O público adorou, principalmente os (e as) violinistas.

Virador de páginas com pouca noção da roupa para levar e mais não digo.

Programa de concerto normal, ou seja, a dizer o mesmo, aquilo que vamos ouvir mas não o que podemos perceber das obras e ouvir algo como novo, coisa aliás tremendamente difícil num tempo de grande plêiade de gravações, maior conhecimento do público e a tradição de partir desse pressuposto para não dizer nada, pois dizer que uma música é "muito expressiva" não quer dizer quase nada. O público já parece estar acostumado a não se conseguir surpreender com as novidades tonais, rítmicas, per si.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Portugal a entristecer



Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
define com perfil e ser
este fulgor baço da terra
que é Portugal a entristecer –
brilho sem luz e sem arder,
como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...


É a Hora!

Juan María Bordaberry


Faleceu no dia 17 de Julho o antigo ditador uruguaio JM Bordaberry. Em louvor de sua memória só posso aconselhar as palavras de Marcos Pinho de Escobar, no Jovens do Restelo.

Entre bombas e tiros não tardou em comprovar a incompatibilidade entre o exercício da liberdade "liberal" e a manutenção da ordem e da paz no interior da sociedade. É que para impor a ordem e assegurar a paz era necessário restaurar a autoridade... Apoiado nas Forças Armadas Bordaberry atacou em cheio os três mitos do sistema: a soberania do povo, o sufrágio universal e a partidocracia. Fechou o Parlamento e enviou os profissionais do palratório descansar à casa, suspendeu os partidos políticos, introduziu princípios orgânicos e corporativos, garantiu - à moda de García Moreno - a liberdade para o bem e para os praticantes do bem, e combateu o resto. Restaurou a autoridade, e com ela a ordem e a paz, condições indispensáveis para uma sociedade empreender o caminho do autêntico bem comum. Purgando-se do liberalismo da juventude Juan María Bordaberry percorreu um caminho longo mas firme que o levou à Tradição Católica e Monárquica - esta na sua vertente Carlista. Suas três Verdades foram: Deus - Pátria - Rei. "Deus, porque não podem existir instituições que não se fundamentem no direito natural, o que supõe rechaçar as soberbas construções do homem que a contradigam; Pátria, porque a sociedade dos homens tem que professar um amor profundo e permanente ao lar, de onde extrai a força para resistir aos embates do mal; e Rei, porque quem é que pode imaginar uma autoridade que não tenha de prestar contas a Deus?". Em 1976 a alta cúpula militar recusa a institucionalização da nova ordem política projectada por Bordaberry, demitindo-o da presidência e tomando para si o comando do Estado. E o que se viu, mais do que o regresso aos erros e vícios do passado, foi a conquista do Estado pelo marxismo. Meus pensamentos e minhas orações estão hoje, muito especialmente, com este católico exemplar, homem íntegro, que deu tudo de si para reconduzir a sociedade cisplatina no caminho do bem. A Bordaberry bem se ajustam as palavras paulinas: "Combati o bom combate, terminei a carreira, guardei a fé". Vencido no mesquinho mundo dos homens, não tenho dúvida de que já recebeu a recompensa infinita na Paz de Deus.

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"(...) as leis não têm força contra os hábitos da nação; (...) só dos anos pode esperar-se o verdadeiro remédio, não se perdendo um instante em vigiar pela educação pública; porque, para mudar os costumes e os hábitos de uma nação, é necessário formar em certo modo uma nova geração, e inspirar-lhe novos princípios." - José Acúrsio das Neves