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quarta-feira, 3 de junho de 2015

Colinas Eternas

Este último texto no Nova Casa Portuguesa lembrou-me de um texto escrito e publicado no defunto jornal A Batalha, não o velho Batalha anarquista mas um recente projecto criado por um grupo de bons e jovens rapazes da Direita, que não o conseguiram manter. Ficou o mérito do esforço, contudo.
Não concordo com todos os pontos do texto do NCP. Diferenciar a tradição tauromáquica dos forcados da tradição cavaleira, tipicamente portuguesa, ou da espanhola, é um exercício de exclusão de partes que deixa pela metade a análise do espírito que criou essa mesma tradição. É como estudar a peonagem sem a cavalaria, a força sem a destreza, a camaradagem sem a ascese. Bandarilhar um touro não é mais fácil do que pegar um touro, adestrar um cavalo para o efeito é uma das grandes glórias da escola de cavalaria à portuguesa.
Ver o forcado como o único elemento da tradição tauromáquica verdadeiramente portuguesa é limitar essa visão ao mundo popular da tradição portuguesa. O touro não se pega sem ser bandarilhado primeiro - de outra forma, não será possível a pega, que exige que o focinho do touro se dirija para baixo. Tal só é possível pela fustigação causada pela pontada da bandarilha.
Essa visão limitada da tourada dá ao forcado um papel que ele não quer. O forcado é um elemento tão indispensável como os outros - e sabe disso. As opiniões da sensibilidade moderna, muito preocupada com imagens ensanguetadas, não o afectam.
A tourada não é uma luta de galos ou de cães, meras crueldades feitas para propósitos de mera violência. Vale a pena compreender isto antes de seleccionar que tipo de estereótipo nos interessa divulgar enquanto representante da camaradagem e da maneira portuguesa de estar no mundo.
O mundo do forcado precisa do mundo do cavaleiro e vice-versa. Exaltar o significado de um para perder o de outro é deixar de compreender ambos.
Aconselha-se assim, ao amigo do NCP, cuidado com os seus exercícios de criação de identidade. Não se vá perder o sentido da tradição, como quem exagera na poda da árvore.

Deixo aqui o tal texto, uma vez que o site do jornal onde estava publicado já não existe.

Sombras Sagradas Sobre Colinas Eternas

Dizia Salústio, no seu “De diis et mundo”, referindo-se à Tradição: “Isto não foi dantes, mas é sempre!”. A história da tourada em Portugal define-se assim mesmo, não tem um ponto inicial, mas também não terá um ponto final. Como todas as coisas oferecidas pela Tradição, também a tourada não se resume ao espectáculo físico que lhe dão os seus contornos visíveis. Nela, a prova como combate físico é apenas a transposição materialista a que se liga um significado superior, no qual os destinos do Homem e do Touro são unidos pelos deuses em laços de sangue. Na mitologia hindu, a árvore açvattha (a árvore da Tradição, com as suas raízes para cima, para o Alto Divino) é aliada do deus guerreiro Indra, o matador de Vrta, e Indra é assim invocado nos textos sagrados: “Tu que vais, vencendo como um touro irresistível, contigo, ó açvattha, podemos triunfar sobre os adversários.” Esta citação é retirada do Atharda-Verda, datado de 1800 anos antes de Jesus Cristo. O próprio Júlio César afirma, na sua “Conquista da Gália”, ter caçado o auroque, o famoso touro alemão. Porque razão este só se manteve nesta península, é algo que desconhecemos. Dantes o touro selvagem prolongava o seu reino do Norte da África até aos cumes da Lituânia.
Esta ligação dos povos ibéricos ao touro é bem demonstrada pelo escritor espanhol Frederico Garcia Llorca, nas suas Alocuciones argentinas:
“Este mugido de dor sai das frenéticas praças de touros e expressa uma comunhão milenária, uma oferenda obscura à Vénus Tartéssica do Rocío, viva antes que Roma ou Jerusalém tivessem muralhas, um sacrifício à doce deusa Mãe de todas as vacas, rainha das ganadarias andaluzas, esquecida pela civilização na solitárias marismas de Huelva.
Na metade do Verão Ibérico abrem-se as Praças, que é como quem diz, os Altares. O homem sacrifica o bravo touro, filho da docíssima vaca, deusa do amanhecer que vive no rocío. A imensa vaca celestial, mãe continuamente sangrada, pede também o holocausto do homem e continuamente o tem. A cada ano caem os melhores toureiros, destroçados, dilacerados pelos afiados cornos de alguns touros que mudam num terrível momento o seu papel de vítimas para o papel de sacrificadores. Assim como se o touro, por um instinto revelado ou por secreta lei desconhecida, elegesse o toureiro mais heróico para levar consigo, tal como quando nas tauromaquias de Creta levava consigo a virgem mais pura e delicada.”
A importância da tourada para os dias de hoje, no contexto da procura de uma identidade portuguesa verdadeiramente tradicional e não meramente fetichista, é matéria de elevada prioridade. Resumir a tourada ao casaco do cavaleiro, às suíças do forcado, ao fadinho faduncho e ao vinho tinto é um exercício meramente defensivo, condenado à derrota. Aqueles que amam a tradição portuguesa têm de compreender duas coisas: primeiro, o actual status quo político e institucional não foi feito para eles, não durará para sempre a nossa hipótese de usarmos as garantias dadas por este regime para defendermos a nossa identidade. O recuo dos nossos valores, imposto pela última vaga de legislação social, é a prova disso. Segundo, as nossas tradições só se mantêm vivas se renovadas continuamente no dia-a-dia, não no seu espectáculo meramente físico, mas no espírito que as preenche. Dizia o filósofo colombiano, Nicolás Gómez Dávila, que “o reaccionário não é um sonhador nostálgico de passados perdidos, mas um caçador de sembras sagradas sobre colinas eternas”. Nessas “colinas eternas” reside o elemento diferenciador dessa velha Europa, múltipla e trágica, a Europa do homem concreto, moldado pelas raízes, pela cultura e pela natureza. Homem esse que, como Dominique Venner reparou, é o alvo principal do materialismo historicista do comunismo e do mercado globalizado do capitalismo.
O teatro cósmico encetado pelo homem e o touro, essa raça bela e viril, é um espectáculo dionísico, terrível, inconcebível na sua carga emocional, religiosa e violenta para os dias de hoje. Constitui, contudo, dos pouco momentos em que o cidadão comum tem contacto com uma experiência verdadeiramente mística.
Num Portugal onde se dá, a cada Domingo e na grande maioria das paróquias católicas, um autêntico massacre litúrgico, onde missas, baptismos e casamentos passam por festas “new age” decalcadas dos anos 60, onde o único sacrifício presenciado não é o Holocausto do Filho do Homem padecendo na Cruz, mas o dos pobres espectadores que têm de lidar com os vibratos “gospell” dos coros de Igreja, com as salvas de palmas aos noivos antes da consagração da hóstia e demais sofrimentos estéticos impostos por esta Igreja Kumbaya – Católica, a Religião torna-se cada vez mais em substância vazia, ainda por cima informal. Cumpre reestabelecer, revitalizar e rejuvenescer a Religião Portuguesa usando, também, da força e vitalidade da Civilização Taurina a que pertencemos.
Só temos a perder com a uniformização dos costumes, da higienização civilizacional dos “terribles simplificateus” – e não falta quem, em nome de uma tradição que “não foi dantes, mas é sempre”, esteja bem preparado para lhes oferecer resistência, em nome da dignidade histórica de um povo.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

O Estado Confessional e a Monarquia Constitucional



Quando a propaganda Republicana afirma que a Monarquia Constitucional falhou em separar a Igreja e o Estado, fala com rara, quase inédita, razão. Infelizmente para eles, essa razão não caminha no sentido que pretendem.
A encíclica "Rerum Novarum", que dá corpo à Doutrina Social da Igreja, foi entregue pelo Papa Leão XIII à comunidade católica em 1891. O governo português, que de toda a herança dos tempos do Absolutismo manteve, oportunamente, o beneplácito régio (antigo costume jurídico que fazia depender de autorização régia a publicação e circulação de documentos pontifícios em Portugal), optou por reter o beneplácito necessário à publicação do documento até depois de 1892. O conteúdo de interesse social desse documento revolucionário, especialmente na sua atenção ao direito de associação dos trabalhadores, opunha-se à doutrina liberal e aos interesses económicos dos poderes que sustentavam o regime constitucional.
Da mesma maneira, em 1884, é lançada a "Humanum Genus" pelo mesmo Papa, contra as sociedades secretas, resolvendo o governo da Monarquia "Fidelíssima" não permitir a sua circulação de todo, admoestando aqueles que a divulgassem, como aconteceu com D. Tomaz Gomes de Almeida, bispo da Guarda. Era este o Estado Confessional deposto em 1910.
Não admira pois que a maioria do País Católico não tivesse levantado uma palha em prol da defunta e decadente Monarquia do trapo azul e branco. A República seria um Inimigo, mas um inimigo visível e de intenções claras e sobejamente conhecidas. Não valia a pena, de todo, para a hierarquia da Igreja Católica gastar energias a trocar este novo obstáculo pelo cancro parasitário da Monarquia Constitucional.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

O Homem Evoliano


Excerto de um texto de Pietro Ferrari

Evola amava a cavalaria medieval, observando-lhe uma origem iniciática que remontava à Tradição Primordial pagã e ignorando assim o mérito da Igreja em ter temperado a conduta do Império Romano e os costumes ferozes dos bárbaros, incutindo-lhes o seu sentimento de devoção e de honra e limitando os dias de batalha com a "paz de Deus".
Evola contrapõeassim o herói ao santo (a sua falta de fé não lhe permitiu ver que o santo é já um herói!), o vencedor ao mártir (ainda que o mártir seja um vencedor por não ter renunciado à fé!), a honra à humildade, aderindo assim à leitura lendário do Graal transportado para a Ilha Branca pelos Hiperbóreos.
A Tradição Evoliana é evanescente e inacessível senão a um nível iniciático, ao contrário da Tradição Vivificadora, aquela entre pai e filho e que tem como horizonte um sentido de comunidade. O Homem Evoliano localiza-se ferozmente "de pé sobre as ruínas", mas sobre uma espécie de limbo, de interregno entre dois Mundos opostos e incomunicantes: o Mundo Moderno e o Mundo Tradicional, tornados radical e irredutivelmente em dois arquétipos abstractos.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

O Shire


O conceito de sociedade como um todo orgânico, sem lutas de classes, com uma estrutura comunitária, tem caracterizado o pensamento social católico desde o Império Romano. Em muitos sentidos, o Shire exprime perfeitamente os ideiais económicos e políticos da Igreja, conforme expressos por Leão XIII em Rerum novarum e por Pio IX em Quadragesimo anno. A autoridade tradicional (o Thain) limitada excepto em tempo de crise; a representação popular (o Presidente de Michel Delving), igualmente limitada, a subordinação e, acima de tudo, a mínima organização e conflito. É o tipo de sociedade visionada pelos Distributistas Belloc e Chesterton na Grã-Bretanha, por Salazar em Portugal, pelos autores da Constituição Irlandesa, por Dolfuss na Áustria e por Smetona na Lituânia. Por muito ou por muito pouco que estes habitantes do mundo real se tenham aproximado do seu objectivo, a verdade é que o que pretendiam era algo muito semelhante ao Shire.

Charles A. Coulombe, The Lord of The Rings: A Catholic View

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Princípios e Economia

Abandonment of Christian principles led to Europe’s economic crisis: Hungarian Prime Minister 
Orban said at the XIV Congress of Catholics and Public Life on “Hope and the Christian response to the crisis.” Behind every successful economy, Orban said, there is “some kind of spiritual driving force.” Viktor Orban “A Europe governed according to Christian values would regenerate.”
 “The European crisis,” he said, “has not come by chance but by the carelessness and neglect of their responsibilities by leaders who have questioned precisely those Christian roots. That is the driving force that allowed European cohesion, family, work and credit. These values were the old continental economic power, thanks mainly to the development which in those days was done in accordance with [those] principles.”

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

A Batalha Cultural que os Católicos perderam em Portugal


e de como estão prestes a perder a Guerra, se não mudarem de táctica.

Quando o Muro caiu, há 23 anos atrás, poucos dentro da Igreja Católica poderiam pensar que a principal ofensiva cultural contra os valores religiosos da sociedade ocidental ainda estava para vir.
Após um século de combate contra o relativismo moral, o socialismo, o individualismo e o comunismo, a Igreja Portuguesa encontrava-se refasteladamente encostada ao novo regime democrático, manobrando na penumbra a pouca influência que ainda tinha dentro do Estado e da vida sócio-cultural do País. Depois de um século panfletário como o século XIX, depois da pujança ideológica e intelectual da primeira metade do século XX, a Igreja chegava ao virar de século desarmada - os pasquins católicos, os jornais conservadores e tradicionalistas, as publicações de obras de pensadores e políticos da Doutrina Social da Igreja, tudo isso desapareceu ou recuou em audiência até chegar à irrelevância. A Igreja continuava forte, as suas congregações ainda movimentavam as comunidades urbanas e rurais - no entanto, o seu papel nos destinos do pensamento político do País esfumava-se nos poucos políticos católicos (e quase todos católicos progressistas) que permitia o Estado do pós-25 de Abril. A principal culpada desta retirada foi, e é, a ideia retirada de um certo espírito pós-Concilio Vaticano II que dita que a Igreja só se deve envolver na política através dos leigos, ou que todos os esforços de aplicar a Doutrina Social da Igreja devem ficar-se pelos programas dos partidos democrata-cristãos.

Com isto, não pretendo defender a presença de bispos e padres no parlamento da República. A capacidade de os clérigos contribuírem para o descrédito da Igreja Católica na sociedade tem sido fartamente comprovada pela acção de muitos dos últimos bispos portugueses, especialmente D. Januário Torgal.
No entanto, não existe uma única revista de alcance nacional, ou jornal, inteiramente votado às doutrinas da Igreja, à cosmovisão católica dos problemas do país. As congregações católicas perdem-se em tercinhos e em passeatas, mas não existe num país com 80% de católicos uma publicação mensal que combata o socialismo, a devassidão moral, as concepções new age do casamento e do "direito ao corpo", a corrupção do Estado ou o espoliar violento que tem vindo a sofrer o nosso património público.

Em vez disso, a agenda católica para a política prende-se no retardamento de reformas que os próprios líderes da comunidade sentem ser, ao fim e ao cabo, imparáveis. A atitude meramente reaccionária, meramente defensiva, de perpétuo cerco sem perspectivas de socorro, só pode trazer às fileiras do cristianismo o desânimo e o desespero. Essa atitude defensiva girava à volta de alguns princípios inegociáveis, ou assim pensa a Igreja quando os discute com o Estado Português: o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Quis a Igreja descansar sobre os seus louros após a primeira vitória no referendo do aborto - no entanto, nada fez para combater a proliferação da cultura do contraceptivo, chegando até alguns dos seus "sequazes" a apoiá-la. Quando chegou a altura de se bater nas urnas pela segunda vez, uma nova geração estava já preparada para aceitar, naturalmente, o alargamento do período do aborto e do seu uso como novo contraceptivo. Quis a Igreja combater, com marchas e artigos e entrevistas, o casamento homossexual - no entanto, não mostrou metade do ardor para combater os sucessivos regimes de divórcio, que o facilitavam ao ponto de o casamento se tornar no mais frágil contrato do código civil português. Quando a maioria parlamentar e o governo quiseram, por fim, acabar de perverter totalmente esse instituto, já metade do caminho estava andado na corrupção. Só os católicos, e a Igreja, não quiseram ver isso.

No entanto, nos bastidores da política, a Esquerda ataca noutros sentidos com o mesmo fervor com que ataca os pontos "inegociáveis" da ICAR. Hoje em dia, o catolicismo nada tem a dizer sobre a subsidiariedade, a democracia, a economia e a propriedade. Da Doutrina Social da Igreja sobram princípios vagos e mal-entendidos que já começam a ser gozados nas faculdades de Verão dos partidos ditos "de direita". 
Nada diz a Igreja sobre a forma como a propriedade está distribuída no país. Os conceitos individualistas são aceites com a mesma complacência com que se torce o nariz às investidas estatistas nos domínios da cultura, da arte, do poder local e até da caridade. O ataque aos símbolos nacionais, a destruição do ambiente e da paisagem portuguesa - tudo isso são causas que o conservadorismo católico esqueceu ou relelgou para a Esquerda. Absorvendo estas causas, a Esquerda adaptou-as à sua ortodoxia. O mesmo fez com o estudo da História, da Sociologia, da Artes. Não há influência católica relevante no cinema ou na pintura portuguesa. Do que se escreve sobre o passado, muito é feito às custas da nossa antiga religião, com a pior das intenções, ainda que tenha sido pior nos anos 70.
Tudo isto porque, das organizações, associações, paróquias, ordens e conventos, congregações e prelaturas, que a Igreja tem em Portugal, nem um tostão é direccionado para a Batalha Cultural que o "progressismo" ganha, todos os dias, nos jornais e nas televisões nacionais. Não existe uma escola intelectual para a Doutrina Social da Igreja que influencia uma publicação regular sequer, não existem projectos apostados numa nova estética, numa nova mensagem que conduza a tradição e doutrina católicas às massas. Os donos dos media ganharam à Igreja uma batalha que o Islamismo e o Protestantismo não conseguiram - durante duas décadas, ou mais, calaram a voz pública da Igreja e separaram-na dos fiéis. Se no fim dos anos 80 a indignação dos católicos se faz ouvir para um sketch de Herman José que ataca a Rainha Santa Isabel, na primeira década do século XXI os Gato Fedorento podem retratar Jesus, no canal público de um país predominantemente católico, da forma que lhes apetecer. Afinal de contas, os católicos aprenderam a ser modernos e tolerantes.

A Igreja não possui, neste século, nenhum equipamento próprio para enfrentar a modernidade. Não possui uma Teoria, porque não tem veículos que a transportem até as pessoas. Não possui uma Estética, uma vez que os seus próprios valores morais estão dependentes das apreciações morais dos novos tempos - e sem moral não se constrói, imita-se. Se há movimentos que tentam criar o seu próprio espaço na sociedade política, logo são desaconselhados a usar o nome "católicos". Como se o nome fosse um desincentivo à simpatia dos outros grupos. E se for? Que alternativas temos, e que alternativas tiveram os primeiros cristãos? Por muito mal vistos que fossem pela sociedade romana, nunca lhes passou pela cabeça chamarem-se "Grupos de Amigos da Pesca" ou "Associação Sal da Terra". 

A Igreja enfrenta vários desafios neste século que agora começa. No entanto, nenhum desafio é maior para a Igreja do que encontrar, de novo, a forma de se exprimir dentro da sociedade. Essa expressão terá que assumir uma imagem de força, de confiança, de caridade e de esperança - uma mensagem verdadeiramente jovem, enérgica, capaz de assegurar pela força da oração e da acção uma nova aurora para Portugal e para aquilo que realmente Portugal significa. E isso só se faz autonomizando a Igreja - arrancando-a dos moldes da sociedade moderna em que alguns bem-intencionados padrecos pra frentex lhe impuseram (os mesmos que acusam a minha geração de sermos os "adolescentes conservadores e reaccionários"), dando-lhe símbolos próprios, intelectuais próprios, economistas próprios, arquitectos próprios, historiadores próprios, juristas próprios - e acima de tudo isso, artistas e poetas próprios.

Talvez agora, que os "inegociáveis" que os bispos mantiveram a custo durante os primeiros 40 anos da Igreja se foram à vida, uma nova fase se abra para a Igreja e para os cristãos, Uma fase em que estes finalmente percebam que não têm nada a perder no espectro político, porque já nada têm, e tudo a ganhar no prisma espiritual.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Ateísmo

mais daqui

Conséquence politique de l’athéisme

- La négation de l’existence de Dieu est l’athéisme individuel et spéculatif,
- la souveraineté du peuple est la négation de la souveraineté de Dieu, l’athéisme politique et social,
- et peut-on croire que l’être qui est la sagesse infinie et l’ordre essentiel, auteur et conservateur de la société humaine, ait abandonné le soin de son ouvrage à la foule ignorante et passionnée, et qu’il puisse approuver que les hommes fassent de la législation, cette plus haute fonction de l’intelligence qu’il leur a donnée, une arène où l’ambition, la cupidité, la jalousie, l’esprit de révolte se livrent un combat acharné trop souvent décidé par le votant le plus incapable ?

La supériorité de la conception chrétienne de la souveraineté

Mais votre Dieu, dira l’athée, en qui vous placez la souveraineté, n’est-il pas aussi une abstraction, un être idéal, création de votre imagination, qu’on ne peut, pas plus que le peuple, voir ou entendre ?

C’est ici que triomphent les doctrines catholiques du christianisme (et c’est ce qui fait sa force, ses bienfaits, disons même sa divinité) (en marge : les payens avaient une idée confuse de cette vérité puisqu’ils réalisaient dans les absurdités de leur mythologie l’idée de leurs dieux et les personnifiaient dans les plus vils animaux et même dans des êtres insensibles).

Le christianisme est la « réalisation » de l’idée abstraite et spéculative de la divinité, la personnification, qu’on me passe ce terme, de Dieu même, qui après avoir fait l’homme à son image, s’est fait lui-même à l’image de l’homme pour être connu, aimé et adoré des hommes.

Il y a 18 siècles que le fils de Dieu, Dieu lui-même, a daigné revêtir la forme humaine, est né, a vécu, a souffert, est mort comme homme, et a conversé longtemps au milieu des hommes. En mémoire de ce grand événement et pour en conserver au monde un perpétuel témoignage, il a laissé sur les autels sa présence réelle d’une manière mystique et sous des apparences sensibles : il a laissé encore dans des livres sacrés le dépôt de ses leçons, règle éternelle de toute morale et de nos devoirs, dans l’histoire de sa vie mortelle le modèle éternel de toutes les vertus, et dans la constitution de la société qu’il a fondée et dont il est le pouvoir suprême, le type de toute constitution naturelle de société.

Ce Dieu fait homme est donc
- celui que les chrétiens reconnaissent pour le vrai souverain,
- le pouvoir de la société,
- l’homme général représentant dans sa personne l’humanité toute entière,
- il est comme il le dit lui-même, le roi des rois,
- celui par lequel les rois règnent et les législateurs rendent des lois justes et sages, per me reges regnant,
- tout pouvoir, dit-il, lui a été donné au ciel et sur la terre,
- nul autre nom que le sien n’a été donné à l’homme pour être sauvé, et à la société pour être heureuse et forte ;
- c’est la pierre fondamentale de l’édifice social contre laquelle tout ce qui se heurte sera brisé,
et c’est ce qu’ont oublié trop souvent les chefs des nations chrétiennes qui n’ont reçu de force que pour protéger la religion, et qui, tout observateurs qu’ils peuvent être de ses préceptes dans leur conduite personnelle, ne la pratiquent jamais mieux que lorsqu’ils la défendent.

C’est ce Dieu fait homme, ce Dieu sauveur, représentant dans sa personne l’humanité toute entière, présent à la société et l’instruisant par ses leçons et ses exemples, c’est enfin le Dieu de la société, c’est sa Providence que nient nos beaux esprits qui pour se donner une apparence de religion admettent comme vérité abstraite et spéculative l’idée d’un Dieu sans application au gouvernement de l’univers et à la conduite des hommes ; déistes qui ne vivent pas assez pour devenir athées parce que leur déisme n’est, même à leur insu, qu’un athéisme déguisé !

Note sur le droit divin

Est-ce ici le droit divin du pouvoir dont les déclamateurs hypocrites ont fait un épouvantail pour les esprits faibles et les ignorants ?

Non assurément, le droit divin tel qu’ils feignent de l’entendre serait la désignation spéciale, faite par Dieu lui-même, d’une famille pour régner sur un peuple, désignation dont on ne trouve d’exemple que pour la famille des rois hébreux d’où devait naître le sauveur du monde ; au lieu que nous ne voyons le droit divin que dans la conformité des lois sociales aux lois naturelles dont Dieu est l’auteur :
dans la religion chrétienne, dit Bossuet, il n’y a aucun lieu, aucune race qu’on soit obligé de conserver à peine de laisser périr la religion et l’alliance.
De l’origine protestante de la souveraineté du peuple

Il est aisé de voir que la fiction de la souveraineté du peuple nous est venue du protestantisme, religion toute en fictions qui n’a ni autel, ni sacrifice, rien de sensible et n’a que des paroles.

Dès qu’il a eu placé le pouvoir religieux dans l’assemblée des fidèles, il a été conduit à placer le pouvoir politique dans la foule des sujets, et après avoir ainsi produit dans les variations infinies de sa doctrine l’anarchie des croyances, il n’a pu qu’enfanter dans sa politique l’anarchie des volontés.

Laissons ici parler sur la souveraineté du peuple le plus profond et le plus éloquent interprète de la religion et de la politique chrétienne catholiques, Bossuet, qui a traité spécialement ces matières dans le Cinquième avertissement aux protestants.

Mais sans encore examiner les conséquences du système, allons à la source et prenons la politique du ministre Jurieu par l’endroit le plus spécieux.
Il s’est imaginé que le peuple est naturellement souverain, ou pour parler comme lui, qu’il possède naturellement la souveraineté, puisqu’il la donne à qui lui plaît.

Or cela est errer dans le principe et ne pas entendre les termes car, à regarder les hommes comme ils sont naturellement, et avant tout gouvernement établi, on ne trouve que l’anarchie ; - - c’est-à-dire dans tous les hommes une liberté farouche et sauvage,
- où chacun peut tout prétendre et en même temps tout contester,
- où tous sont en garde et par conséquent en guerre continuelle contre tous,
- où la raison ne peut rien, parce que chacun appelle raison la passion qui le transporte,
- où le droit même de la nature demeure sans force puisque la raison n’en a point ;
- où par conséquent il n’y a ni propriété, ni domaine, ni bien, ni repos assuré, ni, à vrai dire aucun droit, si ce n’est celui du plus fort, encore ne sait-on jamais qui l’est, puisque chacun tour à tour le peut devenir selon que les passions feront conjurer ensemble plus ou moins de gens ;

savoir si le genre humain a jamais été tout entier dans cet état ou quels peuples y ont été et dans quels endroits ou comment et par quel degré ils en sont sortis, il faudrait pour le décider compter l’infini…

il ne peut y avoir de peuple en cet état, il peut bien y avoir des familles mal gouvernées et mal assurées, il peut bien y avoir une troupe, un amas de monde, une multitude confuse, mais il ne peut y avoir de peuple, parce qu’un peuple suppose déjà quelque chose qui réunisse, quelque conduite réglée et quelque droit établi ce qui n’arrive qu’à ceux qui ont déjà commencé à sortir de cet état malheureux, c’est-à-dire de l’anarchie.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

trinta dinheiros

Compreendo perfeitamente as críticas daqueles que consideram inadmissível que a Igreja tenha meios de se auto-sustentar, as famosas "fortunas do Vaticano".
Era-lhes delicioso que a Igreja tivesse de depender do Estado para sobreviver, para as suas acções religiosas, para pagar os salários dos seus ministros.

A própria ideia de um Regime de Função Pública para os padres ainda vai surgindo, aqui e ali pelo Mundo, com claras inspirações num exemplo de sucesso da cooperação Estado-Igreja, tão primordial como a própria história de Cristo. Pois se os apóstolos são os antecessores dos bispos, está presente na Bíblia um caso óbvio em que um deles aceitou receber um salário público. O ordenado terá ficado, se a história não nos engana, por qualquer coisa à volta de trinta dinheiros...

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Maçonaria e Gnose

A Aridez da Pedreira
d' o corcunda
(...) Isto porque a Maçonaria, quer a teísta quer a ateísta, se funda na compreensão, imediata e não-revelada (sem Graça), de certos segredos do tecido do Universo. Esta visão gnóstica (de onde vem esse culto inevitável da tolerância senão de uma revelação privada?) colide com e subverte a Revelação, que é fundamento do Cristianismo católico, e sobrepõe a esta visão uma principiologia secular. Dispensa para a compreensão do mundo, do Bom e do Justo, a Igreja e o clero.
(...)
Já vimos como a Maçonaria é patriótica (quando por pátria entende os seus interesses). Já vimos como é tolerante (com aqueles que se lhe submetem). O Samuel diz, agora, que a Maçonaria é “uma pluralidade de crenças e pertenças onde vários indivíduos podem compaginar-se com esse anticlericalismo e outros não. É um universo simbólico assente na tolerância e pluralismo que não liga com os rótulos profanos e maniqueísmos com que estamos habituados a lidar.”
Em suma, é um sistema de crença na tolerância que tolera quem não adere a esse mesmo valor. Como comecei o meu post anterior, a gente de facto lê, mas nem acredita… Pelos vistos também não liga com o senso-comum ou um módico de razoabilidade.
À ideia maçónica subjaz um princípio Relativista de fundo, a ideia de que não há dogma ou Revelação, que tudo é passível de discussão, que o livre-pensamento é o elemento salvífico do Homem, e a obediência à loja a norma de comportamento. E esse relativismo vem acompanhado do carácter perfectível do Homem. A Maçonaria (todas as maçonarias o fazem) acredita na perfectibilidade do Homem, na capacidade que este tem, em si e por si, de alcançar a sua forma perfeita.
Por isso é que todo este liberalismo que se diz anti-utópico e anti-relativista, mas que aproveita todas as oportunidades para colocar todo o saber, conhecimento e fé à mercê da Vontade Humana, merece um sério olhar. Mas que o não levemos a sério...

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

What is a reactionary?

The second extraordinary feature of Gómez Dávila’s work is its “reactionary,” not merely conservative, content. “Reactionary” is mostly used today as an abusive epithet, sometimes as a synonym for that all-purpose slur, “fascist.” However, Gómez Dávila proudly labeled himself a reactionary and actually created a literary persona for himself as “the authentic reactionary,” precisely because of the stigma attached to the term. Gómez Dávila’s lifework was to be an authentic reactionary. The term “reactionary,” then, demands some explanation. The reactionary, in the common political sense, is a rare breed in America, primarily because of America’s own acceptance of the Enlightenment. The reactionary, in European history, as the name indicates, is fighting against something. That something is the French Revolution (and the Enlightenment). The conflict between the forces of the Enlightenment and the ancien régime was much more polarizing in Europe than it ever was in America. While America in the aftermath of its own revolution certainly witnessed its own share of power struggles between politicians with traditional, more aristocratic leanings (Federalists) and more radically democratic tendencies (Republicans), both sides generally accepted the legitimacy of Enlightenment ideals of liberal politics, which included democracy, individual rights, and a commercial society, among other things. There was, ex hypothesi, never any serious possibility that a group of disaffected American Tories would conspire to restore the authority of the British crown over the newly-independent United States.

In Europe, on the other hand, and especially in France, the conflict between the heirs of the French Revolution and its opponents—the original reactionaries—still raged during the time Gómez Dávila lived in Paris. Indeed, reactionary ideals exercised a powerful influence over certain sectors of French society until after World War II. One important reason for the persistence of reactionary ideals in France was the Catholic Church’s own resistance to modern liberalism (e.g., Pius IX’s Syllabus of Errors) and the persecution it often faced at the hands of secular governments following the Revolution, especially the Third Republic. In France, Catholicism and reaction were often overlapping (though not always identical) categories. The tension between modern liberalism and reaction continued to be felt in French Catholic circles during Vatican II. Though reaction as a cohesive movement largely died in the wake of the Council, it has survived in some French Catholic circles to this day, most visibly among the Lefebvrites (SSPX).

Gómez Dávila’s brand of reaction, however, was different. He did not mean to identify himself exclusively with a narrow political position. In several aphorisms, he acknowledged that there is no possibility of reversing the course of history. Traditionalism, in his eyes, could never be a viable basis for action. Indeed, the reactionary’s task is to be the guardian of heritages, even the heritage of revolutionaries. This certainly does not mean that Gómez Dávila made his peace with democracy; all it means is that he also did not allow himself to be deluded by promises of the restoration of the old order. Moreover, in matters of religion, despite his disdain for Vatican II and his fierce adherence to the traditional Latin Mass, which he shared with most Catholic reactionaries, he recognized that the ordinary reactionaries, the so-called “integralists” of the period, were incapable of renewing the Church. For instance, he maintained in one aphorism that the Church needed to make better use of the historical-critical method of Biblical research—a suggestion which would make many ordinary reactionaries furious. Finally, his appreciation of some authors not usually associated with conservative Catholicism, such as Nietzsche and Heidegger, might make some “traditionalist” readers nervous.

If Gómez Dávila’s brand of reaction was different, what then did he actually stand for? For Gómez Dávila, the reactionary’s task in our age is to resist democracy. By democracy he means “less a political fact than a metaphysical perversion.” Indeed, Gómez Dávila defines democracy as, quite literally, “an anthropotheist religion,” an insane attempt to rival, or even surpass, God. The secret of modernity is that man has begun to worship man, and it is this secret which lurks behind every doctrine of inevitable progress. The reactionary’s resistance, therefore, is religious in nature. “In our time, rebellion is reactionary, or else it is nothing but a hypocritical and facile farce.” The most important and difficult rebellion, however, does not necessarily take place in action. “To think against is more difficult than to act against.” But, all that remains to the reactionary today is “an impotent lucidity." Moreover, Gómez Dávila did not look forward to the establishment of a utopia; what he wanted was to preserve values within the world. For this purpose, not force but art was the more powerful weapon.


in Don Colacho’s Aphorisms, A Brief Overview of the Thought of Nicolás Gómez Dávila

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Chaves do Céu

Isaías 22:22

"Naquele dia chamarei a meu servo Eliaquim, filho de Hilquias, e vesti-lo-ei da tua túnica, e cingi-lo-ei com o teu cinto, e entregarei nas suas mãos o teu governo; e ele será como pai para os moradores de Jerusalém, e para a casa de Judá.
Porei a chave da casa de Davi sobre o seu ombro; ele abrirá, e ninguém fechará; fechará, e ninguém abrirá."

Evangelho de S. Mateus, 16:19:

"Também Eu te digo: Tu és Pedro, e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do Abismo nada poderão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligardes na terra, será desligado nos céus".

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Four Religions


Four religions:

Liberalism: A single human world ordered by pure reason, based on pure (content-free) concepts. Freedom says you ignore the content of human goals so you promote all of them simply as such, and equality says you ignore the content of human qualities so you treat all men as equal in value. Put them together and you get liberalism.
Islam: A single human world ordered by pure will. There’s no place for reason, since God, who acts by arbitrary choice and is not bound by reason, is the immediate cause of everything.
Judaism: Two parallel human worlds, the public world everyone is part of that can be appropriately ordered by pure reason, and a private Jewish world ordered by will in the form of a contract between God and the Jewish people that imposes arbitrary conditions like keeping kosher.
Catholicism: Two human worlds, the order of nature and the order of grace, that are conceptually distinct but cannot be separated without violence because they are part of a single rational divine order: grace completes nature, and is meant for all.
To the extent the foregoing schema approximates reality, it appears that liberalism and Islam are direct mortal foes, and liberalism and Judaism are natural allies, since they need not interfere with each other. Liberalism and Catholicism can work together on some practical issues but in the long run are irreconcilable since the conceptions or reason and reality are different—Catholic reason has natural-law content, liberal reason does not.

domingo, 17 de julho de 2011

Os Alunos da Indiferença

Os Alunos do Liberalismo insurgem-se contra aquilo que lhes parece ser um atentado à sua forma pragmática de vida. Quando a Universidade Católica visa estabelecer um comprometimento entre estudantes e professores para a criação de hábitos de indumentária que dignifiquem a dita instituição, insurgem-se os novos Marqueses de Sade. É ver-nos libertados dos nossos preconceitos:
Engana-se quem acha que a forma de vestir é um assunto marginal ao bom funcionamento da UCP, sendo esta uma universidade e uma instituição eclesiástica. É do senso comum que as melhores universidades mundiais aplicam rigorosos códigos de vestuário aos seus alunos e funcionários contratados. Veja-se o caso anglo-saxónico de Oxford, Cambridge, Harvard ou MIT. Estas faculdades de topo obrigam, claramente, as pessoas que as frequentam a vestirem-se do modo mais impecável possível. Não se vêem, por lá, alunos com calças de fato de treino, chinelos, calções ou t-shirts. Aliás, o que é isso de estar confortável quando o mais importante é estudar?
É óbvio que, para o jacobinismo liberal/conservador/democrata-"cristão", a única função de uma UCP é providenciar educação a meninos que queiram andar vestidos de chinelos nas aulas. Que nos interessa a eles, direcção de uma Universidade Católica, que um jurista seja bom pai, bom cidadão, se souber na ponta da língua o Código Civil? Ou que um ex-aluno viva conforme padrões de dignidade, desde que ganhe montes de dinheiro? Toda a gente sabe, ensinaram-nos os Alunos do Indiferentismo, que "dignidade" é um conceito abstracto, enquanto que o dinheiro, especialmente para realização pessoal, é um bem concreto - e que mais há na vida além daquilo que reluz, pergunta o leitor liberal? Ainda bem que, perante a ignorância dos educadores e dos pedagogos experientes da UCP, temos o apoio intelectual dos alunos, ajudando-nos a viver a construção de uma sociedade mais livre.

E, claro, a revolucionar conceitos, largando as grilhetas da etimologia ou até do mero senso comum.
Desde logo, arbitrariedade nos critérios de ''bem vestir'', possibilidade de abuso de poder de quem determina o que é ''vestir bem'', censura à liberdade de expressão no que vestir e, mais grave, o incentivo à delação e à denúncia. No fundo, a UCP deve querer criar uma polícia de bons costumes. Tenho medo é de saber quem vão ser os agentes da autoridade.
Queriam, com toda a certeza, os alunos do Idiotismo, que a direcção especifica-se, exaustivamente, a profunda ontologia de conceitos como "vestir bem", para que os nossos proponentes do livre-mercado e do amor-livre se sentissem menos confusos e menos afectados por tirânicas incógnitas. Deverá também, no mesmo documento onde explicita o que é "vestir bem", a instituição católica se dignificar a definir outros conceitos nebulosos, como a "dignidade", a "comunidade académica" e por último, para que as mulas do senhor Hobbes não se sintam oprimidas, que finalmente expliquem a estes estudantes da Católica o que quer dizer, em pouco mais de 600 páginas, "instituição da Igreja".

O que é bom em discutir com liberais é a oportunidade que temos, de vez em quando, em lhes pregar um tronco destes na testa. Dois dias depois, no entanto, acaba por cair outra vez.

Os alunos do Liberalismo, arvorados em defensores da Liberdade, mais não fazem que defender a substituição de uma Ética por outra. A que combatem, a que nasce dos ensinamentos de Cristo, é o novo crime a perseguir, a nova forma de vida a destruir. Tudo no nome de uma Liberdade que está, obviamente, intrínseca e unicamente ligada à forma de vida e linha de pensamento que possuem. Tudo o que se situa além disso é um repugnante manifesto de um passado vergonhoso.

Manifesta-se também o presente paladino da Liberdade contra a perspectiva de uma censura, aparentemente existente no inofensivo ponto três do comunicado da UCP.
Contra esta censura apela-se, obviamente, à censura da dita prática promulgada pela instituição responsável pelo ensino naquele estabelecimento. Mas não lhe chamemos censura; para tal, teríamos de ensinar aos Alunos do Liberalismo o significado de Censura, e esses eles já sabem - é tudo o que lhes proíba de fazer o que quiserem. E morram os dicionários.

Já para não falar na imensa justiça com que se comparou a directiva da UCP com uma instituição histórica que exercia funções judiciárias. Estes meninos bebem.
Um dia destes teremos a liberalidade portuguesa a cortejar o seu esplendor na Sluts Walk Lisboa. Ou será que o CDS/PP ainda não gosta dessas coisas?

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Second Creation

“After having lovingly soothed those great wraths and after having calmed those furious tempests with her gaze alone, the Church raised a monument from a ruin, an institution from a custom, a principle from an event, a law from an experience; to say it in a word, order from chaos, harmony from confusion. Undoubtedly, all the instruments used for Her creation, like chaos itself, were taken from that chaos; Hers was only the enlivening and creating force. In that chaos there was, in embryonic form, everything that would be born and live, the Church, bereft of everything, possessed the being and the life, everything came into being and everything came alive when the world lent an attentive ear to her loving words and fixed its gaze on her resplendent beauty.

“No, men had not seen anything like it because they had not seen the first creation, neither will they see it again for there will not be three creations. One might say that God, regretting that He had not made man a witness of the first, allowed His Church a second creation just so man could behold it. ” — Donoso Cortes

domingo, 23 de janeiro de 2011

Um "Austríaco" no Vaticano?

Ettore Tedeschi, director do Banco do Vaticano, declarou recentemente as suas sérias reservas em relação à política monetária dos EUA e da UE, que ele reputa de ferozmente keynesianas:
He is known as a staunch capitalist with a deep concern for the Church’s social teaching. He is also a former professor of financial ethics at the Catholic University of Milan.
(...)

In Europe, he said, the issue is the opposite. Because of the lack of widespread private debt, a "privatization" effort is being enacted to absorb the large public debt of banks and businesses.

This also is Keynesian policy, which "perseveres against the scorned savings," Tedeschi said.

Governments on both sides of the Atlantic, he said, are committed to Keynes' policy of increasing public debt to sustain levels of economic production, consumption, and employment.

He said artificially low interest rates are another key to the strategy of increasing spending and discouraging saving. With no incentive to keep money in the bank, those who would have otherwise been savers are pushed to spend.

"Zero interest rates factually equal a de facto transfer of wealth from he who was a virtuous saver (although not for Keynes) to he who has become virtuously (for Keynes) indebted," he said. "Practically, it's about a hidden tax on poor savers, a tax transferred to the wealthy, (that is), over-indebted states, business people and bankers.”

Although the alternative to zero interest in such a situation is economic collapse and eventual default, the zero-rates "are not sustainable and are dangerous," Tedeschi warned.

"They destroy savings, which is an essential resource to create the base for bank credit; they promote speculation on real estate and securities, create illusory artificial values rather than scaling them down; they push consumption to more risky debt; they alter the market with artificial values and thus lead to belief that the very markets do not know how to correct themselves."

The biggest danger, Tedeschi said, is that zero interest rates "permit, or impose governments into management of the economy, without correcting inefficiency and facilitating distortions in the competition."

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Natal

Aquele que se ofereceu para ser sacrificado em nosso lugar não é um cobrador de dívidas nem um acusador, mas um salvador. Ele nada pede, apenas oferece. E em troca aceita uma palavrinha, um sorriso, uma intenção inexpressa, qualquer coisa, pois não é irritadiço nem orgulhoso: é manso e humilde.

Se, sabendo disso, você ainda é vulnerável aos olhares acusadores e às palavras venenosas, se ainda sente ante os intrigantes e os maldosos um pouco de temor reverencial e tenta aplacá-los com mostras de submissão para que eles não o exponham à vergonha ou não o castiguem de algum outro modo, é porque ainda não compreendeu o sentido do Natal.

Esse sentido é simples e direto: os maus e intrigantes não têm mais nenhuma autoridade sobre você. Não baixe a cabeça perante eles, não consinta que suas fraquezas sejam exploradas pela malícia do mundo.

Jesus Cristo já pagou a sua dívida.

É por isso que comemoramos o Natal.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Policarpo representa uma Igreja pusilânime e cortesã que, certamente, escapa ao múnus de Joseph Ratzinger. Não foi por acaso que, aquando da visita dos Bispos lusos ao Vaticano, foram forçados a ouvir muita coisa de que não gostaram. Designadamente que olhavam demasiado para si próprios. Ora D. José Policarpo é, nesta matéria, um epígono exímio. Sente-se confortável no regime e o regime sente-se confortável com ele. A Igreja é deste mundo mas representa outra coisa. Não conviria abusar.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Comentário a um texto de Palmira F. SIlva

Inconsistências neste post (a negrito os argumentos expostos pela autora do texto aqui refutado):
"Foi o significado especial que o solstício de Inverno desde sempre assumiu que levou a igreja cristã a designá-lo como o aniversário do seu deus incarnado. Com esta medida não só aculturou festividades profundamente enraizadas como aculturou ciclos divinos já muito bem estabelecidos nas religiões que a antecederam na sua esfera de influência: o nascimento do deus no solstício de Inverno, a sua morte, na cruz em muitos casos*, e ressurreição no equinócio da Primavera.Os aniversários do Attis frísio, do Dionísio grego, do persa Mitra ou do Osíris egípcio, por exemplo, eram todos celebrados no solstício de Inverno, na sua maioria a 25 de Dezembro"
1- O Solstício de Inverno não é a causa única para todas as celebrações religiosas que existiram à face da Terra. Nem sequer se passaram todas no mês de Dezembro. Razões:
1.1 - O Calendário Latino tem peculiaridades que não estão presentes nos calendários de outras culturas religiosas. Uma dessas peculiaridades é existir um 25 de Dezembro.
1.2 - O Culto de Átis não tem semelhança alguma como de Jesus Cristo. Primeiro, porque o seu culto está ligado à fertilidade e ao auto-flagelamento (Átis cortou os seus genitais). Consultei 3 dicionários de Mitologia Greco-Romana e não encontrei uma única referência a um possível renascimento 3 dias após a morte. Onde quer a a Palmira tenha lido isso, é possível ser patranha.
1.3 - Não há data alguma que indique que Mithra ou Osiris nasceram no dia 25 - pelas mesmas razões que 1.1, e por falta de fontes que apontem tal facto.

2 - Sobre as tradições cristãs do Natal:
Tudo o que associamos ao Natal, prendas, festa, decorações, etc. remonta a esses antigos ritos pagãos e são património cultural de todos
2.1 - "prendas, festa, decorações, etc." não fazem parte da tradição cristã de Natal. Existe uma tradição religiosa e outra desenvolvida pelas comunidades, muitas vezes independente da religiosa, outras vezes com elementos claramente aproveitados da religião predominante, mas sempre um elemento à parte da celebração religiosa.

3 - Sobre Crucificações:
Os vários deuses Sol não são os únicos deuses encontrados crucificados em stauros sortidos, nem os únicos a ressuscitar após o sacrifício, Osiris e Hórus no Egipto, Krishna na Índia, Quetazlcoatl no México, Hesus dos druidas, Attis na Frígia, são apenas alguns exemplos.

Hórus não é crucificado, Osíris também não. O primeiro nunca morreu, o segundo foi desfeito em mil pedaços pelo irmão Set. Quanto a Quetzacoatl, nenhuma da simbologia atribuída a este Deus envolve uma cruz. Mais, a iconografia azteca possui martelos e foices, e ainda não se pensou que lá existissem comunistas. A existência de cores variadas nos túmulos egípcios também não é sintomático da existência de um movimento LGBT nas terras do Faraó. Krishna também não foi crucificado.

4 - Sobre o imperador Constantino:
O imperador Constantino, que viveu e morreu mitraista, promoveu vários elementos do seu culto pessoal ao Deus-Sol Mitra,
seria mais honesto, do ponto de vista académico, lembrar que a não-conversão de Constantino nos últimos dias ao Cristianismo é apenas uma opinião minoritária entre alguns académicos, visto a grande maioria de provas contemporâneas provarem-nos exactamente o contrário.

5- As diferenças do culto persa para o judaico-cristão:
O mitraismo, uma religião milenar elitista e iniciática, herdeira da riquissima tradição religiosa persa expressa no Avesta, com inúmeros rituais muito semelhantes aos depois adoptados pelos cristãos, nomeadamente a cerimónia da missa ou antes a Myazda mitraica,
estão provadas pela simples evidência que o culto judaico é a principal fonte para a liturgia cristã: pelo simples facto de os primeiros cristãos se terem convertido do judaísmo. O mitraísmo teve muito sucesso entre as castas militares de Roma, mas foi o cristianismo que conquistou as classes baixas das cidades e também as elites governativas do Império. O excesso de importância atribuido ao culto de Mitra é compreensível, no entanto, devido ao facto de mais provas arqueológicas nos terem ficado dos campos militares romanos do que dos palácios e cidades.
5.1 - A designação de "Pai" para um líder de uma comunidade religiosa:
o Pater ou Papa, era muito popular entre os soldados romanos, como assinala o historiador romano Quintius Rufus no seu livro «História de Alexandre».
não é propriedade dos persas. É muito, mas mesmo muito alargado. Além de que Papa é uma designação que só muito mais tarde se veio a aplicar ao Bispo de Roma, muito depois do fim de qualquer vestígio de culto de Mitra na Europa Ocidental.

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"(...) as leis não têm força contra os hábitos da nação; (...) só dos anos pode esperar-se o verdadeiro remédio, não se perdendo um instante em vigiar pela educação pública; porque, para mudar os costumes e os hábitos de uma nação, é necessário formar em certo modo uma nova geração, e inspirar-lhe novos princípios." - José Acúrsio das Neves