segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Fundamentos de uma Nação Bélica

As ordenanças constituíam outra das instituições relevantes da sociedade local portuguesa, certamente uma das mais originais. Todo o reino se encontrava dividido em capitanias-mores de ordenanças, coordenadas por um capitão-mor, que devia ser o senhorio donatário ou alcaide-mor em terras onde existisse, coadjuvado por um sargento-mor. Cada capitania-mor dever-se-ia subdividir num número variável de companhias de ordenanças, chefiadas pelo respectivo capitão, com o apoio de outros oficiais. À hierarquia das ordenanças competia ter arrolados todos homens maiores de 16 anos, exceptuando os privilegiados e os velhos, para que pudessem, quando solicitados, ser recrutados para o exército de 1 . a linha ou ainda para operarem localmente como milícias quando tal fosse necessário, pelo que deviam reunir-se regularmente para receberem treino militar. Os ofícios de capitão-mor e de sargento-mor conferiam sempre nobreza vitalícia, qualquer que fosse a dimensão da capitania (os restantes, apenas enquanto eram exercidos), e exigiam um grande empenho a quem os exercia, pela natureza das tarefas requeridas e pela duração indeterminada do ofício. A estabilidade do ofício e o tremendo poder do recrutamento militar, de que eram depositários os seus detentores, constituem aspectos fundamentais para a caracterização desta instituição, ciclicamente criticada pela sua ineficácia e pelas opressões a que dava lugar . 


 Nuno Gonçalo Monteiro, Elites locais e mobilidade social em Portugal nos finais do Antigo Regime,

sábado, 15 de setembro de 2012

Pela encosta acima.

Guy adormeceu por breves instantes. Depois Ivor disse: « Guy, o que é que tu farias se te desafiassem para um duelo?»
«Ria-me.»
«Pois. Claro.»
«Porque é que te lembraste disso agora?»
«Estava a pensar na honra. É uma coisa que muda com o tempo, não é? Há cento e cinquenta anos, se alguém nos desafiasse, teríamos de lutar. Agora ríamo-nos. Deve ter havido uma altura, aí há cem anos, em que esta pergunta seria um tanto incómoda.»
«Sim. Os moralistas religiosos nunca conseguiram pôr fim aos duelos - só a democracia o conseguiu.»
«E na próxima guerra, quando formos inteiramente democráticos, suponho que será perfeitamente honroso para um oficial abandonar os seus homens. Será o dever proscrito nas Ordenações Reais - a fim da manter intactos os cadres capazes de dar instrução às futuras levas de prisioneiros.»
«É provável que os conscritos não apreciem a ideia de serem treinados por desertores.»
«Num exército verdadeiramente moderno, não achas que o facto de eles terem dado à sola os tornaria mais dignos de respeito? Parece-me que o nosso problema é vivermos num período incómodo de transição - como um homem desafiado para um duelo há cem anos.»
Guy via claramente o rosto amigo ao luar, o seu rosto austero, calmo e composto, apesar de pálido, tal como o havia visto nos Jardins Borghese. Ivor levantou-se e disse: «Bom, o caminho da honra é pela encosta acima», e foi-se embora.

Evelyn Waugh, «Oficiais e Cavalheiros»

Guernica

texto de J. Luís Andrade


Com o intuito de dourar a pílula, Guernica é sempre apresentada como uma área aberta, sem o menor interesse militar, o que, como já vimos, não correspondia à verdade. Para marcar ainda mais a imagem de idílica localidade e, quiçá, aumentar o hipotético número de vítimas, fala-se ainda do facto de o dia 26 de Abril ter sido dia do mercado semanal a que haviam ocorrido todos os lavradores da região; assim, o descontraído e pacífico encontro rotineiro, teria sido dispersado pelo inesperado e mortífero ataque da aviação alemã. A realidade, porém, é que o mercado bem como o jogo de pelota que normalmente lhe sucedia havia sido cancelado face à proximidade da frente, a menos de 15 Km, e à avalanche de tropas bascas em retirada, apenas tendo estado presentes um pequeno número de lavradores inadvertidos.

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"(...) as leis não têm força contra os hábitos da nação; (...) só dos anos pode esperar-se o verdadeiro remédio, não se perdendo um instante em vigiar pela educação pública; porque, para mudar os costumes e os hábitos de uma nação, é necessário formar em certo modo uma nova geração, e inspirar-lhe novos princípios." - José Acúrsio das Neves